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Por que é tão difícil começar a juntar dinheiro?

Histórico de hiperinflação e desconhecimento sobre investimentos são algumas das explicações para o brasileiro poupar pouco

Marketing a todo momento incentiva as pessoas a consumirem, e pode ser um vilão para quem quer juntar dinheiro (Westend61/Divulgação)

Marketing a todo momento incentiva as pessoas a consumirem, e pode ser um vilão para quem quer juntar dinheiro (Westend61/Divulgação)

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Da Redação

Publicado em 20 de janeiro de 2023, 07h30.

Mais de 70% das famílias brasileiras estão endividadas atualmente, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), apurada mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Desse percentual, aproximadamente 30% estão inadimplentes, o que representa dívidas em atraso - indícios de que é difícil, para as pessoas, juntarem dinheiro no nosso país. 

“Esses números relatam e escancaram a dificuldade que o brasileiro em geral possui de gerir sua vida financeira”, afirma a economista Dirlene Silva, fundadora e CEO na DS Estratégias e Inteligência Financeira. “Como consequência dessa má gestão está a falta de hábito de juntar dinheiro, pois juntar dinheiro requer, sobretudo, disciplina.”

O educador financeiro Evandro Mello Farias, CEO e fundador da Multiplicando Sonhos, entende que há diversos fatores para a falta de hábito de juntar dinheiro. Ele lista: 

  • O Brasil é um país que tem um histórico de hiperinflação, então as gerações que passaram por isso sentiram na pele o que é ganhar e precisar consumir imediatamente para não perder o seu poder de compra; 
  • O marketing a todo o momento incentiva as pessoas ao consumismo;
  • O país é desigual em educação e oportunidades e a falta de educação financeira no Brasil acaba por prejudicar ainda mais a tomada de boas decisões, aumentando o endividamento e as possibilidades de se ter uma reserva.

Como guardar dinheiro e investir

Além da falta de hábito de juntar dinheiro, quando consegue guardar uma reserva, o brasileiro médio não sabe bem como investir o dinheiro, que acaba indo, muitas vezes, para a poupança. Segundo a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), somente um terço dos brasileiros investe em produtos financeiros, e a poupança permanece como queridinha, com aplicações de 23% da população. Para se ter uma ideia comparativa, fundos de investimento são uma opção para 3% dos brasileiros, e a bolsa de valores, para 2%.

“O brasileiro, em geral, se apega à poupança por crença de que esta é a melhor opção”, diz Silva, da DS. “Há um problema de desconhecimento de outras opções [para investir], e o fato de a poupança ser a ‘queridinha’ pode gerar uma falta de motivação para poupar e investir.”

Isso porque quando a pessoa consegue finalmente juntar dinheiro e coloca o recurso na poupança, ela pode facilmente se desmotivar, pois o rendimento, que deveria ser a recompensa por deixar de consumir, é muito baixo, explica Silva. 

“A caderneta de poupança foi criada em 1861, antes mesmo de o Brasil se tornar república. Juntar dinheiro virou sinônimo de poupança e caderneta de poupança, de segurança. É difícil destruir esta crença, mesmo que existam outros produtos seguros e mais rentáveis.”, diz.

É ruim deixar o dinheiro na poupança?

Farias, da Multiplicando Sonhos no entanto, pontua que a poupança não é assim tão prejudicial. “Há alguns anos eu diria que deixar o dinheiro na poupança era, sim, um problema, mas hoje minha resposta é diferente”, afirma. “Para o brasileiro, sair do endividamento e conseguir guardar dinheiro já é uma grande conquista, mesmo que seja na poupança. Então, é melhor ter dinheiro na poupança do que não ter dinheiro nenhum guardado.”

Um outro mito que recai sobre o brasileiro quando o assunto é investimento é pensar que somente quem tem muito dinheiro consegue juntar, e que para fazer isso é preciso ter dinheiro sobrando. Mais um mito, diz Farias, é a falta de acesso à educação financeira nas escolas, “para que os jovens possam criar uma consciência financeira sobre a utilização do dinheiro e as vantagens que juntar dinheiro pode oferecer, como uma qualidade de vida e a tão sonhada liberdade financeira para fazer escolhas e realizar sonhos”.

Freitas diz que quando a pessoa adquire mais conhecimento sobre dinheiro, a sua relação com o tema muda. “Ser conservador em relação ao dinheiro pode ser traduzido em uma única palavra: medo! Isso mesmo, medo de perder, e a falta de educação financeira causa isso.”

Silva afirma que é necessário se permitir conhecer outros produtos financeiros, outras opções de investimentos tão seguras quanto a poupança. A recomendação dela é buscar conhecimentos sobre educação financeira. “Há ótimos conteúdos e até cursos disponibilizados gratuitamente”, afirma. “Contudo, coloque-os em prática e transforme seu conhecimento em sabedoria.”