Marte: descoberta pode ajudar a explicar por que o Planeta Vermelho se tornou frio e árido (Getty Images)
Redatora
Publicado em 6 de agosto de 2026 às 14h26.
A atmosfera de Marte pode estar sendo lentamente "arrancada" pelo vento solar. Um novo estudo identificou ondas gigantes na borda da atmosfera do planeta que funcionam como uma espécie de esteira, carregando partículas para o espaço e contribuindo para a perda gradual dessa camada gasosa.
A descoberta ajuda a explicar como um mundo que já foi potencialmente habitável se transformou no planeta frio e árido observado atualmente. A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Boston e publicada na revista científica Science Advances.
Para chegar aos resultados, a equipe combinou dados das sondas MAVEN, da Nasa, e Tianwen-1, da China, permitindo observar simultaneamente o comportamento do vento solar antes de atingir Marte e o escape de partículas da atmosfera marciana.
Diferentemente da Terra, Marte não possui um campo magnético global capaz de protegê-lo do vento solar, um fluxo contínuo de partículas carregadas emitidas pelo Sol.
Segundo o estudo, quando esse vento atinge a atmosfera superior marciana, ele provoca enormes instabilidades conhecidas como ondas de Kelvin-Helmholtz. O fenômeno é semelhante ao que acontece quando o vento sopra sobre a superfície de um lago ou do oceano, formando ondas e redemoinhos.
Essas ondas geram grandes nuvens de plasma — um gás formado por partículas eletricamente carregadas — que conseguem arrastar íons da atmosfera para o espaço. Com o tempo, esse processo contribui para reduzir a quantidade de gases que envolvem Marte.
Os cientistas já haviam observado grandes nuvens de plasma ao redor de Marte, mas ainda não sabiam exatamente o que provocava sua formação.
O avanço foi possível porque as duas missões espaciais registraram fenômenos diferentes ao mesmo tempo. Enquanto a Tianwen-1 mediu as condições do vento solar antes da interação com Marte, a MAVEN monitorou os íons que escapavam da atmosfera do planeta.
Ao comparar os dados, os pesquisadores identificaram uma ligação direta entre as ondas de Kelvin-Helmholtz e os episódios de escape em massa de partículas atmosféricas.
Outro resultado importante foi descobrir que esse mecanismo ocorre principalmente em um dos lados de Marte, dependendo da direção do campo elétrico transportado pelo vento solar. Essa observação ajuda a entender por que a perda atmosférica não acontece de forma uniforme em todo o planeta.
Os pesquisadores acreditam que esse mecanismo pode ter desempenhado um papel importante na transformação de Marte ao longo de bilhões de anos.
Há diversas evidências de que o planeta já teve uma atmosfera muito mais espessa, temperaturas mais elevadas e água líquida na superfície. À medida que essa atmosfera foi sendo perdida para o espaço, Marte deixou de reter calor suficiente para manter essas condições, tornando-se o planeta frio e seco conhecido hoje.
Entender como a atmosfera de Marte foi desaparecendo ajuda os cientistas a reconstruir a evolução do planeta e compreender melhor quando ele deixou de oferecer condições favoráveis à vida.
Além de revelar um novo mecanismo de perda da atmosfera de Marte, os resultados podem ser úteis para estudar outros planetas que também não possuem um campo magnético intenso.
Segundo os pesquisadores, esse mesmo processo pode ocorrer em alguns exoplanetas, influenciando sua evolução e até mesmo sua capacidade de manter uma atmosfera estável ao longo do tempo.
O próximo passo será identificar em quais condições essas ondas gigantes se formam com mais facilidade e qual é sua contribuição exata para a perda da atmosfera marciana.
A expectativa é que futuras missões espaciais, como a ESCAPADE, da Nasa, permitam acompanhar esse fenômeno com ainda mais detalhes. Além de aprofundar o conhecimento sobre Marte, essas observações poderão ajudar os cientistas a compreender como planetas potencialmente habitáveis evoluem — e por que alguns acabam perdendo as condições necessárias para sustentar água líquida e, possivelmente, vida.