Supervulcão de Yellowstone: última supererupção ocorreu há cerca de 631 mil anos (Stephan Hoerold/Getty Images)
Redatora
Publicado em 22 de setembro de 2026 às 18h59.
Uma supererupção do vulcão de Yellowstone poderia cobrir cidades com cinzas, fechar aeroportos e estradas, interromper o fornecimento de energia e água e destruir plantações. Os efeitos poderiam se espalhar pelos Estados Unidos e chegar a outras partes do planeta.
O cenário foi elaborado pelos especialistas em desastres e vulcões Ilan Kelman e Matthew Blackett, em artigo publicado no The Conversation. Trata-se de uma simulação de pior cenário baseada em pesquisas científicas e em respostas adotadas diante de desastres anteriores.
Isso não significa que Yellowstone esteja prestes a entrar em erupção. A análise descreve o que poderia acontecer caso o sistema vulcânico apresentasse uma escalada de atividade até uma supererupção.
Yellowstone passou por uma grande erupção há cerca de 631 mil anos, quando cinzas se espalharam por grande parte da América do Norte.
No cenário apresentado, os primeiros sinais apareceriam cerca de dois meses antes. Cientistas detectariam um enxame incomum de pequenos terremotos sob a caldeira de Yellowstone, que possui aproximadamente 55 a 70 quilômetros de diâmetro.
Terremotos são comuns na região e, isoladamente, não indicam uma erupção. O alerta aumentaria caso diferentes fenômenos surgissem ao mesmo tempo. Entre eles estariam tremores progressivamente mais superficiais, elevação acelerada do terreno, alterações nos gêiseres e mudanças nas concentrações de gases e na composição da água.
Yellowstone já apresentou sinais semelhantes sem entrar em erupção. Entre 2013 e 2014, partes da caldeira se elevaram mais de 15 centímetros por ano e houve aumento da atividade sísmica. Posteriormente, cientistas relacionaram o episódio à movimentação de fluidos hidrotermais, e não de magma.
No pior cenário, a erupção começaria quando o magma alcançasse o sistema hidrotermal superficial. O contato com grandes volumes de água poderia produzir violentas explosões e lançar vapor, lama e fragmentos de rocha.
Horas depois, magma rico em gases poderia chegar à superfície. A expansão desses gases fragmentaria o material e produziria uma enorme coluna de cinzas.
Essa coluna poderia alcançar entre 30 e 50 quilômetros de altitude. Nesse estágio, os cientistas poderiam estar diante de uma supererupção de VEI 8, nível máximo do Índice de Explosividade Vulcânica.
Partes da coluna poderiam entrar em colapso e formar fluxos piroclásticos, compostos por gases, cinzas e fragmentos de rocha extremamente quentes.
As regiões próximas a Yellowstone sofreriam os maiores impactos, mas as cinzas alcançariam áreas muito mais distantes. Um modelo citado pelos autores estima que Billings, em Montana, poderia acumular até 1,8 metro de cinzas. Salt Lake City e Boise poderiam receber dezenas de centímetros.
A queda de cinzas também poderia atingir outras partes dos Estados Unidos, o sul do Canadá e o norte do México. Aeroportos e outras redes de transporte enfrentariam interrupções. Cinzas também poderiam comprometer redes elétricas e, consequentemente, afetar abastecimento de água, tratamento de esgoto, postos de combustível e sistemas de comunicação. Plantações, pastagens e fontes de água também seriam atingidas, ampliando os efeitos sobre a produção de alimentos.
Os impactos poderiam chegar à atmosfera global. O dióxido de enxofre lançado na estratosfera formaria aerossóis capazes de refletir parte da radiação solar.
Modelos citados no artigo indicam que seria improvável que o resfriamento médio global ultrapassasse aproximadamente 1,5 °C, embora determinadas regiões e estações pudessem registrar alterações maiores.
Meses depois, problemas relacionados às cinzas, agricultura, transporte e infraestrutura ainda permaneceriam. A redução das exportações de alimentos dos Estados Unidos e do Canadá poderia pressionar os preços globais, enquanto as perdas econômicas poderiam contribuir para uma recessão mundial.
Mesmo no pior cenário elaborado pelos especialistas, uma supererupção de Yellowstone não provocaria a extinção da humanidade.
Os autores estimam que análises de mortalidade excessiva poderiam apontar entre 700 milhões e 1,3 bilhão de mortes prematuras relacionadas à erupção e aos seus impactos de longo prazo.Esse número integra uma simulação hipotética e não representa uma previsão sobre uma futura erupção de Yellowstone. Segundo o cenário apresentado, os efeitos poderiam durar décadas e atingir sociedades e economias em diferentes partes do mundo, mas a espécie humana sobreviveria.