Araçá vermelho: Solução criada por pesquisadores une tecnologia e natureza para combater uma espécie invasora presente no Havaí há 200 anos (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Repórter
Publicado em 20 de setembro de 2026 às 16h27.
Em 1825, autoridades do Havaí introduziram uma espécie brasileira com o objetivo de ampliar as fontes de alimento da população local. O araçá vermelho, conhecido cientificamente como Psidium cattleianum, encontrou no arquipélago condições favoráveis para se desenvolver e, com o passar das décadas, tornou-se uma espécie invasora, organismo levado para um ambiente diferente de sua origem e capaz de causar alterações no ecossistema.
A planta brasileira, inicialmente considerada uma alternativa alimentar, passou a ocupar grandes áreas do território havaiano e formar florestas densas que dificultam o crescimento da vegetação nativa.Sem os mecanismos naturais de controle existentes em seu habitat original, o araçá vermelho se espalhou pelo ambiente havaiano. A ausência de predadores e competidores naturais permitiu que a árvore ocupasse áreas extensas, modificando a composição das florestas locais.
O avanço da espécie criou um desafio para pesquisadores e órgãos ambientais, que passaram a buscar formas de reduzir sua presença sem causar impactos sobre outras plantas e animais. A solução encontrada envolve um inseto brasileiro e o uso de drones, veículos aéreos não tripulados usados para aplicações em áreas remotas.
Para combater a expansão do araçá vermelho, pesquisadores utilizaram o Tectococcus ovatus, inseto originário do Brasil que possui uma relação específica com a planta. O organismo se alimenta exclusivamente do araçá vermelho, característica que permite um controle mais direcionado da espécie.
Em 2012, autoridades havaianas aprovaram o uso do inseto como agente de controle biológico, método que utiliza organismos vivos para reduzir populações de espécies consideradas prejudiciais. O Tectococcus ovatus cria pequenas estruturas chamadas galhas nas folhas da árvore, que afetam seu desenvolvimento.
O controle biológico com o inseto brasileiro foi adotado como uma estratégia para reduzir o crescimento do araçá vermelho sem atingir outras espécies presentes no ecossistema havaiano.A aplicação do inseto representa uma alternativa aos métodos químicos, pois atua diretamente sobre a espécie-alvo. O objetivo dos pesquisadores é limitar a expansão da árvore invasora e preservar áreas de vegetação nativa.
A etapa mais recente do projeto envolve a utilização de drones para ampliar a distribuição do inseto controlador. Um estudo publicado no Journal of Economic Entomology avaliou a diferença entre a aplicação manual e o uso de aeronaves automatizadas.
Os resultados indicaram redução no tempo necessário para tratar cada árvore. O método tradicional levava aproximadamente 12 minutos por planta, enquanto o sistema com drones reduziu esse período para 2,8 minutos.
A aplicação por drones reduziu em 77% o tempo de operação e aumentou a taxa de colonização do inseto nas árvores tratadas de 38% para 63% após um ano.A tecnologia também permite alcançar regiões de mata com acesso limitado, ampliando a área de atuação do programa e reduzindo as dificuldades logísticas enfrentadas pelas equipes de campo.
Após os primeiros resultados, pesquisadores desenvolveram uma estrutura com maior capacidade de distribuição de insetos. A iniciativa recebeu o nome de Kūhualūlū e tem como foco acelerar o controle do araçá vermelho em áreas de difícil acesso.
O projeto combina automação e controle biológico para proteger ecossistemas nativos do Havaí afetados pela expansão da espécie introduzida há cerca de dois séculos.
Pesquisadores avaliam que a combinação entre agentes biológicos específicos e drones pode ser aplicada em outros programas de manejo de espécies invasoras em diferentes regiões do mundo.A iniciativa segue em desenvolvimento para ampliar a escala de aplicação e avaliar os efeitos de longo prazo sobre as áreas afetadas pela presença do araçá vermelho.