Oceano Índico: ilha de Saint-Paul fica próxima ao local onde cientistas registraram a formação de nova crosta oceânica (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)
Redatora
Publicado em 13 de julho de 2026 às 08h06.
A formação de um novo trecho do fundo do oceano foi observada pela primeira vez por cientistas. O registro aconteceu após uma sequência de terremotos ocorrida em 2024, no Oceano Índico, que separou placas tectônicas e criou mais de um metro de nova crosta oceânica em poucos dias.
A descoberta foi descrita em um estudo publicado na revista científica Nature na última semana. Segundo os pesquisadores, trata-se da primeira observação direta, feita com instrumentos instalados no fundo do mar, de um evento de expansão oceânica em grande escala, processo responsável pela criação contínua da crosta terrestre.
De acordo com as análises, a superfície da Terra é dividida em grandes placas tectônicas que estão em movimento constante.
Em alguns pontos, essas placas colidem e uma delas mergulha sob a outra, reciclando parte da crosta terrestre. Em outros, elas se afastam gradualmente, permitindo que o magma proveniente do interior do planeta suba até a superfície. Quando esse material esfria, forma novas camadas de rocha e amplia o fundo dos oceanos.
De acordo com os pesquisadores, normalmente, esse processo ocorre muito lentamente, acrescentando apenas alguns centímetros de crosta por ano. Por isso, acompanhar sua evolução diretamente é extremamente difícil.
A oportunidade surgiu em 2024, quando uma série de terremotos atingiu a dorsal oceânica situada entre as placas tectônicas da Antártica e da Austrália.
Pouco antes do evento, pesquisadores haviam instalado um observatório submarino chamado OHA-GEODAMS, formado por 15 estações capazes de registrar ondas sonoras produzidas por terremotos e outras alterações geológicas no fundo do mar.
Segundo o estudo, o sistema havia começado a operar apenas dois meses antes das ondas de terremotos, permitindo que os cientistas acompanhassem todo o processo praticamente em tempo real.
As medições mostraram que uma parte da dorsal oceânica afundou cerca de quatro metros, enquanto os dois lados da estrutura se afastaram mais de um metro, abrindo espaço para que o magma ascendesse e formasse uma nova faixa de crosta oceânica.
Para acompanhar o fenômeno, os pesquisadores utilizaram microfones subaquáticos, sensores de pressão e outros equipamentos instalados diretamente no leito oceânico.
Os dados permitiram reconstruir cada etapa do processo. Segundo os cientistas, tudo começa com o acúmulo de magma sob alta pressão nas profundezas da Terra. À medida que essa pressão aumenta, o material derretido força passagem entre as rochas da crosta.
Em seguida, a região situada acima da bolsa de magma colapsa, enquanto os terremotos ajudam a separar as placas tectônicas. Com essa abertura, o magma alcança o fundo do oceano, onde esfria e solidifica, formando uma nova porção da crosta terrestre.
Até então, esse mecanismo era conhecido principalmente por modelos teóricos e observações indiretas.
Os pesquisadores afirmam que o registro representa um avanço importante para compreender como a crosta oceânica é continuamente renovada.
Segundo a equipe, observar esse tipo de fenômeno é raro porque exige equipamentos instalados exatamente no local onde ocorre a expansão das placas tectônicas, além da coincidência de um evento geológico significativo durante o período de monitoramento.
Os instrumentos permanecerão no fundo do Oceano Índico até 2027, coletando novos dados sobre a atividade das placas tectônicas. Os autores esperam que o sucesso da missão incentive a instalação de observatórios semelhantes em outras regiões onde o fundo oceânico continua em formação.