Lua: estudo mostra como a magnetosfera da Terra influencia o vento solar (NASA/Divulgação)
Redatora
Publicado em 21 de julho de 2026 às 13h53.
A missão chinesa Chang'e-6 revelou que os dois lados da Lua não recebem o vento solar da mesma maneira. Amostras coletadas no lado oculto do satélite natural mostraram que partículas vindas do Sol penetraram mais profundamente no solo lunar do que aquelas registradas na parte voltado para a Terra.
Segundo pesquisadores do Instituto de Geologia e Geofísica da Academia Chinesa de Ciências, a diferença é provocada pela magnetosfera terrestre, que reduz a velocidade das partículas antes que elas atinjam parte da superfície lunar. Os resultados foram publicada na revista Nature Geoscience na última quarta-feira, 15.
Diferentemente da Terra, a Lua não possui uma atmosfera densa nem um campo magnético global capaz de bloquear o vento solar. Por isso, partículas carregadas emitidas continuamente pelo Sol atingem diretamente sua superfície e ficam preservadas no regolito, a camada de poeira e fragmentos rochosos que cobre o satélite natural.
Entre esses registros estão gases nobres, como hélio, neônio, argônio, criptônio e xenônio. Como esses elementos raramente reagem com outras substâncias, eles preservam informações sobre a intensidade e a energia das partículas que os transportaram, funcionando como um arquivo natural da interação entre o Sol e a Lua.
Até a missão Chang'e-6, todas as amostras disponíveis haviam sido coletadas no lado visível. O retorno de 1,935 gramas de regolito da bacia Polo Sul-Aitken permitiu, pela primeira vez, comparar diretamente os dois hemisférios lunares.
Ao analisar a composição isotópica dos gases aprisionados nas amostras, os pesquisadores encontraram diferenças marcantes entre os dois lados da Lua. Os resultados indicam que o vento solar atingiu o lado oculto com maior energia, permitindo que as partículas penetrassem mais profundamente no solo.
Os experimentos também mostraram que gases como xenônio e criptônio estavam concentrados em camadas mais profundas do regolito coletado pela Chang'e-6. Esse padrão não apareceu nas amostras trazidas anteriormente pela missão Chang'e-5, obtidas no lado voltado para a Terra.
Segundo os autores, a explicação está na magnetosfera terrestre. Durante parte de sua órbita, a Lua atravessa essa região dominada pelo campo magnético da Terra, onde o vento solar perde velocidade antes de alcançar a superfície.
Esse efeito influencia principalmente o lado visível, reduzindo a energia das partículas e limitando sua penetração no regolito. Já o lado oculto permanece exposto ao fluxo original do vento solar, permitindo que partículas mais rápidas atinjam camadas mais profundas do solo.
Os pesquisadores estimam que cerca de um quarto da exposição registrada no local de pouso da Chang'e-5 ocorreu sob influência desse vento solar desacelerado, efeito que não foi observado nas amostras coletadas pela Chang'e-6.
Além de explicar por que os dois lados da Lua registram diferentes níveis de bombardeio pelo vento solar, o estudo abre uma nova possibilidade de investigação. Os cientistas sugerem que os gases nobres preservados no regolito lunar podem funcionar como registros naturais das mudanças sofridas pela magnetosfera terrestre ao longo de bilhões de anos.
Ao combinar essas informações com evidências paleomagnéticas obtidas na Terra, será possível reconstruir a evolução do escudo magnético do planeta e compreender melhor como a interação entre Sol, Terra e Lua mudou desde o início da história do Sistema Solar.