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O que acontece no cérebro durante uma experiência de quase morte?

Da luz no fim do túnel às experiências fora do corpo, cientistas tentam entender o que acontece perto da morte

Cérebro: cientistas estudam os momentos finais para entender as experiências de quase morte (Imagem gerada por IA/EXAME)

Cérebro: cientistas estudam os momentos finais para entender as experiências de quase morte (Imagem gerada por IA/EXAME)

Publicado em 6 de julho de 2026 às 07h00.

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Relatos de pessoas que afirmam ter deixado o próprio corpo, atravessado um túnel iluminado ou sentido uma intensa sensação de paz aparecem em diferentes culturas há séculos. Conhecidas como experiências de quase morte (EQMs), essas vivências continuam despertando o interesse da ciência por levantarem uma das questões mais difíceis da medicina e da neurociência: o que acontece com o cérebro quando a vida está prestes a terminar?

Embora muitas pessoas interpretem essas experiências como evidências de uma dimensão espiritual, pesquisadores investigam se elas podem ser explicadas pelas profundas alterações que ocorrem no cérebro durante situações críticas, como paradas cardíacas, sepse, traumas graves ou falta de oxigênio. As conclusões das análises foram publicadas na revista New Scientist.

O que é uma experiência de quase morte?

As experiências de quase morte são relatos de pessoas que sobreviveram após ficarem muito próximas da morte.

Embora cada caso seja único, estudos mostram que alguns elementos aparecem com frequência. Entre eles estão a sensação de sair do próprio corpo, a percepção de atravessar um túnel em direção a uma luz intensa, a revisão de momentos importantes da vida, o encontro com pessoas falecidas e uma profunda sensação de paz.

Uma pesquisa publicada na revista científica Critical Care indica que cerca de 15% dos pacientes internados em unidades de terapia intensiva relatam ter vivido algum tipo de experiência compatível com uma EQM.

O que acontece no cérebro nesses momentos?

Nos últimos anos, avanços na neurociência começaram a oferecer pistas sobre o funcionamento do cérebro durante os instantes finais da vida.

Em 2024, pesquisadores da Universidade de Michigan registraram, por meio de eletroencefalogramas (EEG), a atividade cerebral de pacientes terminais que estavam sob suporte de vida. Em dois deles, os cientistas observaram um aumento repentino da atividade cerebral logo após a retirada do suporte.

A ativação ocorreu principalmente em ondas gama, associadas à percepção consciente, memória e integração de informações. Também foi identificada maior comunicação entre regiões cerebrais ligadas à consciência e à tomada de decisões.

Os pesquisadores sugerem que esse aumento de atividade pode ajudar a explicar por que algumas pessoas relatam experiências tão intensas e vívidas ao sobreviverem a situações próximas da morte.

Neurotransmissores podem desempenhar um papel importante

Estudos com animais também indicam que o cérebro libera uma grande quantidade de neurotransmissores durante a falta de oxigênio.

Pesquisas conduzidas pela mesma equipe mostraram que ratos submetidos à asfixia apresentaram aumentos expressivos de substâncias como serotonina, dopamina, glutamato, norepinefrina e outros neurotransmissores envolvidos na consciência, nas emoções e na formação de memórias.

Segundo os cientistas, essa intensa atividade química pode contribuir para produzir sensações semelhantes às descritas nas experiências de quase morte.

Pesquisas com substâncias psicodélicas, como DMT, cetamina e psilocibina, também encontraram semelhanças entre seus efeitos e diversos relatos de EQMs, reforçando a hipótese de que alterações neuroquímicas desempenham um papel importante nesses episódios.

Apesar dos avanços, os pesquisadores reconhecem que ainda não existe uma explicação definitiva para as experiências de quase morte. Uma das limitações é que os estudos sobre atividade cerebral geralmente envolvem pacientes que não sobreviveram e, portanto, não puderam relatar o que sentiram durante aqueles momentos.

Além disso, alguns especialistas afirmam que certos relatos, especialmente aqueles que descrevem percepções consideradas verificáveis durante períodos de inconsciência, continuam sendo objeto de debate científico. Até hoje, não há consenso sobre como interpretar esses casos.

As experiências transformam a vida de quem as vive

Independentemente da origem dessas experiências, seus efeitos psicológicos parecem ser consistentes. Diversos estudos mostram que pessoas que passaram por uma experiência de quase morte frequentemente relatam redução do medo da morte, maior valorização das relações pessoais, diminuição do apego a bens materiais e aumento do interesse por espiritualidade.

Pesquisadores também observam mudanças duradouras na forma como esses sobreviventes encaram a própria existência, levando muitos deles a alterar prioridades, relacionamentos e até mesmo a carreira profissional.

As pesquisas mais recentes fortalecem a hipótese de que profundas alterações cerebrais e neuroquímicas possam explicar parte dessas vivências. Ao mesmo tempo, diversos aspectos ainda permanecem sem uma resposta definitiva.

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