Empresas enfrentam o desafio de estruturar a gestão preventiva de saúde mental e cumprir a NR-1 (DC Studio/Shutterstock)
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Publicado em 22 de junho de 2026 às 10h00.
A saúde mental deixou de ser um tema negligenciado na gestão de pessoas e passou a ocupar o centro das preocupações corporativas. É o que aponta o relatório Tendência em Gestão de Pessoas 2026, do Great Place To Work: 98% dos respondentes consideram a saúde mental um tema relevante para a gestão de pessoas.
No entanto, a pesquisa revela um descompasso entre a percepção e a prática: apenas 63,3% das empresas têm orçamento direcionado para ações voltadas ao tema. Somente 35% já realizam mapeamento de riscos psicossociais.
O dado completa um quadro que já vinha se desenhando. Informações do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) mostram que mais de 546 mil trabalhadores foram afastados em 2025 por transtornos mentais e comportamentais.
Esse foi o maior número já registrado no país — o equivalente a um em cada sete afastamentos. Foi nesse contexto que a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) passou a incorporar, de forma explícita, os fatores psicossociais à gestão de riscos ocupacionais, com prazo de adaptação que terminou em maio de 2026.
Os números do GPTW ajudam a explicar por que a adequação à norma tem avançado de forma desigual entre as empresas. Reconhecer a relevância do tema, como fazem quase todos os respondentes, é um primeiro passo. Transformar esse reconhecimento em orçamento, estrutura e mapeamento de riscos é outro, mais lento.
A distância entre os 98% que veem a saúde mental como prioridade e os 35% que já mapeiam riscos psicossociais mostra que boa parte das organizações ainda está na fase de discurso. Muitas empresas seguem sem ter avançado para a gestão efetiva do risco.
Para Karen Scavacini, psicóloga, especialista em saúde mental e fundadora do Instituto Vita Alere, os dados do GPTW confirmam um padrão que já era visível na prática das empresas.
"Quando a saúde mental é tratada apenas como suporte, a empresa atua depois que o problema já se instalou. A nova abordagem exige olhar para a origem do risco, que muitas vezes está na forma como o trabalho é organizado", afirma.
Na avaliação da especialista, o fato de mais da metade das empresas já destinar orçamento ao tema é um avanço, mas insuficiente sem o mapeamento dos riscos psicossociais.
Essa etapa é fundamental, mas ainda está restrita a pouco mais de um terço das organizações. É esse mapeamento, segundo ela, que permite identificar se o adoecimento está ligado a carga de trabalho, modelo de gestão, metas ou ambiente organizacional, e não apenas tratar seus sintomas.
"No limite, a atualização da NR-1 explicita algo que já estava posto: a saúde mental não é um tema acessório, mas parte integrante da dinâmica produtiva. Reconhecer, prevenir e gerenciar esse risco passa a ser, cada vez mais, uma condição para a própria continuidade das organizações", diz.
Mais do que atender a uma exigência regulatória, os resultados do GPTW sugerem que o desafio das empresas brasileiras agora é converter a percepção quase unânime sobre a importância da saúde mental em estrutura. Isso inclui orçamento e processos de identificação de risco — sob pena de o tema continuar concentrado no discurso, enquanto os afastamentos seguem batendo recordes.
Para o CEO da Alymente, Andre Purri, "o ponto central é que ainda existe uma visão reativa dentro das empresas. Em geral, o investimento em saúde mental acontece depois que o problema já apareceu nos indicadores, quando o ideal seria tratá-lo como parte da estrutura de gestão e não como resposta a uma crise".