Ciência

Além do DNA: gravidez pode deixar marca no cérebro dos filhos para o resto da vida

Pesquisa identificou DNA materno em cérebros de crianças e sugere que essas células podem persistir até a velhice

Gravidez: pesquisadores encontraram células com DNA materno em diferentes regiões do cérebro (Freepik)

Gravidez: pesquisadores encontraram células com DNA materno em diferentes regiões do cérebro (Freepik)

Publicado em 26 de julho de 2026 às 11h13.

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Durante a gravidez, mãe e bebê trocam células pela placenta, mas essa conexão pode deixar efeitos muito mais duradouros do que se imaginava. Um novo estudo sugere que parte desse material de origem materna atravessa a barreira placentária, alcança o cérebro do feto e permanece no órgão por décadas, possivelmente ao longo de toda a vida.

O estudo foi conduzido por pesquisadores do Fred Hutchinson Cancer Center, nos Estados Unidos, e divulgado na plataforma de pré-publicação bioRxiv. Como o estudo ainda aguarda revisão por pares, os autores afirmam que novas pesquisas serão necessárias para confirmar as conclusões e esclarecer o papel dessas células no cérebro humano.

O caminho das células maternas até o cérebro

Os pesquisadores investigaram um fenômeno conhecido como microquimerismo materno, que ocorre quando células da mãe passam para o organismo do filho durante a gestação e permanecem nele após o nascimento.

Para verificar se isso também acontece no cérebro humano, a equipe analisou amostras de tecido cerebral de 37 crianças submetidas a cirurgias para tratar epilepsia grave. As mães forneceram amostras de DNA, permitindo comparar o material genético e identificar células maternas misturadas às células cerebrais dos filhos.

As análises revelaram células com DNA materno em 26 das 37 crianças, o equivalente a cerca de 70% da amostra. Elas estavam distribuídas por diferentes regiões do cérebro, incluindo os lobos frontal, temporal e parietal, além do hipocampo, estrutura essencial para a formação de memórias.

O que as células fazem no cérebro?

Além de confirmar sua presença, os pesquisadores investigaram o comportamento dessas células por meio do sequenciamento de RNA de núcleo único, técnica capaz de identificar quais genes estão ativos em cada célula.

Os resultados mostraram que elas não permanecem inativas. Ao longo do desenvolvimento, diferenciam-se em diversos tipos celulares encontrados normalmente no cérebro, como neurônios, oligodendrócitos, astrócitos, células da microglia e células endoteliais que revestem os vasos sanguíneos.

Segundo os autores, isso indica que as células maternas podem integrar o tecido cerebral em vez de apenas permanecerem como um material biológico residual.

Um legado celular que pode durar toda a vida

Para entender quanto tempo essas células sobrevivem, os pesquisadores também analisaram amostras de autópsias cerebrais de 32 pessoas sem doenças neurodesenvolvimentais conhecidas, com idades que variavam de 22 semanas de gestação a mais de 90 anos.

Embora não fosse possível confirmar a origem das células por falta de DNA materno, estruturas geneticamente distintas foram encontradas em 25 desses cérebros. Para os pesquisadores, a hipótese mais provável é que elas também representem casos de microquimerismo materno.

As análises também sugerem que a quantidade dessas células diminui com o envelhecimento, mas elas não desaparecem completamente. Nos cérebros mais jovens, predominavam células que se transformavam em neurônios, enquanto, nas pessoas mais velhas, eram mais frequentes células da microglia, responsáveis pela defesa imunológica do sistema nervoso.

Apesar disso, os cientistas ainda não sabem qual papel essas células desempenham no cérebro. Entre as hipóteses levantadas estão a participação no desenvolvimento do sistema nervoso, na resposta imunológica e até em doenças neurológicas, mas nenhuma dessas possibilidades foi confirmada até o momento.

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