Memória: estudo sugere que lembranças podem surgir de processos aleatórios do universo (Getty Images)
Redatora
Publicado em 4 de maio de 2026 às 20h14.
A ideia de que as memórias refletem fielmente a realidade pode não ser tão sólida quanto parece. Um estudo conduzido pelo Instituto Santa Fé sugere que, do ponto de vista da física, existe a possibilidade teórica de que lembranças e percepções sejam apenas construções geradas por processos aleatórios do universo.
A pesquisa revisita a chamada hipótese do “cérebro de Boltzmann”, um conceito da física e da cosmologia que propõe que estruturas complexas — como um cérebro com memórias completas — poderiam surgir espontaneamente a partir de flutuações no caos cósmico.
Segundo essa hipótese, seria estatisticamente possível que um conjunto de memórias coerentes surgisse de forma aleatória, sem que os eventos que supostamente as originaram tenham realmente acontecido. Na prática, isso significa que a sensação de ter vivido uma história consistente pode ser apenas uma construção física, e não necessariamente o reflexo de um passado real.
A discussão está ligada à segunda lei da termodinâmica, que estabelece que a entropia — uma medida de desordem — tende a aumentar com o tempo.
Esse princípio ajuda a explicar por que percebemos o tempo como algo que vai do passado para o futuro. No entanto, muitos modelos matemáticos da física são simétricos, ou seja, não privilegiam uma direção específica. Essa característica abre espaço para interpretações mais complexas sobre como memórias e eventos podem se formar.
Os pesquisadores identificaram um ponto crítico na forma como a ciência interpreta memória e tempo: parte dos argumentos pode envolver raciocínio circular. Nesse processo, pressupostos sobre o passado são usados para validar as memórias, enquanto essas mesmas memórias acabam sendo utilizadas para reforçar esses pressupostos.
Dessa forma, o estudo sugere separar com mais clareza o que decorre das leis da física e o que depende de interpretações adotadas pelos cientistas.
O trabalho não afirma que as memórias são falsas. No entanto, mostra que a física permite cenários em que a percepção da realidade não corresponde necessariamente a eventos que realmente aconteceram.
Esse tipo de análise aprofunda debates sobre tempo, consciência e realidade, e indica que até conceitos fundamentais — como memória e passado — podem ser mais complexos do que parecem.