Gato-da-areia: felino conhecido como 'fantasma do deserto' vive em regiões áridas do Norte da África (YouTube/Mohamed Saad/Reprodução)
Redatora
Publicado em 26 de julho de 2026 às 12h08.
Um vídeo de apenas 18 segundos, publicado no YouTube em 2017, levou a uma descoberta inesperada sobre a fauna do norte da África. As imagens registradas pelo fotógrafo líbio Mohammed Almuntasir acabaram fornecendo a primeira evidência documentada da presença do gato-da-areia (Felis margarita) na Líbia, espécie conhecida por seu comportamento extremamente discreto e por raramente ser vista na natureza.
A gravação chamou a atenção do ecologista Firas Hayder, especialista em pequenos carnívoros do Norte da África, que entrou em contato com o fotógrafo, de acordo com informações da CNN. A confirmação deu origem a uma pesquisa publicada neste ano no Journal of Arid Environments, reunindo novos registros da espécie no deserto líbio.
Quando registrou o pequeno felino descansando à sombra de um arbusto no deserto de Al-Hamada Al-Hamra, próximo à fronteira com a Tunísia, Almuntasir acreditava estar filmando uma espécie já conhecida na região, conforme contou à CNN.
Embora já tivesse visto gatos-da-areia durante expedições noturnas, ele nunca havia conseguido fotografá-los devido à falta de equipamentos adequados para registrar animais em baixa luminosidade.
Poucas semanas após a publicação do vídeo, o ecologista Firas Hayder entrou em contato com o fotógrafo para confirmar onde as imagens haviam sido feitas. Foi então que percebeu a importância científica da gravação: apesar de existirem relatos antigos sobre a espécie, nunca havia sido produzido um registro oficial comprovando sua ocorrência na Líbia.
Conhecido como um dos felinos mais difíceis de observar na natureza, o gato-da-areia passa a maior parte do dia escondido em tocas para escapar do calor intenso do deserto.
Durante a noite, sai para caçar principalmente roedores e répteis. A espécie também percorre grandes distâncias, possui pelagem que funciona como camuflagem natural e vive em ambientes onde o vento apaga rapidamente qualquer rastro, características que dificultam seu monitoramento.
Sua adaptação ao ambiente árido é tão eficiente que esses animais conseguem sobreviver obtendo praticamente toda a água de que precisam a partir das presas que consomem.
Após a descoberta, Hayder e Almuntasir iniciaram um trabalho de campo para documentar a presença do gato-da-areia e de outras espécies de pequenos carnívoros no deserto líbio.
Ao longo de oito anos, os pesquisadores registraram 36 avistamentos da espécie em 13 localidades diferentes do Saara líbio. Desses registros, 24 foram feitos pelo próprio Almuntasir.
Os resultados sugerem que o sudoeste da Líbia pode representar um importante refúgio para o gato-da-areia. Ainda assim, os autores afirmam que permanecem grandes lacunas sobre sua distribuição, abundância e comportamento na região.
Ainda de acordo com a CNN, embora o gato-da-areia esteja atualmente classificado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) como uma espécie de "menor preocupação", pesquisadores alertam que sua situação pode ser mais delicada do que indicam as avaliações atuais.
Durante o trabalho de campo, Almuntasir relatou ter encontrado animais sendo vendidos em mercados locais como sendo de estimação, enquanto Hayder afirmou ter conversado com caçadores que capturavam a espécie para consumo de carne.
Os pesquisadores também destacam que pequenos carnívoros como o gato-da-areia podem funcionar como indicadores da saúde dos ecossistemas desérticos, sendo particularmente sensíveis aos efeitos das mudanças climáticas e da degradação ambiental.