João Fonseca: tenista brasileiro é uma das principais atrações do torneio (Dimitar Dilkoff/AFP)
Repórter
Publicado em 16 de julho de 2026 às 17h31.
Com João Fonseca em quadra e o Maracanãzinho como palco, o UTS Rio estreia nesta quinta-feira, 16, com a ambição de ocupar um espaço ainda pouco explorado no mercado esportivo brasileiro. A proposta é oferecer um torneio de tênis de alto nível concebido também como espetáculo.
A competição reúne oito jogadores entre quinta-feira, 16, e sábado, 18, no Rio de Janeiro. Além de Fonseca, atual número 27 do ranking da ATP, a lista inclui nomes como Nick Kyrgios, Cameron Norrie, Francisco Cerúndolo e o brasileiro Guto Miguel.
Será a primeira edição do circuito na América do Sul e a volta do tênis ao Maracanãzinho após 14 anos.
"Chegamos em um dos melhores momentos do tênis nas últimas décadas", afirma Marco Farah, diretor de estratégia da ODDZ Network e sócio do UTS Rio, em entrevista à EXAME.
Na avaliação do executivo, a estreia do torneio acontece em um cenário favorável para a modalidade, impulsionado pelo crescimento do interesse do público, pelo surgimento de uma nova geração de atletas brasileiros e pela busca de patrocinadores por formatos mais inovadores de entretenimento esportivo.
Criado por Patrick Mouratoglou, ex-treinador de Serena Williams, o Ultimate Tennis Showdown já estava no radar dos organizadores brasileiros havia algum tempo. A chegada ao país é conduzida pela ODDZ Network, que tem Ronaldo Nazário entre seus sócios-fundadores, em parceria com a Forever Sports.
Segundo Marco Farah, a relação com Mouratoglou e a experiência das empresas no mercado esportivo da América Latina ajudaram a identificar o potencial do Brasil em receber a primeira etapa sul-americana de um circuito que já passou por cidades da Europa, América do Norte e Ásia.
Mas o principal argumento estava nas arquibancadas. A avaliação era de que o comportamento do torcedor brasileiro combinava com a proposta de um torneio que permite manifestações durante as partidas, em contraste com o silêncio normalmente exigido no tênis tradicional.
“O formato tem muito a ver com o Brasil. Especialmente essa paixão do brasileiro ao torcer”, diz Farah.
A decisão também foi influenciada pelo crescimento do consumo de tênis no país. O executivo cita a falta de horários em quadras, a disputa pelos direitos de transmissão dos principais campeonatos e o interesse crescente por atletas nacionais.
João Fonseca é o principal símbolo desse movimento, mas não o único. Farah também menciona nomes como Guto Miguel, Bia Haddad Maia, Naná Silva e Vitória Barros ao explicar por que os organizadores enxergam uma nova fase da modalidade.
“Tem um potencial muito grande que já não é mais uma questão de promessa. É realidade”, afirma.
Na visão do empresário, o que ainda falta ao mercado brasileiro é um calendário mais robusto. Para ele, o público quer consumir mais tênis, mas ainda encontra poucas oportunidades para assistir aos principais nomes da modalidade no país. É justamente essa lacuna que o UTS pretende ocupar, sem disputar espaço com os torneios já consolidados.
O Rio de Janeiro já recebe o Rio Open, principal torneio de tênis da América do Sul. Para Farah, a presença de uma competição consolidada não representa uma barreira, mas uma prova da demanda existente. “O Rio de Janeiro é a capital do tênis brasileiro. Acho que isso é indiscutível”, diz.
A avaliação dos organizadores é que os dois produtos ocupam posições diferentes. O Rio Open segue o formato tradicional do circuito, enquanto o UTS acrescenta regras próprias, partidas mais curtas e maior participação da torcida. Para Farah, os dois produtos não competem entre si e podem ajudar a ampliar o mercado da modalidade.
O Maracanãzinho foi escolhido justamente por permitir a construção dessa atmosfera. A escolha exigiu adaptações de iluminação, transmissão e entretenimento, necessárias para transformar a arena em parte do espetáculo.
Farah costuma definir o UTS como “praticamente uma NBA do tênis”. As partidas são divididas em quatro períodos de oito minutos, com pausas que podem ser utilizadas para ativações e interações com o público.
Segundo o organizador, uma estrutura construída só para o torneio poderia receber cerca de 6 mil pessoas simultaneamente. No Maracanãzinho, a organização espera superar a marca de 20 mil espectadores somando os três dias. “É expectativa de Maracanãzinho lotado mesmo”, afirma Farah.
Embora tenha regras diferentes, o UTS procura evitar a imagem de simples exibição. Os atletas disputam partidas competitivas, com premiação superior a US$ 1 milhão distribuída entre os oito participantes.
“O UTS é um torneio para valer. A gente desmistifica qualquer impressão de que seja uma exibição ou um amistoso”, afirma Farah.
Em vez da contagem tradicional por games e sets, os pontos são somados de forma direta, tornando as partidas mais fáceis de acompanhar e com duração de até uma hora.
Para Farah, essa dinâmica torna o produto mais fácil de acompanhar, especialmente para pessoas que passaram a se interessar pelo tênis recentemente.
“Aqui, o UTS é justamente a oportunidade de ser essa porta de entrada para o novo fã. É uma contagem mais fácil de entender, todos os jogos são dinâmicos e é um formato mais fácil de consumir”, diz.
Reunir alguns dos principais tenistas do mundo em um calendário já congestionado não é tarefa simples, especialmente para um torneio que acontece fora do circuito da ATP. Segundo Farah, o UTS tenta resolver essa equação com uma combinação de fatores.
O primeiro deles é a premiação. O torneio distribui entre US$ 1,2 milhão e US$ 1,3 milhão para apenas oito atletas. O segundo é o formato. Enquanto um ATP 500 pode exigir nove ou dez dias de dedicação, o UTS é disputado em apenas três dias, com partidas que dificilmente ultrapassam uma hora.
"Ele olha um campeonato com uma premiação muito relevante, jogos disputados para valer e com os melhores do mundo. A chance de lesão é menor e a chance de premiação é grande", afirma.
A posição no calendário também pesa. Disputado em quadra dura, o UTS antecede torneios realizados na mesma superfície, como Washington. Assim, os jogadores evitam mudanças de piso e conseguem incluir o UTS no planejamento da temporada.
Segundo Farah, o formato amplia as possibilidades comerciais do evento. As pausas entre os períodos podem receber ativações, enquanto a maior liberdade da torcida abre espaço para interações dentro da arena. Há ainda experiências antes das partidas e ações de hospitalidade durante os dias de competição.
“O UTS chega com mais possibilidades para os patrocinadores”, afirma Farah. “É um território fértil para marcas que, algumas vezes, em torneios mais tradicionais se veem um pouco mais restritas.”
A competição reúne marcas como XP, Stella Artois, Insider, Cremer e Pitaco entre os patrocinadores, além do apoio do Governo do Estado do Rio de Janeiro.
O torneio também fechou transmissão com o Grupo Globo, por meio do SporTV e da Ge TV.
Na avaliação de Farah, a adesão comercial indica que o produto conseguiu encontrar uma demanda no mercado brasileiro. “Hoje, a gente já pode dizer que o evento é um êxito antes mesmo de acontecer”, diz.
A organização espera receber mais de 20 mil pessoas ao longo dos três dias, mesmo durante a Copa do Mundo. Para Farah, o evento também deve movimentar a economia local ao atrair visitantes que permanecem no Rio durante o fim de semana.
A análise das vendas indica, segundo ele, a presença de compradores de diferentes estados e também do exterior. O destino turístico, nesse caso, faz parte do produto. A competição termina no sábado, o que permite combinar os jogos com outras atividades no Rio de Janeiro ao longo do fim de semana.
“É um casamento muito feliz entre o produto que a gente está trazendo, de alto nível, com atletas de primeira linha, e o encantamento que a cidade do Rio proporciona”, afirma.
Os organizadores têm licença para realizar o UTS no Brasil pelos próximos três anos. Segundo Farah, a receptividade do público e do mercado reforça a aposta em transformar o Rio em uma etapa permanente do circuito.
O UTS Rio será disputado entre quinta-feira, 16, e sábado, 18, no Maracanãzinho. As partidas terão transmissão do SporTV e da Ge TV.
Nos dois primeiros dias, os oito tenistas disputam a fase de grupos. No sábado, os quatro melhores avançam às semifinais, enquanto os demais jogam partidas que definem a classificação final. A decisão acontece às 16h.