Economia

Crítica dos EUA ao Pix é como dizer que 'saneamento prejudicou caminhão pipa', diz Galípolo

Em coletiva de imprensa, o presidente do Banco Central rebateu argumentos usados pelos Estados Unidos para justificar a tarifa de 25% sobre parte das exportações brasileiras.

Galípolo afirma que o crescimento dos cartões após a criação do Pix enfraquece a tese de prejuízo às empresas americanas (Lula Marques/Agência Brasil)

Galípolo afirma que o crescimento dos cartões após a criação do Pix enfraquece a tese de prejuízo às empresas americanas (Lula Marques/Agência Brasil)

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 16 de julho de 2026 às 17h25.

Última atualização em 16 de julho de 2026 às 17h47.

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O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, respondeu às críticas dos Estados Unidos ao Pix durante a entrevista coletiva realizada pelo governo Lula para comentar o tarifaço anunciado por Washington. O sistema brasileiro de pagamentos foi citado pelo governo americano como um dos motivos para a imposição da tarifa de 25%.

"O argumento contra o Pix é o caso mais flagrante que tentam criar uma lógica para aplicar tarifas", disse Galípolo. "Vamos seguir fornecendo o Pix como algo gratuito, seguro e instantâneo".

Segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, a nova tarifa deverá atingir cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos. Com base nos dados de 2024, esse percentual representa aproximadamente US$ 7,4 bilhões.

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A medida foi adotada após a conclusão da investigação conduzida com base na Seção 301 pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês). O procedimento avaliou alegações de supostas práticas comerciais desleais e investigou se iniciativas brasileiras, como a adoção do Pix, o desmatamento ilegal e as dificuldades enfrentadas pelos EUA para acessar o mercado brasileiro de etanol, causariam prejuízos a empresas americanas.

Em resposta às justificativas apresentadas pelos Estados Unidos, o governo Lula reuniu integrantes da administração federal para contestar as acusações.

"A argumentação seria mais ou menos como tentar dizer que criar saneamento básico comprometeria receita de caminhão-pipa", disse Galípolo.

O presidente do Banco Central também afirmou que o uso de cartões cresceu 150% desde a criação do Pix, contrapondo a tese de que a ferramenta teria afetado negativamente empresas americanas.

"Pix foi benéfico para quem demanda e para quem oferta".

Entenda o tarifaço dos EUA ao Brasil

O governo dos Estados Unidos anunciou, na noite desta quarta-feira, 15, a aplicação de novas tarifas de importação a produtos brasileiros. A nova taxa será de 25%, com uma série de exceções, que incluem café, carne, frutas e partes de aviões, entre outros.

A nova cobrança passará a ser feita em 22 de julho, com exceções para itens que estiverem em trânsito. A cobrança se soma a outras taxas já pagas pelos produtos.

A tarifa foi adotada após uma investigação feita contra o Brasil, por meio da Seção 301, iniciada em julho de 2025. No começo de junho, o USTR, um órgão do governo americano, concluiu que o Brasil age de forma não razoável no comércio bilateral, por práticas como o uso do Pix, a taxação do etanol americano e a falta de combate à corrupção e ao desmatamento.

O USTR avalia que essas práticas dão vantagens indevidas ao Brasil no comércio, e propôs uma nova tarifa para tentar reduzir a competitividade dos produtos brasileiros nos EUA. A decisão foi chancelada pelo presidente Donald Trump.

Além disso, em outro processo, o Brasil é acusado de se beneficiar de trabalhos forçados. A decisão deste processo ainda não foi divulgada, e poderá gerar uma outra tarifa de 12,5%.

Um alto funcionário ligado ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) afirmou, sob reserva, que apesar das cinco reuniões com a equipe negociadora do Brasil, chefiada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o lado americano não sentiu empenho para mitigar as motivações comerciais da tarifa.

Ao mesmo tempo, este funcionário afirma que ainda há espaço para novas negociações, embora não tenha detalhado em quanto tempo as conversas poderiam ser retomadas.

Relembre as várias etapas do tarifaço de Trump contra o Brasil

A reação do Brasil

Do lado brasileiro, integrantes do governo Lula afirmam, também sob reserva, que os americanos não se mostraram abertos ao diálogo e que desconsideraram os argumentos do Brasil. Afirmam, ainda, que os americanos insistiram em pedidos que estavam completamente fora de cogitação, como concessões acerca do Pix, que, segundo o USTR, representaria uma competição desleal com meios de pagamento americanos.

Horas antes do anúncio, um assessor do governo Lula disse, de forma reservada, que as autoridades brasileiras esperavam a definição do USTR para então definir qual seria a resposta brasileira, que pode incluir o uso da Lei de Reciprocidade, com medidas contrárias aos EUA.

Há, ainda, a expectativa de que os Estados Unidos só aceitem negociar depois das eleições presidenciais brasileiras, em outubro.

Na terça-feira, 14, o governo brasileiro teve a quinta reunião com Jamieson Greer, chefe do USTR, em que o Brasil reiterou o caráter injusto das tarifas.

"Como já demonstrado pelo governo brasileiro, nenhuma das razões apontadas na Seção 301 justificam a aplicação das tarifas recomendadas. Cumprindo a orientação do Presidente Lula, reiterou-se que a aplicação de qualquer sobretaxa se mostra injusta e não é o caminho para que possamos vir a formular um acordo bilateral mutuamente adequado", afirma nota divulgada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

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