Crise no STF: desdobramentos do caso Master atingem ministros do Supremo (STF/Flickr)
Colaboradora
Publicado em 10 de setembro de 2026 às 06h00.
O Supremo Tribunal Federal vive, desde o início de setembro, uma das maiores crises internas dos últimos anos. No centro dessa disputa estão os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, mas os desdobramentos já chegaram à Procuradoria-Geral da República e à cúpula da Polícia Federal.
A situação expõe uma fratura interna na Corte que não tem, por enquanto, um desfecho definido.
O imbróglio começou com um relatório da Polícia Federal sobre mensagens trocadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do extinto Banco Master, incluindo diálogos endereçados a um número atribuído a Moraes.
Em menos de dez dias, o episódio evoluiu para acusações cruzadas entre os dois ministros, alcançou o comando da Polícia Federal, com decisões conflitantes de Mendonça e do ministro Flávio Dino, e forçou uma intervenção do presidente da Corte, Edson Fachin, que suspendeu as decisões dos colegas e reorganizou a relatoria do conhecido inquérito das Fake News.
O caso já é discutido como um possível gatilho para um pedido de, embora juristas apontem que o desenho institucional brasileiro oferece poucos caminhos alternativos.
O embate na Corte também ecoou na campanha eleitoral, a menos de um mês do início oficial da propaganda para as eleições de outubro.
Enquanto a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL) reforça o pedido de impeachment de Moraes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pede a derrubada do sigilo do inquérito do Banco Master para evitar "vazamentos seletivos".
Veja abaixo como os acontecimentos se desenrolaram, dia a dia.
Na terça-feira, 1º, André Mendonça, relator do caso Banco Master no STF, retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal produzido a seu próprio pedido.
O documento reúne conversas encontradas no celular de Daniel Vorcaro com um número que a PF atribui a Alexandre de Moraes. Parte do conteúdo já havia vazado horas antes, em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo.
Os diálogos sugerem que Vorcaro e o dono do número teriam conversado com antecedência sobre uma operação policial que poderia afetar o então banqueiro, e que Vorcaro teria pedido a Moraes que intercedesse em seu favor junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Investigadores também apontaram ajustes feitos por Moraes na minuta de um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por sua mulher, Viviane Barci de Moraes.
Diante do conteúdo, Mendonça pediu que o envolvimento de Moraes fosse analisado pelo Plenário do STF, abrindo caminho para que o ministro seja formalmente investigado pela primeira vez na história da Corte.
Ainda na terça-feira, o procurador-geral Paulo Gonet pediu a Mendonça que anulasse a própria decisão que originou o relatório da PF.
Para Gonet, a determinação extrapolou o que um único ministro pode ordenar na fase pré-processual e deveria ter sido decidida pelo colegiado, já que autoridades com foro privilegiado, entre elas Moraes, estavam entre os nomes que poderiam aparecer na apuração.
Com a crise instalada, Fachin divulgou uma nota afirmando que, concluída a análise dos fatos, anunciaria as medidas cabíveis sem pressa e sem omissão.
No mesmo dia, André Mendonça confirmou publicamente ter se encontrado com Daniel Vorcaro em março de 2025, além de ter se reunido com o advogado do banqueiro no mesmo mês.
A confirmação veio pouco depois de o jornalista Paulo Motoryn revelar o encontro em seu Substack (rede social de textos).
Segundo essa apuração, a reunião ocorreu em 14 de março de 2025, em São Paulo, durou cerca de duas horas e aconteceu na sede de um instituto fundado pelo próprio ministro.
Mendonça afirmou que o encontro foi a pedido de Vorcaro, ocorreu uma única vez e tratou da suspensão de uma decisão judicial sobre créditos de precatórios de interesse do banco, na época sob pedido de vista de outro ministro.
De acordo com Motoryn, mensagens e áudios extraídos do celular de Vorcaro indicam que o encontro foi articulado ao longo de semanas pelo então advogado do Master, Ciro Soares, e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), que já teriam avisado Mendonça sobre a situação do banco antes da reunião.
Pela manhã, Mendonça anunciou sua saída da sociedade do Instituto Iter, entidade de cursos jurídicos que ele fundou e da qual ele e a esposa eram cotistas.
A decisão veio em meio a questionamentos sobre contratos públicos do instituto, que ganharam força depois de o ministro admitir o encontro com Vorcaro justamente na sede da entidade.
Levantamento feito a partir do Portal Nacional de Contratações Públicas pela BBC News mostrou que o Iter fechou 28 contratos com órgãos públicos em todo o país em pouco mais de dois anos, somando R$ 10,7 milhões, todos por dispensa ou inexigibilidade de licitação, formas de contratação direta previstas em lei que não indicam, por si só, irregularidade.
O ministro do STF afirmou ter cedido a totalidade das cotas, suas e da esposa, sem qualquer contrapartida financeira, e disse nunca ter lucrado com o instituto.
À noite, foi a vez de Moraes reagir.
Usando relatórios de inteligência da própria PF, acusou Mendonça de improbidade administrativa, crime de responsabilidade e abuso de autoridade na condução das operações Sem Desconto (fraudes no INSS) e Compliance Zero (Banco Master), apontando quebra de imparcialidade e favorecimento a determinados grupos políticos.
O despacho, feito dentro do próprio inquérito das fake news, foi encaminhado a Fachin com o pedido de que a Presidência tomasse as providências cabíveis.
Moraes também retirou o sigilo de relatórios da PF sobre a conduta de Mendonça, que incluíam questionamentos sobre um possível tratamento mais duro da polícia com a lobista Roberta Luchisinger, ligada a Fábio Lula da Silva, o "Lulinha", filho do presidente.
Ainda na quinta-feira, Fachin abriu prazo de cinco dias úteis para que Mendonça, Moraes, Gonet e Andrei Rodrigues se manifestassem por escrito.
O presidente do STF pediu esclarecimentos sobre quatro pontos: 1) se a PF seguiu as regras para investigar autoridades com foro no Supremo; 2) se houve uso indevido de credenciais institucionais para acessar documento particular e vazamento de informações sob sigilo judicial à pessoa investigada; 3) as circunstâncias da ordem de Mendonça para identificar pessoas citadas nos autos do caso Master; 4) e as medidas adotadas para o controle externo da atividade policial.
No mesmo dia, o presidente Lula comentou a situação publicamente pela primeira vez, em vídeo divulgado pela Secom da Presidência da República.
Disse que o país não pode ficar refém de vazamentos seletivos, defendeu a criação de um código de ética para o Judiciário e classificou o escândalo do Banco Master como um dos maiores golpes financeiros da história recente do Brasil.
Fachin determinou que o pedido de investigação de Moraes contra Mendonça deixasse o inquérito das fake news, do qual o próprio Moraes é relator, e passasse a tramitar em separado.
Horas depois, ao lado de Lula em uma cerimônia no Palácio do Planalto sobre financiamento do sistema de Justiça, o presidente do STF disse que os acontecimentos recentes reforçam a necessidade de encerrar o inquérito das fake news, criado em 2019, além de avançar num código de ética e na modernização da Justiça.
Fachin reforçou que nenhuma autoridade está acima da Constituição ou da lei, mas prometeu uma resposta institucional sem atalhos e sem precipitação.
Até então, não havia data marcada para uma eventual sessão do Plenário sobre o caso.
Ao lado de Fachin, Lula comentou novamente o caso e disse que "ninguém, em nome da democracia, pode utilizar o cargo que tem em benefício pessoal".
No domingo, Mendonça liberou para julgamento o relatório da PF sobre o contato entre Vorcaro e o número atribuído a Moraes, cabendo a Fachin marcar a data da sessão.
O prazo de cinco dias úteis dado pelo presidente da Corte para as manifestações das partes seguia correndo, com vencimento em 11 de setembro.
A disputa dentro do STF ganhou repercussão na campanha eleitoral.
Em manifestação na Avenida Paulista pelo Dia da Independência do Brasil, o candidato Flávio Bolsonaro explorou o episódio para pedir a saída de Moraes do Supremo e associá-lo ao presidente Lula.
Lula, por sua vez, apostou na neutralidade na mesma data. O presidente fez um desfile neutro e não deu declaração sobre o ocorrido.
Na segunda-feira, Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues do comando da PF e de Leandro Almada da Costa, diretor de Inteligência Policial, sob a alegação de que Rodrigues tinha pleno conhecimento da produção de relatórios que atingiram o ministro.
A decisão atendeu a um pedido do partido Novo.
Mendonça afirmou ainda que ele próprio e o advogado-geral da União, Jorge Messias, vinham sendo alvo de um monitoramento sistemático e ilegal por parte da inteligência policial.
Mendonça convocou uma sessão virtual extraordinária da 2ª Turma do STF para referendar a decisão ainda na terça-feira.
O julgamento já tinha maioria de votos formada quando Gilmar Mendes pediu vista, alegando dúvidas sobre a própria competência da Turma para analisar o caso, o que interrompeu a conclusão da sessão.
Em apoio a Andrei Rodrigues, os 11 diretores da Polícia Federal colocaram seus cargos à disposição do diretor-geral substituto, delegado William Marcel Murad, e assinaram nota classificando o afastamento como um ataque injustificado.
A Advocacia-Geral da União também reagiu, pedindo com urgência a suspensão da medida sob o argumento de que ela fere a prerrogativa do presidente da República para nomear e exonerar a cúpula da PF.
Horas depois, Fachin deu a Mendonça um prazo de 72 horas para se manifestar sobre o pedido da AGU.
Na manhã desta quarta-feira, Flávio Dino atendeu a um recurso apresentado por Andrei Rodrigues e determinou sua reintegração imediata ao cargo, revertendo também o afastamento de Leandro Almada.
Dino proibiu novas medidas cautelares contra os dois por atos praticados no exercício regular da função e determinou que a Diretoria de Inteligência da PF voltasse a operar normalmente, submetendo sua própria decisão à autoridade do Plenário do STF.
No fim da tarde, Fachin interveio. Atendendo a um pedido da AGU, suspendeu tanto a decisão de Mendonça quanto a de Dino, avaliando que a sucessão de decisões individuais colocava em risco a ordem pública e a integridade da própria Corte.
O presidente do STF marcou para a próxima terça-feira, dia 15 de setembro, o julgamento em Plenário que vai decidir se o relatório da PF sobre a relação entre Moraes e Vorcaro justifica a abertura de uma investigação contra o ministro.
Na mesma decisão, Fachin retirou de Moraes a relatoria do inquérito das fake news, com exceção dos pontos que já têm decisão em curso, passando o restante do processo para a própria Presidência da Corte.
Fachin também tirou de Mendonça parte da relatoria do caso Banco Master, especificamente o trecho em que o ministro havia tornado públicas as conversas entre Moraes e Vorcaro e sugerido a abertura de investigação contra o colega. Qualquer outro pedido de investigação contra ministros da Corte deve ser comunicado à Presidência da Corte.