Manifestação dividida por muro na Esplanada, em 2016: revelações recentes sobre Vorcaro e Moraes terão impacto nas eleições (Juca Varella/Agência Brasil)
Editor de Macroeconomia
Publicado em 2 de setembro de 2026 às 19h26.
Última atualização em 3 de setembro de 2026 às 06h23.
Esta reportagem é escrita enquanto os eventos se desenrolam — e em grande velocidade. Mas as revelações da terça-feira, 1º, de que a Polícia Federal encontrou diversas conversas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes carregam invariavelmente o caso para a disputa eleitoral, que acontece em pouco mais de 30 dias.
Na avaliação de analistas e pesquisadores eleitorais ouvidos pela EXAME, o impacto em votos ficará mais claro nos próximos dias, quando são esperadas pesquisas do Datafolha e do PoderData. Na próxima semana, provavelmente será possível medir esse saldo, com pesquisas que foram a campo após os novos fatos envolvendo Moraes e Vorcaro.
Em uma primeira avaliação, eles apontam que o efeito tende a ser difuso e novas revelações devem ocupar o noticiário a todo tempo, o que dará mais destaque às investigações e ao vindouro julgamento que acontecerá no plenário do STF, como apontado pelo presidente da Corte, Edson Fachin, na manhã desta quarta-feira, 2.
O impacto do caso em votos para candidatos à Presidência tende a ser baixo, apesar de todo o ruído. De maneira geral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por ser o incumbente e ter uma relação mais próxima ao ministro do que todos os candidatos de oposição, deve sair prejudicado. Por sua vez, Augusto Cury (Avante) e Flávio Bolsonaro (PL) podem se beneficiar dos novos acontecimentos.
Todo o imbróglio amplia sobretudo o sentimento antissistema, que tem registrado as máximas históricas junto à opinião pública. Uma pesquisa do Datafolha de maio mostrou que 40% dos brasileiros avaliam o trabalho dos ministros da Corte como ruim ou péssimo, o pior índice desde o início da série histórica.
"Ajuda mais o Cury e, depois, o Flávio Bolsonaro. Aumenta o sentimento antissistema, por isso tudo o que afeta negativamente a imagem do STF auxilia esses dois candidatos", diz Murilo Hidalgo, presidente do instituto Paraná Pesquisas. "Ao mesmo tempo, não é bom para o Lula."
Lula, durante lançamento de campanha à Presidência pela sétima vez neste ano (Reprodução)
A avaliação de que Lula tende a ser o principal prejudicado no curto prazo é consensual para analistas políticos. Cristiano Noronha, cientista político da Arko Consultoria, avalia que já existe, em parte do eleitorado, uma percepção de proximidade entre o Palácio do Planalto e o Supremo.
"Num primeiro momento, isso obviamente tende a ser negativo para o Lula. Quando falo negativo, não falo do ponto de vista catastrófico. O nível de consolidação de Lula e Flavio é muito grande, com o eleitor já fechado", diz Noronha.
Para Noronha, portanto, o episódio dificilmente provocará uma migração abrupta de votos entre os dois principais polos da eleição. Há um contingente relevante de eleitores já consolidado em torno de Lula e Flávio Bolsonaro. "O Lula não vai cair tanto nem o Flavio deve cair tanto. Mas arranha a imagem", afirma.
O problema para o presidente é que a crise ocorre num terreno em que seus adversários já tentam associá-lo ao Supremo. Noronha cita as indicações presidenciais para a Corte e a importância das próximas vagas no STF para explicar por que o desgaste pode alcançar o Planalto.
Há ainda um segundo efeito: crises dessa natureza alimentam uma disposição por mudança. "Esse tipo de situação gera um sentimento de mudança. Acho que é potencialmente negativo", diz.
O cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), vê uma dinâmica semelhante. Para ele, o caso Master é particularmente incômodo porque Vorcaro pode produzir desgaste para os dois lados da polarização. "A crise recoloca em destaque o imbróglio do Banco Master. E Vorcaro é um sobrenome indigesto para os dois principais polos da disputa presidencial", afirma Medeiros.
Segundo ele, Flávio também se prejudica, ao trazer o caso Dark Horse ao debate. "E também prejudica Lula pelo ambiente de pessimismo que produz em relação ao futuro do país, com impacto direto no humor do eleitorado", diz.
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Uma pesquisa da Alfa Inteligência, de junho deste ano, mostrou que 53% dos 1.623 entrevistados apontavam que o país está no caminho errado, ante 32% que apontam estar no rumo certo (veja imagem).

Para Lula, há também um problema mais imediato: a crise tomou o espaço de uma agenda que o governo esperava explorar positivamente durante a reta final da campanha.
"O noticiário negativo prejudica a campanha de Lula. O governo almejava reunir uma pauta positiva nessa semana com o avanço de agendas populares, como a PEC do fim da escala 6 por 1, a PEC da segurança pública, o fim da taxa das blusinhas, o projeto de lei dos minerais críticos", diz Medeiros. "Mas o escândalo dominou as manchetes e ofuscou a pauta positiva que o governo buscava alardear na corrida eleitoral. A crise do STF simplesmente sequestrou a agenda política da campanha governista."
Flávio Bolsonaro, em lançamento de campanha (Vittor Sales/PL/Divulgação)
Isso não significa que Flávio Bolsonaro atravesse a crise sem riscos. Noronha, da Arko, avalia que a retomada das conexões de Vorcaro com diferentes personagens políticos também pode produzir desgaste para o candidato. "Para o Flávio, também pode respingar alguma coisa. A reportagem que falou sobre novos pagamentos para o filme Dark Horse e a possibilidade de explorar as conexões [de Vorcaro] com vários atores podem arranhá-lo", diz Noronha.
Medeiros, porém, identifica uma vantagem importante para o senador: a crise oferece à campanha um adversário facilmente identificável.
"Mas há um aspecto a ser apontado: a crise também do Supremo entrega a Flávio um adversário concreto, um adversário identificável para a disputa eleitoral. Ele tem na figura de Alexandre de Moraes um símbolo de tudo aquilo que sua candidatura pretende combater", afirma Medeiros.
A consequência pode ser a reorganização de parte do discurso eleitoral de Flávio em torno do ministro e do próprio STF. "Pensando no futuro, nas próximas semanas da campanha eleitoral, Flávio ganha um inimigo externo para digladiar ao longo da campanha eleitoral. E isso pode lhe render dividendos políticos e eleitorais ao longo da campanha eleitoral", diz.
Mauricio Moura, presidente do Instituto Ideia, também considera que o saldo inicial pode beneficiar Flávio. A ressalva é que ainda é cedo para dimensionar o efeito eleitoral.
"Ainda vamos medir com novas pesquisas que vão a campo após o fato para uma resposta cientificamente correta", diz Moura. "Mas, em um primeiro olhar, ajuda o Flávio. Coloca-se tudo em um bolo difícil de compreender o que é o que."
Para Moura, a crise piora principalmente a situação do Supremo e desloca parte da discussão eleitoral para um terreno confortável para o bolsonarismo. "Piora para o STF. Bota o STF no centro da eleição do Senado e ajuda o Flávio, uma vez que tira o foco dele", diz.
Um teste para essa propulsão — ou não — das campanhas de direita, em especial a de Bolsonaro, virá no 7 de Setembro, feriado tradicionalmente utilizado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para levar multidões às ruas.
Em análise para a EXAME, o Diretor de Public Affairs do Grupo In Press, Fábio Zambeli ponderou que a retirada de sigilo do material ocorreu a menos de uma semana das manifestações, "o que aumenta a capacidade de pressão de rua sobre um processo que, em outras circunstâncias, provavelmente seria administrado dentro do circuito institucional de Brasília".
"Uma mobilização expressiva na segunda-feira elevará o custo de qualquer solução percebida como proteção corporativa e colocará sob pressão os ministros que terão de decidir o destino da apuração", escreve. "Antes mesmo desses atos públicos, o fim do sigilo já garantiu espaço nobre na cobertura midiática e ensejou editoriais cobrando até a renúncia de ministros do STF."
O 7 de Setembro, aponta o analista, será o primeiro teste de temperatura dessa nova etapa. "Outubro dará a resposta que realmente importa", complementa.
O candidato à Presidência Augusto Cury (Avante) (Renato Pizzutto/ Band /Flickr)
Se Lula e Flávio entram na crise carregando relações e vulnerabilidades anteriores, Augusto Cury pode colher os benefícios de uma candidatura percebida como alternativa aos dois polos. Para Noronha, o movimento ainda é limitado e não há, neste momento, elementos suficientes para imaginar uma ultrapassagem de Flávio Bolsonaro. Mas a crise pode acrescentar alguns pontos à candidatura.
"Como vimos o Cury surpreendendo, pode ser que ele ganhe até mais pontinhos deixando o pessoal receoso", afirma. "Neste momento, não vejo elementos de que ele pode superar o Flávio e tirar o lugar dele no segundo turno."
O efeito mais relevante, segundo ele, seria reduzir as chances de uma definição já no primeiro turno. "A confusão acaba fazendo o eleitor olhar para outras alternativas e reforça a chance de ter um segundo turno", diz Noronha.
Moura, do Ideia, acrescenta que Cury entra agora em uma etapa diferente da campanha. Com o crescimento nas pesquisas, deixa de ser apenas uma candidatura alternativa e passa a enfrentar escrutínio e ataques dos adversários. "Agora essa candidatura vai começar a ser testada, com escrutínio, ataque. Agora, ele entrou no jogo", afirma.
Medeiros, da UNB, também considera que a deterioração da confiança nas instituições cria condições favoráveis para candidaturas que tentam se apresentar fora da polarização tradicional. "O desgaste do Supremo aumenta o desencanto do cidadão em relação ao processo eleitoral. É um terreno muito fértil para o discurso antissistema", afirma.
"Uma crise institucional dessa envergadura reforça justamente a demanda por novidade. E o clima de suspeição favorece muito candidaturas fora do sistema, especialmente nesse ambiente de desconfiança persistente em relação às instituições."
Fachada do STF: reação da corte terá impacto no humor dos eleitores (Gustavo Moreno/SCO/STF/Divulgação)
A reação do próprio Supremo também será decisiva. Fachin anunciou nesta quarta-feira que o caso será levado ao plenário da Corte. Para Noronha, da Arko, a postura do presidente do STF pode ajudar a determinar o tamanho da crise. "Precisamos aguardar isso. Vai ser muito importante: o Fachin é comedido, vai botar a bola no chão e depende muito da condução que o Fachin der [ao caso]", afirma.
Noronha acredita que Fachin buscará uma saída institucional discutida internamente antes de uma decisão definitiva. "Ele deve tentar uma decisão minimamente negociada entre os ministros. O Fachin não vai poder se furtar de submeter isso ao polenário", diz.
Zambeli, do Grupo InPress, aponta que o presidente do STF ainda precisa demonstrar que consegue exercer a arbitragem política de uma Corte profundamente dividida. "As recentes tentativas encabeçadas pelo presidente do Supremo de estabelecer parâmetros éticos para as condutas dos seus pares foram mal-sucedidas, o que evidencia a dimensão do desafio que encara agora", escreveu em artigo.
Fachin prometeu novas medidas "nos próximos dias" e na sessão do Supremo desta quarta-feira, 2, nenhum ministro tocou no assunto.
Fachada do Senado Federal (Carlos Moura/Agência Senado)
Se os especialistas veem limites para uma transformação profunda da corrida presidencial, há mais consenso sobre outra consequência: o caso Moraes-Vorcaro pode ter impacto muito maior nas disputas legislativas, sobretudo para o Senado.
O motivo é institucional. Cabe ao Senado processar e julgar ministros do Supremo em casos de impeachment. A composição da Casa já vinha sendo explorada eleitoralmente por candidaturas críticas à Corte, e o episódio fornece um argumento concreto para transformar essa discussão em pauta de campanha.
Noronha aponta que a mensagem ao eleitor de que é necessário ter "alguém no Senado que apoie o impeachment" de ministros do STF pode se tornar uma pauta relevante.
Medeiros vê espaço para que candidatos conservadores construam parte relevante de suas campanhas em torno da promessa de impor limites ao Supremo. "Há impactos consideráveis nas eleições para o Legislativo. Todo esse ambiente de crise institucional oferece combustível para candidaturas mais conservadoras construírem suas campanhas em torno de uma agenda de contenção do STF", diz o cientista político da UNB.
É justamente nesse ponto que o efeito eleitoral da crise pode deixar de ser apenas difuso. Para candidatos ao Senado, o desgaste do Supremo oferece uma plataforma muito mais diretamente relacionada às atribuições do cargo que disputam.
No pano de fundo está uma deterioração da percepção pública sobre as instituições — e, especialmente, sobre o Supremo. "E esse clima de pessimismo, de descrença, também impacta o humor do eleitor, que passa a enxergar a o país com mais incerteza e com a sensação de que as coisas não estão funcionando como deveriam", diz Medeiros.