Exportações: tarifaço impacta quantidade de produtos exportados para os EUA em 2026 (COLOMBO/Divulgação)
Colaboradora
Publicado em 10 de setembro de 2026 às 06h00.
O comércio entre Brasil e Estados Unidos segue sentindo o peso do tarifaço.
Entre janeiro e agosto de 2026, as exportações brasileiras para o mercado americano somaram US$ 24,1 bilhões, uma queda de 9,7% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).
O recuo representa cerca de US$ 2,6 bilhões a menos em vendas e levou o Brasil ao menor valor exportado aos Estados Unidos para o período desde 2023.
O cenário, porém, é mais complexo do que parece à primeira vista. Em agosto, isoladamente, as exportações ao país cresceram 12,1% em valor na comparação com agosto de 2025.
O detalhe é que esse avanço veio acompanhado de uma queda de 17,3% na quantidade de produtos exportados no mês, o menor volume para um mês de agosto desde 2021. Ou seja, exportou-se menos, mas o Brasil ganhou mais no valor total.
Segundo o Mdic, o motivo está no preço, e não no volume. Os produtos mais vendidos aos Estados Unidos ficaram, em média, 8,6% mais caros.
Essa oscilação é reflexo direto de mais de um ano de disputa comercial entre os dois países.
Tudo começou em abril de 2025, quando o governo dos Estados Unidos aplicou uma tarifa recíproca de 10% sobre produtos de diversos parceiros comerciais, incluindo o Brasil, com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA).
Em julho de 2025, a disputa ganhou um tom claramente político. O presidente Donald Trump anunciou uma tarifa adicional de 40% sobre produtos brasileiros, elevando a alíquota total a 50%.
Na carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Trump associou a medida ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF), classificando o processo como uma perseguição política.
O impacto foi imediato sobre setores como aço, café, carne bovina e calçados.
Ao mesmo tempo, o governo americano abriu uma investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo usado para apurar supostas práticas comerciais desleais, citando temas como o sistema de pagamentos Pix, desmatamento e propriedade intelectual.
Nos meses seguintes, Brasil e Estados Unidos passaram a negociar. Após conversas entre Lula e Trump, o governo americano recuou parcialmente: em novembro de 2025, retirou a sobretaxa de 40% sobre 238 itens, entre eles café, carne bovina, algumas frutas e especiarias, com efeito retroativo a 13 de novembro.
Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou ilegal, por 6 votos a 3, o uso da IEEPA para aplicar tarifas globais sem aprovação do Congresso, o que derrubou a alíquota de 50% que ainda incidia sobre o Brasil.
A resposta da Casa Branca veio em poucos dias: uma nova tarifa global de 10%, agora baseada na Seção 122 da Lei Comercial de 1974, com validade temporária de 150 dias.
Enquanto isso, a investigação da Seção 301 seguiu seu curso e chegou a uma conclusão em junho de 2026. Em julho, o USTR (Representante de Comércio dos Estados Unidos) anunciou a decisão final: uma tarifa de 25% sobre a maior parte dos produtos brasileiros, em vigor desde 22 de julho de 2026, com uma extensa lista de exceções.
Dois dias depois, em 24 de julho, entrou em vigor uma sobretaxa adicional de 12,5%, relacionada a uma investigação sobre trabalho forçado, elevando a tarifa total para até 37,5% em alguns produtos.
É essa estrutura tarifária, vigente desde o fim de julho, que explica o resultado do acumulado de 2026.
Os dados do Mdic mostram que a queda das exportações ao mercado americano atinge os três grandes setores da economia brasileira, em um contraste que chama atenção: enquanto as vendas ao restante do mundo cresceram em todos eles, as vendas aos Estados Unidos caíram em todos eles também.
É o setor com a maior retração proporcional. As exportações para os Estados Unidos recuaram 28,9% no acumulado do ano, enquanto as vendas para os demais mercados avançaram 19,6% no mesmo período.
O principal responsável por essa queda é o petróleo bruto, cujas exportações aos EUA caíram 31,5%, justamente em um momento de crescimento das vendas do produto para outros países.
Os embarques do agronegócio brasileiro para os Estados Unidos caíram 26,7% entre janeiro e agosto, enquanto cresceram 9,5% para o restante do mundo.
O setor sofre principalmente pelo efeito das sobretaxas de 25% a 37,5%, que ainda recaem sobre uma lista de produtos não contemplados pelas isenções negociadas em novembro de 2025.
É o setor mais relevante em valor, já que responde por 83,3% de tudo o que o Brasil exporta aos Estados Unidos. Mesmo assim, registrou queda de 4,9% no acumulado do ano, a primeira retração das vendas ao mercado americano desde 2020.
As vendas do setor para o restante do mundo, por comparação, cresceram 6,6%. Ainda assim, os Estados Unidos seguem como o principal destino das exportações industriais brasileiras, respondendo por 15,5% do total.
Entre os dez principais produtos brasileiros submetidos às tarifas de 25% a 37,5%, nove registraram queda nas vendas aos Estados Unidos no acumulado do ano. As maiores retrações foram registradas por:
O levantamento do Mdic também aponta produtos que caíram no mercado americano mesmo crescendo nas vendas para o restante do mundo, um sinal claro do efeito específico das tarifas: