Pênalti: pesquisa analisou centenas de cobranças para entender o que influencia o resultado (Imagem gerada por IA/Exame)
Redatora
Publicado em 3 de julho de 2026 às 08h52.
A disputa de pênaltis pode depender menos da sorte e mais da estratégia. Um novo estudo concluiu que a pressão psicológica e a ordem escolhida para os cobradores influenciam significativamente as chances de vitória, podendo ser tão importantes quanto a habilidade técnica dos jogadores.
A pesquisa foi conduzida por pesquisadores da Universidade de Queensland, na Austrália, e publicada na revista Football Studies. Para os resultados, os autores analisaram centenas de cobranças em competições internacionais e realizaram milhões de simulações matemáticas para entender quais fatores mais influenciam o resultado das disputas.
Os pesquisadores observaram que nem todos os pênaltis exercem o mesmo nível de pressão sobre os jogadores.
Nas cobranças em que um erro significa eliminação imediata, o aproveitamento médio foi de aproximadamente 60%. Já quando a cobrança pode garantir imediatamente a classificação, a taxa de conversão sobe para cerca de 90%.Segundo os autores, isso indica que os atletas tendem a sentir mais a pressão de evitar uma derrota do que a oportunidade de conquistar uma vitória.
O estudo também questiona uma das crenças mais conhecidas do futebol: a de que a equipe que inicia a disputa sempre leva vantagem. Segundo os pesquisadores, o benefício não está necessariamente em cobrar primeiro, mas no fato de que o time que bate em segundo enfrenta com maior frequência situações em que um único erro pode encerrar a disputa.
Isso ocorre porque a alternância das cobranças faz com que a segunda equipe esteja mais exposta aos momentos de alta pressão, como cobranças em que é obrigatório marcar para continuar viva na disputa.
Outra conclusão importante é que a sequência dos cobradores pode alterar as chances de vitória em mais de 10 pontos percentuais, mesmo quando os dois times possuem jogadores de qualidade semelhante.
Segundo os pesquisadores, isso significa que apenas reorganizar a ordem dos cobradores pode aumentar significativamente as chances de classificação, sem que seja necessário mudar os jogadores disponíveis.
Para a equipe que inicia as cobranças, a estratégia mais eficiente costuma ser escalar os melhores batedores logo no começo da série. Segundo os autores, isso reduz o risco de que a disputa termine antes que os principais cobradores tenham a oportunidade de bater.Já para quem bate em segundo, a recomendação pode ser diferente. Se os principais cobradores também forem os mais resistentes à pressão, vale a pena reservá-los para a quarta e a quinta cobranças, fases em que aumentam as chances de surgirem momentos decisivos.
Os pesquisadores destacam que nem todos os atletas reagem da mesma forma às cobranças decisivas. Alguns apresentam queda de rendimento sob pressão — fenômeno conhecido como choking under pressure — enquanto outros conseguem elevar o desempenho justamente nos momentos mais importantes.
Por isso, os autores defendem que treinadores levem em consideração não apenas a qualidade das finalizações, mas também a capacidade dos jogadores de manter o desempenho em situações de grande pressão emocional.
Segundo os pesquisadores, a preparação para disputas de pênaltis pode ser aprimorada com o uso de dados sobre precisão dos chutes, força, controle da bola e perfil psicológico dos atletas.
Embora esse tipo de análise ainda não seja rotina na maioria das equipes, o estudo conclui que decisões mais estratégicas sobre a ordem dos cobradores podem oferecer uma vantagem competitiva importante em partidas decididas nos pênaltis.
Na avaliação dos autores, disputar uma série de pênaltis não depende apenas da qualidade dos cobradores. A forma como cada jogador reage à pressão e a estratégia adotada pelos treinadores podem fazer tanta diferença quanto a técnica na hora de decidir uma classificação.