Ciência

Por que o fígado pode não se recuperar mesmo após parar de beber?

Estudo identificou como a inflamação pode alterar o processamento do RNA e deixar células hepáticas presas em um estado que dificulta a regeneração

Fígado: estudo identificou um mecanismo celular que pode dificultar a regeneração do órgão após danos causados pelo álcool (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Fígado: estudo identificou um mecanismo celular que pode dificultar a regeneração do órgão após danos causados pelo álcool (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Publicado em 31 de agosto de 2026 às 19h35.

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O fígado tem uma capacidade notável de se regenerar após sofrer lesões. No entanto, em casos avançados de doença hepática associada ao álcool, esse processo pode ser interrompido mesmo depois que a pessoa deixa de beber.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, da Universidade Duke e do Chan Zuckerberg Biohub Chicago identificou um possível mecanismo por trás desse problema. Publicado na revista Nature Communications, o trabalho aponta que a inflamação provocada pelo dano causado pelo álcool pode alterar o processamento do RNA dentro das células do fígado.

Segundo os pesquisadores, essas alterações podem deixar as células presas entre um estado maduro e outro semelhante ao de células progenitoras, dificultando a regeneração do órgão.

Como as células do fígado ficam presas na regeneração

Em condições normais, células hepáticas maduras podem mudar temporariamente de identidade após uma lesão. Elas assumem características semelhantes às de células progenitoras, se multiplicam e depois retornam ao estado maduro. Esse processo permite que o fígado substitua parte do tecido perdido.

Nas amostras de pessoas com hepatite alcoólica ou cirrose, porém, os pesquisadores observaram que as células iniciavam essa transformação, mas não conseguiam concluí-la. Com isso, permaneciam em um estado intermediário.

Essas células não funcionavam plenamente como células hepáticas maduras, tampouco apresentavam a capacidade de proliferação esperada das células progenitoras. Para os cientistas, esse mecanismo pode contribuir para a perda progressiva da função do fígado.

Erros no RNA podem atrapalhar a regeneração

Para entender o que impedia a regeneração, a equipe analisou moléculas de RNA e proteínas presentes nas células hepáticas.

O RNA transporta informações do DNA que orientam a produção de proteínas. Antes de ser utilizado pela célula, porém, ele passa por um processo chamado splicing, no qual diferentes segmentos são cortados e unidos.

Os pesquisadores encontraram alterações nesse processo em milhares de genes nas amostras de fígados afetados pela doença relacionada ao álcool. Esses erros podem modificar as proteínas produzidas pelas células ou até interferir no local onde elas atuam.

Em alguns casos, proteínas necessárias para a regeneração do fígado permaneciam no citoplasma, em vez de chegar ao núcleo da célula, onde deveriam exercer suas funções.

Proteína ESRP2 aparece como peça-chave

A análise também apontou uma possível explicação para os erros de processamento do RNA: a redução da proteína ESRP2. Essa proteína participa da regulação do splicing do RNA. Nos tecidos hepáticos afetados pelo álcool, os pesquisadores encontraram níveis menores de ESRP2.

Para investigar a relação, a equipe realizou experimentos com camundongos que não possuíam o gene responsável pela produção da proteína. Os animais apresentaram alterações hepáticas e problemas de regeneração semelhantes aos observados em pessoas com doença hepática associada ao álcool.

O resultado reforçou a hipótese de que a perda de ESRP2 participa do processo que prejudica a recuperação do fígado.

Inflamação pode estar por trás da alteração

Os pesquisadores também investigaram por que os níveis de ESRP2 diminuíam. A hipótese apontada pelo estudo envolve a inflamação provocada pelo consumo excessivo de álcool.

Quando o álcool causa lesões no fígado, células do sistema imunológico e outras células presentes no tecido passam a liberar substâncias inflamatórias e fatores de crescimento. Segundo os experimentos, esses sinais podem reduzir a produção e a atividade da ESRP2.

Isso criaria uma sequência de eventos: a lesão causada pelo álcool provoca inflamação, que reduz a ESRP2 e altera o processamento do RNA. Como consequência, proteínas importantes para a regeneração deixam de funcionar adequadamente.

Bloqueio da inflamação restaurou parte do processo

Em experimentos realizados com células hepáticas em laboratório, os cientistas bloquearam o receptor de uma das substâncias associadas à inflamação. Após a intervenção, os níveis de ESRP2 aumentaram e o processamento do RNA se aproximou do padrão observado em células saudáveis.

O resultado indica que essa via pode ser um possível alvo para futuras terapias. No entanto, os experimentos ainda estão em estágio pré-clínico. Portanto, não significa que exista atualmente um tratamento capaz de restaurar a regeneração do fígado dessa maneira em pacientes.

Descoberta pode ajudar no diagnóstico e no tratamento

Além de possíveis tratamentos, os pesquisadores avaliam se os RNAs processados de maneira anormal poderiam servir como biomarcadores. Essas moléculas poderiam, no futuro, ajudar a identificar ou acompanhar alterações associadas à doença hepática relacionada ao álcool.

A descoberta também pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias destinadas a controlar a inflamação ou corrigir alterações no splicing.

O estudo, porém, não muda uma recomendação fundamental: interromper o consumo de álcool continua sendo uma medida importante para pessoas com doença hepática relacionada à bebida.

A capacidade de recuperação do fígado depende do tipo e do estágio da lesão. Em casos avançados, como cirrose descompensada, o órgão pode apresentar danos permanentes e, em situações graves, o transplante pode ser necessário.

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