Ciência

Estes macacos fazem algo com os pés que pode mudar o que sabemos sobre nossos ancestrais

Observações na África Ocidental revelam que pés sem tornozelos altamente flexíveis também podem permitir a escalada vertical

Macaco mangabei-de-cauda-preta: espécie selvagem foi observada escalando troncos verticais na Costa do Marfim (W. Scott McGraw)

Macaco mangabei-de-cauda-preta: espécie selvagem foi observada escalando troncos verticais na Costa do Marfim (W. Scott McGraw)

Publicado em 31 de agosto de 2026 às 19h33.

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Pesquisadores descobriram que macacos selvagens conseguem escalar troncos verticais usando uma flexibilidade dos pés que havia sido subestimada. A descoberta pode ajudar a repensar como o último ancestral comum entre humanos e chimpanzés se movimentava pelas árvores.

O estudo analisou os mangabeis-de-cauda-preta em uma floresta da Costa do Marfim. Os animais foram registrados enquanto escalavam troncos finos para buscar alimento, se proteger ou encontrar locais para dormir.

A pesquisa foi realizada por cientistas da Universidade Estadual de Ohio. Os resultados foram publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

O que os pés revelam sobre a evolução humana

Uma das questões da paleoantropologia é como o último ancestral comum entre humanos e chimpanzés se deslocava pelas florestas. Os cientistas investigam se ele utilizava principalmente galhos horizontais ou também conseguia subir por troncos verticais.

A anatomia dos pés é uma das pistas usadas nessa reconstrução. Fósseis preservam características dos ossos, mas não mostram diretamente como um animal utilizava essas estruturas para se movimentar.

Os vídeos dos mangabeis permitiram observar esse comportamento em detalhes. A equipe registrou a posição dos pés e analisou os movimentos das articulações durante a subida.

Os animais não possuem os tornozelos altamente flexíveis dos chimpanzés. Mesmo assim, conseguiram escalar troncos estreitos e verticais com eficiência.

Mangabeis usam outra parte do pé para escalar

Os pesquisadores registraram até 46 graus de flexão no meio do pé dos mangabeis durante a escalada. Chimpanzés conseguem flexionar o tornozelo para cima em cerca de 45 graus durante esse movimento. Nos humanos, essa flexão costuma ficar em torno de 20 graus.

A comparação é importante porque uma anatomia mais próxima à dos grandes símios vinha sendo considerada uma possível vantagem para a escalada vertical. Os mangabeis mostram que essa capacidade também pode surgir de outra configuração anatômica. Eles usam uma região diferente do pé para alcançar uma amplitude de movimento funcionalmente semelhante.

“Não se pode descartar a escalada vertical só porque algo não tem um pé como o de um chimpanzé”, afirmou Luke Fannin, primeiro autor do estudo.

Vídeos ajudam a interpretar fósseis

Os pesquisadores destacam que observar animais vivos permite testar hipóteses que, no caso dos fósseis, dependem principalmente da anatomia preservada.

Os registros feitos na Costa do Marfim estão entre as primeiras documentações cinemáticas detalhadas desse comportamento em um macaco. As imagens permitiram medir com maior precisão como o pé era utilizado durante a subida.

Para W. Scott McGraw, professor de antropologia da Universidade Estadual de Ohio e coautor do estudo, a observação direta mostra que uma determinada estrutura anatômica não é necessariamente a única forma de realizar um movimento.

A descoberta amplia, assim, as possibilidades usadas para reconstruir a locomoção de primatas extintos.

A escalada ainda faz parte do comportamento humano

A escalada vertical não é exclusiva dos primatas. Alguns grupos humanos que ainda dependem da caça e da coleta também apresentam capacidade de subir em árvores.

Nos humanos, esse movimento depende de uma combinação de ligamentos, tendões e músculos flexíveis, além da estrutura dos pés. Embora o bipedalismo habitual seja uma característica marcante da evolução humana, a capacidade de escalar continua presente em nossa espécie.

Apesar dos resultados, ainda são necessários mais fósseis e novas observações para esclarecer como o ancestral comum entre humanos e chimpanzés se movimentava pelas árvores.

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