CR7: jogador mudou hábitos de sono após conhecer guru (Paul Ellis/AFP)
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Publicado em 2 de julho de 2026 às 13h23.
Hoje considerado um dos maiores especialistas em recuperação física por meio do sono, Nick Littlehales nem sempre trabalhou com atletas de elite. No início da década de 1990, ele era representante de uma fabricante de colchões e acreditava que uma boa noite de descanso era capaz de transformar a qualidade de vida das pessoas.
Apaixonado por esportes, Littlehales enxergava no sono um fator determinante para o desempenho físico. A oportunidade de colocar essa teoria em prática surgiu quando conheceu o técnico Alex Ferguson, que comandava o Manchester United e buscava formas de extrair o máximo rendimento de seus jogadores.
Conhecido pelo cuidado com todos os detalhes da preparação da equipe, Ferguson percebeu que controlava praticamente toda a rotina dos atletas, como treinos, alimentação e preparação física, mas desconhecia como eles se recuperavam em casa durante o sono. A partir desse encontro, nasceu uma parceria que mudaria a forma como o futebol passou a tratar o descanso dos jogadores.
Muito antes de relógios inteligentes e tecnologias capazes de monitorar o sono em tempo real, Littlehales começou a implementar pequenas mudanças na rotina do Manchester United.
Entre as alterações estavam ajustes na temperatura dos quartos, iluminação, escolha do colchão e do travesseiro, criação de hábitos antes de dormir e, posteriormente, a redução do uso de aparelhos eletrônicos antes do descanso.
Outra inovação foi a criação de um espaço destinado aos cochilos no centro de treinamento durante a pré-temporada, permitindo que os jogadores aproveitassem melhor o intervalo entre sessões de treino em dois períodos.
A iniciativa ganhou força com a adesão da chamada "Geração de 92", formada por nomes como David Beckham e Ryan Giggs, e acabou se tornando parte da preparação física do clube.
O sucesso do trabalho levou Nick Littlehales a atuar em outros grandes clubes europeus. Depois de consultorias no Chelsea, ele foi convidado para trabalhar no Real Madrid, onde despertou o interesse de Cristiano Ronaldo.
O atacante português passou a seguir uma rotina baseada na teoria dos ciclos de sono desenvolvida pelo especialista. Em vez de concentrar todo o descanso durante a noite, Cristiano dividia o período de recuperação em diferentes momentos do dia, realizando pelo menos cinco períodos de sono para controlar o estresse e acelerar a recuperação muscular.
A estratégia complementava a rígida rotina do jogador, que também mantinha uma alimentação altamente controlada e uma preparação física considerada referência no futebol mundial.
A principal criação de Nick Littlehales é o programa R90, que propõe uma mudança na forma de enxergar o descanso.
Em vez da tradicional recomendação de dormir oito horas por noite, o especialista defende que o mais importante é completar ciclos de aproximadamente 90 minutos, período suficiente para passar pelas principais fases do sono, incluindo o sono profundo e o REM, responsável por funções como consolidação da memória, processamento das emoções e recuperação mental.
Segundo a metodologia, o objetivo ideal é atingir cerca de 35 ciclos de sono por semana. Isso significa que uma noite mal dormida não necessariamente compromete toda a recuperação, desde que os ciclos sejam compensados nos dias seguintes.
A proposta também inclui cochilos estratégicos durante o dia, especialmente em semanas de treinos intensos ou jogos consecutivos.
O trabalho de Littlehales ajudou a popularizar a ideia de que o sono deve ser tratado como parte do treinamento esportivo, com planejamento semelhante ao da preparação física.
Ao longo da carreira, o especialista prestou consultoria para a Federação Inglesa, a Premier League e diversos clubes de elite, como Manchester United, Real Madrid, Arsenal e Liverpool.
Sua metodologia se consolidou como uma das pioneiras na utilização do sono como ferramenta para melhorar desempenho, acelerar a recuperação física e reduzir o desgaste dos atletas ao longo da temporada.