Ciência

Como o cérebro de pássaros pode ajudar a entender a fala humana

Pesquisas com aves podem revelar a origem da linguagem e abrir caminho para novos tratamentos contra AVC, gagueira e outros distúrbios da fala

Pássaros: aves com aprendizagem vocal ajudam cientistas a investigar a origem da linguagem humana (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Pássaros: aves com aprendizagem vocal ajudam cientistas a investigar a origem da linguagem humana (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Publicado em 9 de julho de 2026 às 09h15.

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A capacidade de aprender novos sons, presente em poucas espécies de aves e mamíferos, pode guardar pistas importantes sobre a origem da linguagem humana. Ao investigar como pássaros desenvolvem seus cantos, cientistas buscam compreender os mecanismos cerebrais que possibilitam a fala e abrir caminho para novos tratamentos de distúrbios como gagueira e perda da linguagem após um AVC.

A reportagem foi publicada pelo The New York Times e acompanha o trabalho do neurobiólogo Erich Jarvis, diretor do Laboratório de Neurogenética da Linguagem da Universidade Rockefeller, em Nova York. Há décadas, o pesquisador estuda espécies capazes de aprender vocalizações e tenta entender por que essa habilidade evoluiu em apenas um pequeno grupo de animais.

Por que apenas algumas espécies aprendem novos sons?

Segundo Jarvis, a aprendizagem vocal é uma característica rara na natureza. Enquanto a maioria das aves nasce com vocalizações praticamente prontas, espécies como os pássaros canoros, papagaios e beija-flores aprendem seus cantos ao ouvir outros indivíduos, processo semelhante ao desenvolvimento da fala em crianças.

Além das aves, poucos mamíferos apresentam essa capacidade, como seres humanos, morcegos, elefantes, baleias e golfinhos. Para o pesquisador, compreender como esses circuitos cerebrais funcionam pode revelar a origem da linguagem e explicar por que ela surgiu apenas em algumas linhagens evolutivas.

Como o cérebro das aves pode ajudar a entender a fala

Embora cérebros de aves e mamíferos tenham seguido caminhos evolutivos diferentes há mais de 320 milhões de anos, algumas regiões responsáveis pela aprendizagem vocal apresentam características semelhantes.

Segundo Jarvis, isso representa um caso de evolução convergente, quando espécies distintas desenvolvem soluções parecidas para um mesmo desafio.

Se esses circuitos realmente funcionarem de forma semelhante, estudar aves poderá ajudar os cientistas a compreender melhor como o cérebro humano aprende a falar.

Uma das linhas de pesquisa do laboratório busca identificar genes envolvidos na aprendizagem vocal. Em um estudo publicado em 2025, Jarvis e colaboradores modificaram um gene em ratos para torná-lo mais semelhante ao encontrado em humanos e em aves que aprendem a cantar.

Segundo os pesquisadores, a alteração mudou a forma como os animais se comunicavam. Filhotes passaram a emitir vocalizações diferentes ao chamar suas mães, enquanto machos produziram sons modificados durante o comportamento de acasalamento.

O laboratório também conseguiu alterar circuitos cerebrais relacionados à vocalização, levando os animais a produzir uma variedade maior de sons.

Objetivo é compreender distúrbios da fala

Segundo os pesquisadores, essas descobertas podem ajudar a esclarecer como surgem problemas de comunicação em seres humanos.

A expectativa é que o conhecimento sobre os circuitos da aprendizagem vocal contribua para o desenvolvimento de terapias contra condições como gagueira, autismo e perda da fala após acidentes vasculares cerebrais (AVC) ou traumatismos.

Para isso, o grupo utiliza principalmente tentilhões-zebra, aves cujo sistema neural relacionado ao canto apresenta semelhanças importantes com o da linguagem humana.

Música, dança e linguagem podem estar conectadas

Além da fala, Jarvis investiga a relação entre aprendizagem vocal e ritmo. Segundo o pesquisador, apenas espécies capazes de aprender novos sons também conseguem sincronizar movimentos com a música, comportamento observado em humanos e em algumas aves.

Para ele, essa ligação sugere que os circuitos cerebrais responsáveis por imitar sons e perceber o ritmo podem ter evoluído em conjunto.

Jarvis acredita que compreender esses mecanismos poderá transformar o entendimento sobre a linguagem humana e abrir novas possibilidades para o tratamento de doenças neurológicas.

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