Futebol: pesquisadores encontraram menos cartões em jogos disputados sob temperaturas mais elevadas (AFP)
Redatora
Publicado em 9 de julho de 2026 às 09h09.
O calor extremo pode tornar as partidas de futebol menos violentas. Um estudo com quase um milhão de jogos mostrou que, a partir de determinada temperatura, o número de cartões aplicados pelos árbitros começa a cair, contrariando a ideia de que dias mais quentes tendem a favorecem comportamentos mais agressivos em campo.
As conclusões são dos cientistas da Universidade Humboldt de Berlim e do Instituto Universitário Europeu, na Itália, com os resultados publicados na revista científica PNAS Nexus. Os pesquisadores analisaram 997 mil partidas de futebol amador disputadas na Alemanha entre julho de 2022 e setembro de 2025.
Para reduzir a influência de outros fatores, os autores compararam jogos realizados no mesmo estádio, liga e temporada. Em seguida, relacionaram a quantidade de cartões amarelos e vermelhos com a temperatura registrada em cada partida.
Os cartões foram utilizados como um indicador de comportamento agressivo em campo, já que normalmente são aplicados após faltas, jogadas mais duras ou atitudes antidesportivas.
Os resultados mostraram que o número de advertências aumenta conforme a temperatura sobe, mas apenas até cerca de 13 °C. Acima desse patamar, ocorre o efeito contrário: quanto mais quente o ambiente, menor passa a ser a quantidade de cartões distribuídos pelos árbitros, principalmente os amarelos.
Nas partidas disputadas sob as temperaturas mais elevadas avaliadas — de até 32 °C —, houve cerca de 15% menos cartões do que a média observada no estudo.
Segundo os autores da pesquisa, a explicação mais provável é que o calor faz os jogadores pouparem energia. Como carrinhos, divididas, disputas aéreas e outros lances de contato exigem maior esforço físico, eles tendem a ocorrer com menos frequência quando a temperatura é muito alta. Com menos disputas intensas, também diminuem as faltas e, consequentemente, os cartões.
Os pesquisadores explicam que temperaturas moderadamente elevadas podem aumentar a irritabilidade. Porém, quando o calor se torna extremo, o desgaste físico necessário para manter esse tipo de comportamento supera esse efeito, reduzindo a intensidade das partidas.
Até agora, parte da literatura científica indicava que temperaturas mais elevadas favoreciam conflitos e comportamentos agressivos. Segundo os autores, essa diferença pode ser explicada pelo tipo de pesquisa realizado anteriormente. Muitos estudos foram conduzidos em laboratório ou analisaram partidas de futebol profissional, um contexto bastante diferente do futebol amador.
No esporte de alto rendimento, os atletas contam com pausas para hidratação, acompanhamento médico, preparação física específica e outras condições que ajudam a reduzir os efeitos do calor durante os jogos. Já no futebol amador, essas medidas normalmente não estão disponíveis, o que pode influenciar o comportamento dos jogadores em campo.
Apesar disso, os pesquisadores ressaltam que as conclusões não devem ser generalizadas para todas as situações. O estudo avaliou apenas partidas de futebol amador disputadas majoritariamente por homens na Alemanha, e a temperatura máxima registrada foi de 32 °C, inferior à observada durante ondas de calor mais intensas em outras regiões do mundo.
Os autores também destacam que a redução no número de cartões não significa que o calor extremo seja menos prejudicial ao organismo. Na avaliação da equipe, os resultados indicam apenas que os jogadores tendem a diminuir o ritmo e a intensidade das disputas físicas para preservar energia diante das altas temperaturas.