Granizo: projeto usa câmeras de alta velocidade para registrar a formação das pedras de gelo (Freepik)
Redatora
Publicado em 9 de julho de 2026 às 07h21.
O granizo já provoca prejuízos de bilhões de dólares por ano nos Estados Unidos, mas continua sendo um dos fenômenos meteorológicos menos compreendidos pela ciência. Para descobrir como essas pedras de gelo se formam e por que algumas atingem tamanhos extremos, pesquisadores perseguem tempestades severas em busca de dados que podem melhorar as previsões e reduzir os impactos econômicos.
A iniciativa foi retratada pelo jornal The New York Times, que acompanhou o trabalho do meteorologista Sean Waugh, pesquisador da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). Integrante do projeto ICECHIP (Experimento Colaborativo In Situ para Coleta de Granizo nas Planícies), ele utiliza câmeras de alta velocidade para estudar o fenômeno.
O objetivo é aperfeiçoar os modelos meteorológicos e reduzir um dos maiores "pontos cegos" da previsão de tempestades severas.
Durante décadas, tornados concentraram a maior parte das pesquisas sobre tempestades severas nos Estados Unidos. O granizo, porém, permaneceu relativamente pouco estudado, apesar dos prejuízos bilionários que causa todos os anos.
Segundo os pesquisadores, boa parte do conhecimento científico sobre o fenômeno foi construída apenas a partir das pedras de gelo que sobreviviam ao impacto no solo e eram recolhidas antes de derreter. Isso significa que a maior parte das informações sobre a formação e a evolução do granizo simplesmente se perdia antes de poder ser analisada.
Além disso, estudos recentes mostraram que pedras de granizo do tamanho de bolas de golfe podem ser lançadas pela circulação de tornados a velocidades superiores a 320 quilômetros por hora, comportamento diferente do que os modelos meteorológicos previam até poucos anos atrás.
Sean Waugh lidera uma das iniciativas mais ambiciosas já realizadas para compreender esse fenômeno. O pesquisador equipou um veículo com câmeras 4K de alta velocidade e um sistema de iluminação extremamente potente para registrar as pedras de gelo ainda durante a queda, antes que atinjam o solo.
O objetivo é observar diretamente seu tamanho, formato, velocidade e trajetória, produzindo informações que antes eram impossíveis de obter.
Segundo Waugh, os dados disponíveis até hoje representam apenas uma pequena parcela de todo o granizo produzido pelas tempestades, já que a maioria das pedras derrete ou se fragmenta antes de ser analisada.
As imagens captadas pela equipe já revelam comportamentos capazes de modificar a forma como o granizo é representado nos modelos usados para prever tempestades severas.
Os impactos do granizo vão muito além da curiosidade científica. Uma única tempestade sobre uma cidade de médio porte pode provocar bilhões de dólares em prejuízos, danificando veículos, telhados, residências, infraestrutura e plantações.
Segundo especialistas, o granizo passou a ser um dos principais fatores por trás do aumento do custo dos seguros residenciais e automotivos em diversas regiões dos Estados Unidos.
A reportagem cita o caso de um agricultor de Oklahoma que perdeu cerca de 2.400 acres de trigo após uma tempestade de granizo destruir praticamente toda a lavoura poucas semanas antes da colheita. Mesmo com seguro agrícola, o prejuízo foi estimado em aproximadamente US$ 300 mil.
Para os pesquisadores, episódios como esse mostram que compreender melhor o granizo deixou de ser apenas uma questão científica e passou a ser também um desafio econômico.
Embora não seja possível atribuir uma tempestade isolada às mudanças climáticas, estudos apontam que o aquecimento global favorece condições mais propícias à formação de tempestades severas.
Dados citados mostram que, na década de 1980, os Estados Unidos registravam, em média, um desastre climático com prejuízo superior a US$ 1 bilhão a cada quatro meses. Atualmente, esse tipo de evento ocorre aproximadamente a cada três semanas.
Esse cenário reforça a necessidade de aperfeiçoar os modelos de previsão para reduzir riscos e melhorar os sistemas de alerta.
Ao mesmo tempo, cortes no financiamento federal reduziram significativamente as pesquisas sobre granizo. Parte do projeto ICECHIP perdeu recursos após reduções no orçamento da National Science Foundation (NSF), levando pesquisadores a buscar financiamento junto ao setor de seguros.
Diante disso, para os cientistas, compreender melhor como o granizo se forma é essencial para aperfeiçoar as previsões meteorológicas, reduzir perdas econômicas e preparar comunidades para tempestades potencialmente mais severas.