Sensor quântico: protótipo supera ruído e pode revelar sinais invisíveis do Universo (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)
Redatora
Publicado em 9 de julho de 2026 às 08h21.
Um novo protótipo de sensor quântico superou um dos maiores obstáculos para detectar alguns dos sinais mais fracos do Universo. Em testes de laboratório, cientistas mostraram que a tecnologia é capaz de recuperar medições ocultadas por interferências intensas, abrindo caminho para futuras investigações sobre matéria escura e ondas gravitacionais produzidas nos primeiros instantes após o Big Bang.
A pesquisa foi conduzida por cientistas do Imperial College London e publicada na revista Nature. Os resultados demonstram, pela primeira vez em condições experimentais realistas, que uma técnica considerada essencial para a próxima geração de sensores quânticos funciona conforme previsto.
O protótipo utiliza dois interferômetros atômicos, dispositivos altamente sensíveis que empregam feixes de laser para medir com grande precisão o comportamento de nuvens de átomos ultrafrios.
Esses equipamentos estão entre as tecnologias mais promissoras para investigar fenômenos difíceis de observar, como campos de matéria escura e ondas gravitacionais originadas logo após o Big Bang.
O principal desafio é que esses efeitos são extremamente sutis e costumam ficar escondidos pelo chamado ruído de fase do laser, uma interferência muito mais intensa do que o sinal procurado pelos cientistas.
Para superar esse problema, a equipe comparou simultaneamente as medições realizadas pelos dois interferômetros. Como ambos utilizam o mesmo laser, eles compartilham praticamente a mesma interferência experimental. Ao comparar os dois conjuntos de dados, esse ruído pode ser cancelado, preservando apenas pequenas diferenças capazes de indicar a presença de novos fenômenos físicos.
Para testar a estratégia, os cientistas construíram um sistema com duas nuvens de átomos ultrafrios de estrôncio-87 e adicionaram deliberadamente uma quantidade muito elevada de ruído, simulando condições ainda mais desafiadoras do que as encontradas em experimentos convencionais.
Nessas condições, cada interferômetro deixou de produzir medições úteis quando analisado isoladamente. Porém, ao combinar os dados dos dois dispositivos, o comportamento real do sistema voltou a aparecer, confirmando que a técnica funciona mesmo em cenários extremos.
A equipe também inseriu um sinal artificial para reproduzir o efeito esperado de uma onda gravitacional ou de um campo de matéria escura. Embora invisível nas medições individuais, esse sinal permaneceu claramente detectável após o cancelamento das interferências.
Segundo os autores, detectar matéria escura e ondas gravitacionais muito antigas exige instrumentos capazes de medir variações minúsculas, normalmente mascaradas pelo ruído experimental.
O estudo representa a primeira demonstração prática de um princípio considerado fundamental para a próxima geração de interferômetros atômicos de longa distância, que poderão explorar regiões do Universo atualmente inacessíveis aos detectores existentes.
É importante destacar que o trabalho não detectou diretamente matéria escura tampouco novas ondas gravitacionais. O avanço demonstra que uma das principais barreiras técnicas para observar esses fenômenos pode ser superada.
O protótipo integra o projeto britânico AION (Atom Interferometer Observatory and Network), uma colaboração dedicada ao desenvolvimento de sensores quânticos para pesquisas em física fundamental. A partir disso, os pesquisadores pretendem ampliar essa tecnologia para instrumentos muito maiores, em parceria com iniciativas como o MAGIS, nos Estados Unidos, e o futuro experimento AICE, proposto para o CERN.
Segundo a equipe, sistemas desse porte poderão investigar frequências de ondas gravitacionais que hoje permanecem fora do alcance dos detectores atuais, além de ampliar a busca por matéria escura e outros fenômenos previstos pela física, mas ainda não observados.
Para os autores, o resultado representa um passo importante rumo ao desenvolvimento de uma nova geração de sensores quânticos capaz de abrir novas janelas para investigar a origem, a composição e a evolução do Universo.