Asteroide Donaldjohanson: imagem inédita foi registrada pela missão Lucy (NASA/Goddard/SwRI/Johns Hopkins APL/Brian May/Claudia Manzoni)
Redatora
Publicado em 25 de junho de 2026 às 11h00.
A missão Lucy, da Nasa, revelou novos detalhes sobre o asteroide Donaldjohanson, um corpo celeste que pode ajudar os cientistas a reconstruir parte da história do Sistema Solar. As observações mostraram que o objeto possui formato semelhante ao de um amendoim, apresenta uma rotação incomum e preserva minerais que indicam contato com água líquida em um passado remoto.
Os resultados foram divulgados pela Nasa na última quinta-feira, 18. Segundo os pesquisadores, o asteroide reúne características que ajudam a entender como pequenos corpos rochosos evoluíram após a formação do Sistema Solar e como colisões, radiação solar e água influenciaram sua transformação ao longo de milhões de anos.
A sonda Lucy sobrevoou o asteroide Donaldjohanson em abril do ano passado, passando a cerca de 1.046 quilômetros de sua superfície. Durante o encontro, registrou as primeiras imagens em alta resolução e realizou medições detalhadas da composição e da dinâmica do objeto.
As observações revelaram que Donaldjohanson possui uma estrutura bilobada, formada por dois blocos rochosos unidos por uma região estreita, conferindo ao asteroide um formato semelhante ao de um amendoim.
Além da aparência incomum, os cientistas descobriram que ele não gira de forma estável como a maioria dos asteroides. Enquanto completa uma rotação em torno de si mesmo a cada 10,5 dias, também oscila em torno do próprio eixo em um ciclo de aproximadamente 26,5 dias, comportamento descrito pelos pesquisadores como semelhante ao de um pião desequilibrado.
A equipe estima que Donaldjohanson tenha surgido há cerca de 155 milhões de anos, quando fragmentos de um grande impacto voltaram a se unir lentamente sob a ação da gravidade.
As imagens obtidas por Lucy revelam crateras, cristas e regiões suavizadas que registram essa longa evolução. Segundo os pesquisadores, o asteroide girava muito mais rápido logo após sua formação, mas perdeu velocidade ao longo de dezenas de milhões de anos.
Essa desaceleração é atribuída ao chamado efeito YORP, um fenômeno provocado pela radiação solar. Ao absorver e reemitir energia na forma de calor, a superfície do asteroide sofre pequenas forças de reação que, acumuladas durante milhões de anos, alteram gradualmente sua velocidade de rotação.
Com a mudança na rotação, rochas e sedimentos migraram pela superfície, remodelando parte do relevo observado atualmente.
Outro resultado importante da missão foi a identificação de minerais de argila ricos em ferro na superfície do asteroide. Segundo os pesquisadores, esse tipo de mineral só se forma na presença de água líquida. No entanto, a composição química indica que esse contato ocorreu durante um período relativamente curto.
Em outros asteroides estudados anteriormente, como Bennu e Ryugu, predominam argilas ricas em magnésio, sinal de uma exposição muito mais prolongada à água. Em Donaldjohanson, a predominância do ferro sugere que a alteração química foi interrompida antes que o processo se completasse.
Essa diferença pode indicar que os corpos que deram origem a esses asteroides se formaram em épocas distintas ou em regiões diferentes do Sistema Solar.
Donaldjohanson compartilha algumas características com Bennu e Ryugu, dois asteroides que já foram visitados por missões de coleta de amostras.
Os três provavelmente surgiram a partir da fragmentação de corpos maiores ricos em carbono e água. No entanto, Donaldjohanson é muito mais jovem, com cerca de 155 milhões de anos, enquanto Bennu e Ryugu podem ter entre 1 bilhão e 2 bilhões de anos.
Outra diferença importante é que Donaldjohanson permaneceu no cinturão principal de asteroides desde sua formação, enquanto Bennu e Ryugu migraram para órbitas próximas da Terra.
Segundo os pesquisadores, comparar essas pequenas diferenças permite reconstruir a história dos primeiros corpos sólidos que se formaram no Sistema Solar.
O sobrevoo de Donaldjohanson também serviu como um teste para os próximos objetivos da missão Lucy. A espaçonave está a caminho dos asteroides troianos de Júpiter, um grupo de corpos considerados praticamente intactos desde os primeiros estágios da formação do Sistema Solar. O primeiro encontro está previsto para agosto de 2027.
Para a equipe da missão, cada novo asteroide analisado oferece pistas sobre a origem e a evolução dos planetas. As diferenças observadas entre Donaldjohanson, Bennu, Ryugu e os futuros alvos da missão poderão ajudar a explicar como esses objetos se formaram, migraram e preservaram registros dos processos que deram origem ao Sistema Solar há cerca de 4,6 bilhões de anos.