Oceano: fundo do mar é uma das regiões menos conhecidas do universo (André Motta de Souza / Agência Petrobras)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 16 de julho de 2026 às 18h13.
Apesar de cobrir mais de 70% da superfície da Terra, o fundo do mar continua sendo uma das regiões menos conhecidas do planeta. Os cientistas já mapearam a superfície de Marte com mais detalhes do que o relevo submarino terrestre, e menos de 0,001% do assoalho oceânico foi observado diretamente.
Essa limitação dificulta a compreensão de fenômenos essenciais, como a dinâmica das placas tectônicas, a formação de terremotos e tsunamis e até processos que influenciam o clima global. Agora, uma nova geração de tecnologias promete ampliar significativamente o conhecimento sobre as profundezas dos oceanos.
Sensores sísmicos instalados no leito marinho, navios capazes de perfurar quilômetros abaixo da superfície e até cabos submarinos de internet adaptados para monitorar terremotos estão entre as ferramentas que podem transformar a pesquisa oceanográfica, de acordo com a Nature.
Grande parte da atividade geológica do planeta ocorre no manto, camada localizada abaixo da crosta terrestre e responsável por mais de 80% do volume da Terra. É nele que acontece a convecção, o movimento lento de rochas aquecidas que impulsiona o deslocamento das placas tectônicas.
Para estudar esse processo, pesquisadores utilizam os chamados Ocean Bottom Seismometers (OBS), sensores instalados no fundo do oceano capazes de registrar ondas sísmicas durante mais de um ano sem necessidade de manutenção. As informações permitem reconstruir a estrutura interna do planeta e entender como diferentes densidades de rocha afetam a propagação dessas ondas.
Projetos que antes estavam concentrados no Oceano Pacífico agora se expandem para outras regiões, como o Atlântico. Em 2022, por exemplo, cientistas instalaram seis sensores ao redor da ilha de São Jorge, nos Açores, após uma sequência de terremotos levantar o temor de uma erupção vulcânica. Os equipamentos mostraram que o magma chegou a cerca de um quilômetro da superfície antes de interromper sua ascensão.
Outra fronteira da ciência é atravessar completamente a crosta terrestre para coletar, pela primeira vez, amostras intactas do manto.
Essa missão pode ficar mais próxima com o Meng Xiang, navio de pesquisa lançado pela China no fim de 2024. A embarcação foi projetada para perfurar até 11 mil metros abaixo da superfície do mar, profundidade superior à alcançada por qualquer outro navio científico.
Além da capacidade de perfuração, o laboratório flutuante reúne uma ampla estrutura de pesquisa. Se conseguir atravessar a chamada Descontinuidade de Mohorovičić — limite entre a crosta e o manto —, o navio poderá fornecer as primeiras amostras diretas dessa camada da Terra.
Pesquisadores também desenvolveram um sistema para melhorar a previsão de tsunamis utilizando hidrofones, microfones capazes de captar sons de baixa frequência produzidos na origem dessas ondas gigantes.
Como o som se propaga na água cerca de três vezes mais rápido do que o tsunami, os sinais chegam aos sensores horas antes da onda atingir a costa. Um modelo matemático consegue então simular, em menos de 30 segundos, como o tsunami deverá se espalhar, oferecendo tempo adicional para evacuações em áreas de risco.
Outra inovação aproveita uma infraestrutura que já existe, os cabos submarinos de fibra óptica responsáveis por transportar praticamente todo o tráfego mundial de internet.
Pesquisadores descobriram que pequenas deformações provocadas por ondas sísmicas alteram o comportamento da luz que percorre essas fibras, permitindo detectar terremotos sem instalar novos equipamentos no fundo do mar.
Inicialmente, a tecnologia era limitada pela presença de repetidores ao longo dos cabos. Agora, cientistas desenvolveram um método que utiliza conexões já existentes nesses equipamentos para ampliar o monitoramento por milhares de quilômetros. O sistema foi testado com sucesso em um cabo de cerca de 4.400 quilômetros entre o Havaí e a Califórnia, detectando as ondas sísmicas produzidas pelo terremoto de magnitude 8,8 que atingiu a península russa de Kamchatka em 2025.
Juntas, essas tecnologias prometem acelerar a exploração da última grande fronteira desconhecida da Terra, ampliando o entendimento sobre a estrutura interna do planeta e contribuindo para sistemas mais eficientes de monitoramento de terremotos, vulcões e tsunamis.