'Euphoria': com terceira e última temporada, série é mais polêmica do que nunca (Divulgação/HBO Max)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 21 de abril de 2026 às 15h43.
Mais de quatro anos depois da segunda temporada, "Euphoria" voltou ao ar na HBO no domingo, 12, e terá oito novos episódios.
Além da leva fresquinha de capítulos, a terceira temporada trouxe consigo um rastro de polêmicas que já havia se acumulado muito antes das câmeras voltarem a ligar.
A série criada, escrita, dirigida e produzida por Sam Levinson sempre foi alvo de controvérsia, sobretudo quanto ao retrato de temáticas adultas como abuso de substâncias e sexualidade.
Nessa última temporada, no entanto, a repercussão é marcadamente mais negativa do que era nas duas primeiras partes da saga, e os bastidores podem ter sido turbulentos.
A terceira temporada estreou com avaliações radicalmente opostas.
O The Guardian deu duas estrelas e declarou que a espera "definitivamente não valeu a pena", classificando a série como "uma obra sombria e sem humor de 'torture porn', obcecada e repulsada pelo trabalho sexual".
O Telegraph, também com duas estrelas, escreveu que a produção "cada vez mais parece a fantasia misógina de um velho perturbador". A crítica Eleanor Halls afirmou que "Levinson essencialmente prendeu todas as suas protagonistas femininas na performance ou exploração do trabalho sexual, e a câmera as espia e as devora a cada tomada."
Já o New York Post chamou a temporada de "um desastre fora de controle" que "parece Breaking Bad encontrando Looney Tunes".
Do lado oposto, o Independent deu quatro estrelas e descreveu os novos episódios como "um retrato claro e desfavorável da América moderna".
Após 4 anos, ‘Euphoria’ volta diferente e nova temporada perde essênciaO The New York Times, também com quatro estrelas, elogiou a expansão temática. "Antes era uma história estilosa de adolescentes de subúrbio fazendo coisas irresponsáveis. Agora eles têm vinte e poucos anos e a aterrorizante extensão da vida adulta, simbolizada pelo deserto empoeirado, está à frente."
Para o criador da série, as críticas fazem parte do trabalho. "Eu adoro que as pessoas se importam tanto, e adoro que sejam tão apaixonadas", disse Levinson ao NYT. "É o que você sonha como cineasta."
Um dos momentos mais comentados antes mesmo da estreia foi um trecho do trailer em que a personagem Cassie, vivida pela, também polêmica, Sydney Sweeney, aparece vestida de bebê sendo filmada para o OnlyFans. A reação nas redes sociais foi imediata — e piorou depois que o episódio foi ao ar, no último domingo, 19.
"Isso não é desenvolvimento de personagem, isso é conteúdo fetichista. Nojento", escreveu um usuário. "Isso é simplesmente perturbador", disse outro.
A BBC apontou que a cena concentrou boa parte das críticas sobre o tratamento das personagens femininas na temporada.
A crítica Hannah J. Davies, do The Guardian, escreveu que "a forma como a série lida com as ambições de Cassie como criadora de conteúdo adulto parece estranhamente datada, enquanto as histórias sobre sugar babies e fetiches parecem simultaneamente voyeuristas e moralistas".
Levinson, no entanto, revelou ao New York Times que foi a própria Sweeney quem pediu para que a personagem fosse radicalizada. "Antes de eu escrever essa temporada, ela me ligou e disse: 'me faça um favor: garanta que Cassie seja louca'", contou o diretor.
Outra mudança notável na terceira temporada é a ausência da trilha sonora de Labrinth. O compositor foi responsável pela sonoridade das duas primeiras temporadas, incluindo a canção "All for Us", que ganhou o Emmy de Melhor Música Original.
A saída veio acompanhada de declarações explosivas.
Em uma publicação no Instagram Stories, posteriormente deletada, o músico britânico disse"f***-se a Columbia. Duplo f***-se Euphoria. Estou fora. Obrigado e boa noite."
Dias depois, já com a estreia da terceira temporada se aproximando, Labrinth publicou uma nova nota esclarecendo os motivos da sua saída da série.
"Pessoas confortavelmente mentem nessa indústria e ainda assim se chamam de honestas", escreveu. "Então, sem rodeios: decidi remover qualquer música minha que estivesse na série. Conversei com a HBO, pelo que sei, estamos bem. Saí porque, acima de tudo, quando trabalho para alguém, a visão deles é primordial para mim. Mas não deixo ninguém me tratar como lixo."
Levinson respondeu ao episódio chamando Labrinth de "colaborador incrível" e dizendo que não sabe ao certo por que ele deixou a série.
O diretor disse à Rolling Stone que a mudança musical foi intencional. "Eles saíram do colégio, então as raízes pop desapareceram. Eu os via nessas paisagens, lidando com o bem e o mal. Imaginava-se que queria reforçar um score de faroeste hollywoodiano à moda antiga."
O compositor escolhido para substituí-lo foi o veterano e multi-premiado por Oscars, Hans Zimmer.
Angus Cloud, que interpretava o traficante Fezco na série, morreu em julho de 2023, aos 25 anos, devido a uma overdose.
A morte abalou profundamente Levinson, que havia tentado ajudar o ator a se manter sóbrio, chegando a convencer a HBO a pagar por internações em clínicas de reabilitação. "A razão de eu estar aqui hoje é porque alguém na minha vida me deu uma segunda chance. Eu queria fazer o mesmo por ele", disse o diretor ao NYT.
O diretor contou que, nas temporadas anteriores, havia chegado a escrever a morte de Fezco, mas não conseguia executá-la. "Especialmente com tudo que tínhamos passado. Eu queria que ele tivesse algo para se agarrar, um objetivo tangível para o futuro."
Quando soube da morte do ator, Levinson disse ter ficado com raiva da indústria das drogas. "Perdê-lo me fez sentar e pensar: que história eu realmente quero contar? O que importa na vida? E foi através dessa busca que a terceira temporada começou a se cristalizar", revelou.
Na série, a decisão foi manter Fezco vivo no universo ficcional. "O mundo real eu não consigo controlar. 'Euphoria' eu consigo."
O primeiro episódio da nova temporada terminou com uma homenagem a Cloud, ao ator Eric Dane, que morreu em fevereiro de 2026 e aparece nos primeiros episódios da temporada. Outra homenagem foi feita ao produtor executivo Kevin Turen, com quem Levinson tinha uma relação conturbada.
Em novembro de 2023, Turen morreu de parada cardíaca aos 45 anos.
O produtor era sócio de Levinson na produtora Little Lamb e produtor executivo de "Euphoria", mas meses antes de sua morte, Levinson havia cortado relações com o produtor.
De acordo com o Hollywood Reporter, a família de Turen deixou claro que Sam e sua esposa Ashley não eram bem-vindos ao funeral. Levinson então realizou seu próprio memorial em casa, com um pequeno grupo.
Segundo o veículo, a ruptura teria sido motivada por um filme que Turen estava produzindo com The Weeknd e a atriz Jenna Ortega, um projeto que Levinson não conhecia ou teria ficado sabendo tarde demais. Ele teria se sentido traído, especialmente por se tratar de um projeto musical com o mesmo artista com quem trabalhava em "The Idol".
Pessoas próximas aos dois lamentam que a morte tenha tornado a reconciliação impossível. "Eles se amavam", disse um membro da equipe de Levinson ao The Hollywood Reporter. "É uma pena porque, de certa forma, eles se tornavam melhores um pelo outro. Kevin empurrava Sam na direção certa. Era uma dupla fantástica, e é isso que é de partir o coração."
Durante as duas primeiras temporadas, Zendaya e Levinson eram, nas palavras de uma fonte ouvida pelo The Hollywood Reporter, "inseparáveis".
Ela havia ganhado dois Emmys pelo papel de Rue e chegou a sonhar em dirigir episódios da terceira temporada. Mas a relação esfriou e as causas, segundo o veículo, foram se acumulando.
O estopim mais visível teria sido "The Idol".
Enquanto Levinson desviava a atenção para a nova série, sem entregar os roteiros da terceira temporada de "Euphoria", Zendaya chegou a pedir uma reunião com os executivos da HBO para questionar por que a emissora permitia que o diretor se dedicasse a outro projeto com a série em aberto.
Quando a Rolling Stone publicou uma reportagem em março de 2023 alegando que as gravações de "The Idol" haviam saído "de forma perturbadora e nojenta dos trilhos", Zendaya, que não tinha nada a ver com o projeto, foi arrastada pela controvérsia.
Uma reunião posterior na HBO, com Zendaya, Levinson e os executivos Casey Bloys e Francesca Orsi, que tinha como objetivo uma reconciliação, não surtiu efeito. "Eles foram de uma proximidade tão grande para não conseguir consertar nada", disse uma fonte ao The Hollywood Reporter.
Outro ponto de atrito: com a morte de Turen, Zendaya comunicou à HBO que não queria que Ashley Levinson, esposa do diretor e nova produtora executiva, fosse a única voz na produção. "Sam precisa de alguém além de Ashley", disse um representante de talentos ao veículo. "Ele precisa de uma voz da razão, e Kevin era um gênio nisso."
Por outro lado, uma fonte próxima a Levinson atribuiu parte dos atrasos à própria Zendaya, que estaria priorizando sua carreira no cinema.
"Era tudo sobre ela", disse essa fonte ao The Hollywood Reporter.
Sweeney, por contraste, era descrita como entusiasmada com o retorno. "Ela está muito ansiosa para voltar ao 'Euphoria' de Sam Levinson. Ela se importa muito com Sam e com o trabalho dele", disse uma fonte do entorno da atriz.
Barbie Ferreira, que interpretou Kat Hernandez nas duas primeiras temporadas, não está na terceira. Após anos de especulação, ela finalmente explicou com detalhes os motivos da saída em entrevista ao podcast Not Skinny But Not Fat.
A atriz negou qualquer ruptura dramática ou briga com Levinson, contrariando rumores que circularam online na época da saída. "Não foi dramático", disse Ferreira.
Segundo ela, o problema foi a ausência de perspectiva criativa para a personagem. "Simplesmente não estava indo a lugar nenhum."
Kat havia sido apresentada na primeira temporada como uma figura central da série, com um arco marcante sobre autoestima e sexualidade. Na segunda temporada, suas cenas foram progressivamente cortadas.
Ferreira disse que, diante de gravações que duram cerca de nove meses, ficou difícil justificar o compromisso.
"Não preciso estar no maior programa de televisão do mundo se não estou, tipo, atuando. Prefiro fazer um filme independente onde estou exercitando minha capacidade, sendo desafiada criativamente."
A atriz disse que a decisão foi "mútua" e nasceu de conversas sobre os rumos do personagem que simplesmente não levaram a lugar nenhum.
"Acredito em mim mesma como atriz e quero ver minha carreira ter uma cara um pouco diferente disso. Tudo bem se não for o grande programa de sucesso", afirmou. "Eu fiz isso. Agora quero seguir o meu caminho."
As polêmicas em torno de Sam Levinson não começaram nesta temporada.
Segundo o The Hollywood Reporter, o padrão de conflitos nos bastidores se repete desde a primeira temporada de "Euphoria".
A diretora Augustine Frizzell foi contratada para dirigir o piloto, mas teria sido constantemente supervisionada por Levinson ao ponto de o sindicato de diretores americanos (DGA) intervir ao menos duas vezes.
"Às vezes ele estava completamente tranquilo, mas aí estava andando em círculos, fumando e torcendo as mãos porque não era ele o diretor", disse uma fonte ao veículo. Frizzell acabou saindo e Levinson assumiu o controle. "Na segunda temporada, percebemos que ele nunca ia ter outros diretores trabalhando na série", disse um executivo do estúdio ao The Hollywood Reporter.
Há ainda o relato da fotógrafa canadense Petra Collins, que afirmou em entrevista de 2023 ter passado cinco meses em Los Angeles desenvolvendo a estética e selecionando o elenco de "Euphoria" a convite de Levinson, apenas para ser dispensada sob a justificativa de ser "jovem demais para dirigir".
"Fiquei chocada", disse Collins à revista húngara Punkt. "Era a estética que construí a vida toda e agora precisei mudá-la porque entrou no mainstream e foi tomada de mim." Uma fonte próxima a Levinson disse ao The Daily Beast que ele era fã do trabalho de Collins e "esperava que houvesse uma possibilidade de trabalharem juntos dessa forma. Mas de forma alguma algo foi prometido."