Central 1926: no Anhangabaú, o local concentra uma casa noturna, espaço de eventos, gravadora e estúdio (Central / Divulgação)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 26 de abril de 2026 às 07h30.
No Vale do Anhangabaú, uma fila longa se forma várias vezes na semana em frente à fachada centenária da Central. O prédio, que já foi sede da Eletropaulo, tem um espaço de eventos que recebe 180 mil visitantes por ano e abriga um estúdio e gravadora com créditos em quatro Grammys Latinos.
Por trás do projeto, inaugurado em 2022 com investimento inicial de R$ 6 milhões, um nome já conhecido no Centro de São Paulo: Chico Lowndes, produtor cultural que fez parte da retomada do Baixo Augusta na década de 2000, e sua empresa, chamada Revitaliza Centro.
O sucesso foi rápido. Em apenas quatro anos, a Central já conquistou um lugar estabelecido na cena cultural da cidade e se tornou queridinha de diversos artistas musicais, sobretudo do nicho de hip-hop, funk, trap e soul.
Central Jam: evento semanal já contou com presença de Karol Conká (Central / Divulgação)
O espaço de eventos já acumulou mais de 154 mil visitantes, uma média de 200 eventos por ano, mais de mil atrações nos palcos e 35 eventos privados corporativos.
Um dos cases de sucesso é a festa semanal Central Jamming, que completou recentemente um ano de existência e consegue juntar rotineiramente mais de 150 pessoas para horas de música ao vivo.
Já no estúdio, foram gravados projetos de Elza Soares, Thiaguinho, parte considerável do álbum "Coisas Naturais" de Marina Sena e muitos outros artistas de peso na música brasileira.
"A gente ainda está em ascensão. Depois de quatro anos, continuamos crescendo", diz Lowndes em entrevista à EXAME.
Apesar de a região do Anhangabaú ter recentemente concentrado eventos culturais, ela não é tradicionalmente boêmia, como as regiões da República, da Bela Vista ou da Consolação, por exemplo.
O próprio Lowndes reconhece isso e diz que a facilidade de acesso ao transporte público é um atrativo maior do que o bairro em si. Além disso, a Red Bull Station, predecessora da Central no endereço, já havia conquistado seu lugar na cena paulistana.
Desde 2009, a Red Bull realiza iniciativas para artistas no Brasil. A primeira foi a Red Bull House of Art, uma residência artística que ocupou o Edifício São Paulo Moreira, na Líbero Badaró, no centro histórico. Em 2012, a prefeitura retomou o imóvel para instalar a Secretaria Municipal de Cultura, e a empresa foi em busca de um novo endereço.

O prédio que encontrou tinha uma história longa. Construído em 1926 pela São Paulo Tramway Light & Power Company — a Light, responsável pela energia elétrica e pelos bondes de São Paulo — ele funcionou por décadas como a subestação central de energia da cidade. Daí o nome Central Substation.
Com a estatização do setor elétrico, o prédio passou para a Eletropaulo em 1981, até ser desativado em 2004. Tombado como patrimônio histórico em 2002, ele ficou fechado e abandonado por quase uma década.
Entre 2013 e 2014, o imóvel foi restaurado com a finalidade de abrigar a Red Bull Station, uma plataforma cultural da companhia focada em residências artísticas. Lá passaram mais de 50 artistas nacionais e internacionais em 14 edições, até 2019.
Nesse contexto que Lowndes veio a conhecer o endereço que abrigaria a Central anos depois. Ele já atendia a Red Bull há 13 anos como produtor cultural, com envolvimento no Red Bull House of Art e na Red Bull Station.
Com a decisão da marca de encerrar suas atividades culturais no espaço às vésperas da pandemia, o produtor assumiu a gestão e a propriedade do edifício pela sua empresa, a Revitaliza Centro. Sob nova direção, nasceu a Central.
A inauguração oficial do empreendimento aconteceu em março de 2022, logo após o decreto que liberou a retomada dos eventos presenciais.
"A gente tem esse ecossistema ligado à música. Tem o estúdio, tem a gravadora, tem o club e a casa de show. É isso que faz com que a gente tenha tido um sucesso acelerado, a gente enxergou desde o começo que a música urbana ia estourar no Brasil", diz Lowndes.
Em um mesmo endereço, Praça da Bandeira 137, convivem dois CNPJs.
O primeiro corresponde à Central 1926, composta pela boate e casa de shows, é um deles. São cerca de 200 eventos por ano, com uma média de público de 900 pessoas por festa. Além disso, há também mais de 35 eventos privados corporativos e sociais, uma fonte de receita que complementa a programação própria.

Já o segundo negócio veio em 2023, com a criação do Estúdio Central e da gravadora Central Records, uma parceria de Lowndes e do produtor Rico Manzano.
Pelo estúdio passaram Emicida, Elza Soares, Liniker, Tulipa Ruiz, Marina Sena, Criolo e Thiaguinho, entre outros. Quatro trabalhos gravados no espaço foram reconhecidos pelo Grammy Latino, incluindo Mulher do Fim do Mundo, de Elza Soares.
Além de nomes já consagrados, a Central Records cuida de produção, imagem e lançamentos de artistas como Tonyyymon, Thomé, DJ Sophia, Duda Pimenta e Lafetah.
"Acreditamos muito em artistas emergentes que estão se destacando na cena urbana. Um artista de trap que se interessa por elementos da música brasileira, um funkeiro que gosta de arranjos mais complexos", diz Manzano à EXAME.

A Central aposta no funk, trap e rap como fio condutor gêneros que, segundo Lowndes, "sempre foram muito marginalizados e olhados com certo preconceito pelo mercado." Ele afirma que a ideia é oferecer a artistas periféricos acesso a uma estrutura que, de outra forma, estaria fora do alcance deles, como um estúdio de primeira linha, uma casa de shows equipada e uma gravadora.
Nessa relação, a Central oferece infraestrutura e plataforma para artistas novos. Eles, por sua vez, renovam o portfolio da gravadora e dos eventos, mantendo a relevância cultural do espaço. Para não envelhecer em uma cena que muda rápido, Lowndes evita apostar em nomes já consolidados. "Quem compra pronto já vai entrar em decadência em algum momento. A gente tá sempre na fonte", diz.
Entre as diversas ações que ocorrem na edificação, a Central Jam ilustra bem as possibilidades de um ecossistema cultural. Todas às terças-feiras, à partir das 19h, o local abre as portas para cantores e MCs, discotecagem e exposições de arte, fotografia, moda e brechós.
Com produção de Rico Manzano e Lys Vieira, além de fotografia de João Morais, divulgação de Tony Moon e curadoria artística de Fidelis, o evento completou um ano recentemente. O sucesso já é estabelecido, com uma longa lista de presenças estreladas como Karol Conká.
O começo foi improvisado. "A gente da gravadora queria ter um 'role' que nós gostássemos. E conseguimos, toda a vez que eu vou fazer a Jam, mesmo cansado e irritado no começo, no fim eu estou muito feliz", diz Manzano.
João, Tony e Fidelis, amigos da zona leste com raízes no hip-hop, receberam a oportunidade com duas semanas de antecedência e partiram do zero.
Os primeiros panfletos foram feitos por Fidelis no celular e a montagem do evento foi feita à mão. "A gente não fez uma reunião para decidir como seria. Eu nunca tinha ido em uma viagem na vida", conta um dos produtores.
O modelo deu certo. Atualmente, até as noites menos bem-sucedidas contam com um público de cerca de 150 pessoas. Além disso, a Jam conquistou o status de point para vários artistas. Em edições recentes, passaram pelo microfone Karol Conká, Nego Bala, Hodari e Çantamarta, artistas espanhóis que participaram do último álbum de Marina Sena.
Já a curadoria das exposições é feita a partir de pesquisa constante. Metade dos nomes vem da rede dos próprios organizadores, enquanto a outra metade chega pelas redes sociais, via DMs e pedidos espontâneos. "O mais massa é que às vezes a pessoa vem entrar em contato como se fosse uma parada super complexa, burocrática — e na troca já tá falando, já tá em agenda", afirma Fidelis.
O perfil da Jam soma cerca de 7 mil seguidores, com crescimento totalmente orgânico. A fama do evento chegou longe o suficiente para que, durante a COP30, em Belém, um desconhecido dissesse a Manzano que conhecia o evento: “Nunca fui, mas vejo os vídeos. Quando eu for a São Paulo, quero ir.”
