Ciência

Terapia CAR-T: como funciona o tratamento que ajudou Sam Neill contra o câncer

Imunoterapia modifica células do próprio sistema imunológico para combater tumores; tecnologia já está disponível no Brasil para alguns casos

Sam Neill: ator permaneceu em remissão após receber terapia CAR-T para tratar um linfoma (Reprodução/Universal Studios)

Sam Neill: ator permaneceu em remissão após receber terapia CAR-T para tratar um linfoma (Reprodução/Universal Studios)

Publicado em 14 de julho de 2026 às 08h27.

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O ator Sam Neill, conhecido por filmes como "Jurassic Park" e "O Piano", morreu aos 78 anos nesta segunda-feira, 13, após passar os últimos anos em remissão de um linfoma não Hodgkin graças à terapia CAR-T. O tratamento, considerado um dos maiores avanços recentes da oncologia, utiliza células do próprio sistema imunológico do paciente para reconhecer e destruir células cancerígenas.

A terapia já é utilizada em diversos países e também está disponível no Brasil para alguns tipos de câncer do sangue. Além disso, pesquisadores brasileiros desenvolvem versões nacionais da tecnologia, que podem ampliar o acesso nos próximos anos. Apesar dos avanços, o tratamento ainda enfrenta desafios relacionados ao alto custo e ao número limitado de centros especializados.

Como funciona a terapia CAR-T

A terapia CAR-T (sigla em inglês para Chimeric Antigen Receptor T-cell) utiliza uma estratégia diferente da quimioterapia tradicional.

O tratamento começa com a coleta dos linfócitos T, células de defesa responsáveis por identificar e combater ameaças ao organismo. Essas células são enviadas para um laboratório, onde passam por uma modificação genética para receber um receptor artificial, chamado CAR, capaz de reconhecer proteínas presentes nas células tumorais.

Após serem multiplicadas em laboratório, os linfócitos T modificados retornam ao paciente por meio de uma infusão semelhante a uma transfusão de sangue.

A partir desse momento, elas passam a localizar e destruir as células cancerígenas de forma mais específica. Segundo o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, trata-se de uma forma de "reprogramar" o sistema imunológico para combater o câncer.

Para quais tipos de câncer a CAR-T é indicada?

Atualmente, a terapia CAR-T é aprovada principalmente para alguns tipos de cânceres hematológicos, como:

  • linfoma não Hodgkin;
  • leucemias;
  • mieloma múltiplo.

Em geral, o tratamento é indicado para pacientes cuja doença voltou após outras terapias ou deixou de responder à quimioterapia e a outros tratamentos convencionais.

Esse foi o caso de Sam Neill. Diagnosticado com um linfoma não Hodgkin em estágio avançado em 2023, o ator relatou que a quimioterapia deixou de controlar a doença. Após receber a terapia celular, entrou em remissão e permaneceu sem sinais detectáveis de câncer até sua morte, segundo comunicado divulgado pela família.

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (NCI), a terapia CAR-T também vem sendo investigada para o tratamento de tumores sólidos, como câncer de pulmão, mama e cérebro, mas essas aplicações ainda estão em fase de pesquisa clínica.

Por que a terapia CAR-T é considerada uma revolução?

Ao contrário da quimioterapia, que também afeta células saudáveis de rápida multiplicação, a CAR-T atua de forma direcionada sobre células que apresentam proteínas específicas do tumor.

Em pacientes que já esgotaram outras alternativas terapêuticas, o tratamento pode produzir remissões duradouras e, em alguns casos, eliminar completamente sinais da doença.

Por esse motivo, a terapia é considerada um dos avanços mais importantes da imunoterapia nas últimas décadas.

Brasil já desenvolve versões nacionais da CAR-T

Embora a tecnologia tenha sido criada no exterior, o Brasil vem ampliando sua capacidade de produzir a terapia dentro do próprio país.

Em junho deste ano, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Instituto Butantan, divulgaram resultados preliminares de um estudo clínico mostrando que 87,5% dos pacientes com linfoma não Hodgkin apresentaram redução significativa ou desaparecimento do tumor após receberem uma versão nacional da CAR-T desenvolvida pelo Hemocentro de Ribeirão Preto.

Outra pesquisa, conduzida pelo Hospital Israelita Albert Einstein e financiada pelo Ministério da Saúde por meio do Proadi-SUS, mostrou que 81% dos pacientes com leucemias e linfomas avançados responderam ao tratamento, enquanto 72% entraram em remissão completa.

Na ocasião, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha afirmou em entrevista coletiva que as duas iniciativas ainda dependem da conclusão dos estudos clínicos e da avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) antes de uma eventual incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Quais são os desafios para ampliar o acesso?

Apesar dos resultados promissores, a terapia CAR-T ainda é considerada um tratamento de alta complexidade. De acordo com uma revisão publicada na Nature Reviews Immunology no início deste mês, o tratamento envolve a coleta dos linfócitos T do próprio paciente, a modificação genética dessas células em laboratório, sua expansão e posterior reinfusão no organismo, além de monitoramento especializado para identificar possíveis efeitos adversos, como síndrome de liberação de citocinas e toxicidades neurológicas.

O alto custo também representa uma das principais barreiras. Segundo uma revisão publicada na Frontiers in Hematology, o tratamento comercial pode custar cerca de US$ 500 mil por paciente (o equivalente a aproximadamente R$ 2 milhões a R$ 4 milhões).

O estudo destaca ainda desafios para ampliar o acesso no Brasil, como o número reduzido de centros habilitados, a necessidade de infraestrutura altamente especializada, a complexidade da fabricação das células e a ausência de modelos consolidados de financiamento para incorporar a terapia em larga escala.

Embora estudos nacionais tenham demonstrado resultados promissores com versões brasileiras da terapia, essas iniciativas ainda dependem da conclusão dos ensaios clínicos, do registro pela Anvisa e das etapas regulatórias necessárias antes de uma eventual incorporação ao SUS. Enquanto esse processo avança, a CAR-T permanece como uma das principais inovações da medicina personalizada para pacientes com cânceres hematológicos que não respondem aos tratamentos convencionais.

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