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O que as healthtechs têm a oferecer ao SUS?

Especialista analisa como a colaboração entre setor público e privado pode solucionar gargalos históricos do Sistema Único de Saúde

Cabines de telemedicina e totens digitais ampliam o acesso à saúde em regiões remotas do Brasil (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Cabines de telemedicina e totens digitais ampliam o acesso à saúde em regiões remotas do Brasil (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

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Publicado em 22 de abril de 2026 às 10h00.

Por Juan Ramos*

Telemedicina, interoperabilidade e novos modelos de atendimento mostram como a cooperação entre setor público e iniciativa privada pode ampliar a eficiência e democratizar o acesso à saúde no Brasil.

O SUS (Sistema Único de Saúde) é uma das maiores políticas públicas de inclusão social do mundo. Responsável por atender milhões de brasileiros diariamente, o sistema enfrenta, no entanto, gargalos históricos relacionados à capacidade assistencial, distribuição de profissionais e organização da porta de entrada.

Hoje, pacientes aguardam, em média, cerca de 57 dias por consultas com especialistas. Em procedimentos cirúrgicos, esse tempo pode chegar a 634 dias. Esses números revelam não apenas uma pressão conjuntural, mas um desafio estrutural que exige novas formas de organização do cuidado.

Nesse cenário, cresce a compreensão de que ampliar o acesso não depende exclusivamente da expansão física da rede, mas da incorporação de inteligência assistencial e tecnologia.

Tecnologia como reorganizadora da porta de entrada

A transformação digital vem redesenhando a lógica de acesso aos serviços públicos de saúde em diversos países.

No Brasil, a telemedicina emerge como um instrumento capaz de reorganizar fluxos assistenciais, reduzir deslocamentos desnecessários e qualificar o encaminhamento para níveis de maior complexidade.

Quando bem integrada ao sistema público, ela atua como filtro clínico eficiente, reduzindo a sobrecarga em unidades presenciais e ampliando a resolutividade da atenção primária. Mais do que uma solução emergencial, trata-se de uma estratégia estruturante para tornar o cuidado mais rápido, inteligente e acessível.

Telemedicina e capilaridade assistencial

Experiências recentes mostram que plataformas digitais conectadas ao SUS já permitem reduzir o tempo de espera para atendimento inicial para cerca de cinco minutos em determinados projetos.

Além disso, soluções de teleconsulta com acesso a mais de 40 especialidades médicas ampliam significativamente a capacidade de resposta do sistema, especialmente em regiões com escassez de profissionais.

Outro avanço relevante está na instalação de totens e cabines de telemedicina em áreas remotas ou com baixa cobertura assistencial. Esses modelos híbridos ajudam a aproximar o atendimento especializado da população sem exigir grandes deslocamentos ou investimentos estruturais de alto custo. Esse tipo de iniciativa sinaliza um caminho concreto para reduzir desigualdades regionais históricas.

Interoperabilidade e gestão baseada em dados

Outro fator decisivo para a modernização do SUS é a integração entre plataformas digitais e sistemas públicos existentes, como o e-SUS Digital e os prontuários eletrônicos.

A interoperabilidade permite continuidade do cuidado, melhora indicadores assistenciais e fortalece a capacidade de planejamento dos gestores públicos. Mais do que acelerar atendimentos, a digitalização cria condições para decisões baseadas em evidências, com impacto direto na eficiência do sistema.

Nesse cenário, soluções digitais interoperáveis já demonstram que é possível organizar melhor a jornada do paciente, reduzir sobrecargas na atenção presencial e ampliar a resolutividade da porta de entrada do sistema.

Este movimento reforça uma mudança importante de paradigma: a inovação na saúde tecnológica deixa de ocupar um papel periférico e passa a atuar como vetor estruturante de fortalecimento, e não de substituição, da saúde pública brasileira.

O papel estratégico das parcerias público-privadas

A discussão sobre o futuro do SUS passa, necessariamente, pela capacidade de integrar competências públicas e privadas de forma complementar.

Healthtechs, universidades, centros de inovação e operadores tecnológicos já participam da construção de soluções que ampliam escala, eficiência e capilaridade do atendimento.

Nesse setor público, a iniciativa privada contribui com agilidade tecnológica, capacidade operacional e novos formatos de acesso. O resultado é um sistema mais responsivo às necessidades reais da população.

Um caminho possível para ampliar acesso com sustentabilidade

A sustentabilidade do SUS depende cada vez mais da combinação entre gestão eficiente, tecnologia aplicada e cooperação institucional.

Telemedicina, interoperabilidade e novos modelos híbridos de atendimento não representam apenas inovação operacional. Representam uma mudança de paradigma na forma de organizar o cuidado público em saúde.

Fortalecer essas iniciativas significa ampliar acesso, reduzir desigualdades e preparar o sistema para responder com mais rapidez aos desafios de uma sociedade que demanda atendimento cada vez mais ágil, resolutivo e integrado.

O futuro do SUS passa pela capacidade de transformar colaboração em política pública permanente. E, nesse processo, inovação e parceria deixam de ser alternativas e passam a ser parte da solução.

*Juan Ramos é advogado formado pela PUC Minas e especialista em Marketing pelo Instituto Eurodata, com pós-graduação em Gestão de Negócios de Impacto pela UFMG. Juan ocupa hoje o cargo de CEO da CallMed.

 

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