Câncer de cólon: estudo identificou um mecanismo que favorece a disseminação do tumor para o fígado (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)
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Publicado em 11 de julho de 2026 às 06h21.
Pesquisadores identificaram um mecanismo que ajuda a explicar como o câncer colorretal forma metástases no fígado, principal causa de mortes relacionadas à doença.
O estudo mostrou que a perda da proteína GATA6 faz as células tumorais mudarem de identidade, tornando-se mais adaptáveis e capazes de se espalhar pelo organismo. A descoberta pode abrir caminho para novas estratégias de diagnóstico e tratamento.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Weill Cornell Medicine e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), foi publicada na revista Cell Stem Cell. Os resultados indicam que a disseminação do câncer depende mais de alterações epigenéticas — mecanismos que controlam a ativação e o desligamento dos genes — do que de novas mutações no DNA.
Nas células saudáveis do intestino, a proteína GATA6 funciona como uma espécie de reguladora molecular, mantendo as células especializadas e desempenhando suas funções normalmente.
Segundo os pesquisadores, quando os níveis dessa proteína diminuem, as células do câncer de cólon perdem essa característica e passam por um processo chamado plasticidade de linhagem. Nesse estado, elas assumem propriedades semelhantes às de células fetais, tornando-se mais flexíveis e adquirindo maior capacidade de sobreviver, circular pela corrente sanguínea e formar novos tumores em outros órgãos.
A equipe também observou que pacientes com metástase hepática apresentam níveis mais baixos de GATA6 e, em geral, têm pior prognóstico.
Durante anos, cientistas tentaram identificar mutações genéticas capazes de explicar por que o câncer colorretal se espalha para o fígado. No entanto, nenhuma alteração específica conseguiu justificar esse processo.
O novo estudo aponta outro caminho. Em vez de mudanças permanentes no DNA, a metástase parece estar ligada a alterações epigenéticas, que regulam quais genes permanecem ativos ou inativos sem modificar a sequência genética.
Segundo Norihiro Goto, líder da pesquisa, a perda de GATA6 funciona como um verdadeiro "interruptor molecular", transformando células pouco agressivas em células com alto potencial de disseminação.
Para observar as primeiras etapas da disseminação do tumor, os pesquisadores utilizaram organoides — pequenas estruturas tridimensionais cultivadas em laboratório que reproduzem diversas características dos tumores humanos.
Esses organoides foram implantados no cólon de camundongos. Ao repetir o experimento diversas vezes, os cientistas conseguiram acompanhar, passo a passo, como as células cancerígenas adquiriam capacidade de invadir o fígado.
Os testes mostraram que a perda de GATA6 favorece o aparecimento de células sem o marcador LGR5, já associado em pesquisas anteriores ao início das metástases hepáticas. Quando os pesquisadores restauraram a atividade da proteína GATA6, o potencial de disseminação dessas células caiu significativamente.
Além de esclarecer como ocorre a metástase, os resultados indicam que a proteína GATA6 poderá futuramente servir como um biomarcador para identificar pacientes com maior risco de desenvolver tumores secundários.
Segundo os autores, medir os níveis dessa proteína pode ajudar médicos a identificar pacientes que precisem de acompanhamento mais rigoroso ou de tratamentos mais intensivos.
A pesquisa também abre caminho para o desenvolvimento de terapias capazes de impedir que as células tumorais percam sua identidade original e adquiram características que favorecem a disseminação do câncer.
Apesar dos resultados promissores, a pesquisa ainda está em fase pré-clínica e foi realizada principalmente com organoides e modelos animais. Os próximos estudos buscarão entender como células do sistema imunológico e o microambiente do fígado influenciam esse processo.
Os pesquisadores também pretendem identificar formas de bloquear a metástase sem interferir nos mecanismos naturais de reparo dos tecidos.
Segundo Norihiro Goto, impedir que o câncer se espalhe pode ser tão importante quanto tratar o tumor primário. Para a equipe, compreender como as células tumorais mudam de identidade representa um passo importante para desenvolver terapias capazes de interromper a progressão do câncer antes que a metástase se estabeleça.