Ciência

Parar de usar Ozempic pode elevar risco cardiovascular em até 22%, diz estudo

Pesquisa acompanhou mais de 333 mil pacientes e encontrou perda de benefícios à medida que aumentava o período sem medicamentos GLP-1

Ozempic: pesquisa avaliou os efeitos cardiovasculares da interrupção do tratamento com medicamentos GLP-1 (Roberto Pfeil/picture alliance/Getty Images)

Ozempic: pesquisa avaliou os efeitos cardiovasculares da interrupção do tratamento com medicamentos GLP-1 (Roberto Pfeil/picture alliance/Getty Images)

Publicado em 22 de setembro de 2026 às 11h43.

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Interromper o tratamento com medicamentos da classe GLP-1 foi associado à perda de parte da proteção cardiovascular observada durante o uso contínuo. A relação apareceu em um estudo com mais de 333 mil pessoas com diabetes tipo 2 acompanhadas por até três anos.

A pesquisa analisou medicamentos como semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, além de terapias dessa classe usadas contra o diabetes e para controle do peso. Também foram incluídos tratamentos com tirzepatida, presente no Mounjaro e no Zepbound.

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis, nos Estados Unidos, e publicado na revista científica BMJ Medicine.

Estudo acompanhou mais de 333 mil pacientes

A análise reuniu dados de 333.687 veteranos dos Estados Unidos com diabetes tipo 2. Desse total, 132.551 receberam medicamentos GLP-1. Outros 201.136 receberam sulfonilureias, outra classe de medicamentos utilizada no tratamento do diabetes.

As sulfonilureias foram usadas como grupo de comparação. Entre elas estavam glipizida, glimepirida e gliburida.

Os participantes foram acompanhados por até três anos. A cada seis meses, os pesquisadores reavaliavam se os pacientes continuavam ou haviam interrompido o tratamento com GLP-1.

Durante o acompanhamento, 26% dos usuários interromperam completamente o medicamento. Outros cerca de 23% ficaram pelo menos seis meses sem o tratamento antes de retomá-lo.

A análise se concentrou nos chamados eventos cardiovasculares adversos maiores. O desfecho reuniu ataque cardíaco, acidente vascular cerebral e morte.

Uso contínuo apresentou maior proteção cardiovascular

Os maiores benefícios apareceram entre os pacientes que permaneceram em tratamento durante os três anos analisados. Na comparação com pacientes tratados com sulfonilureias, aqueles que utilizaram continuamente medicamentos GLP-1 tiveram risco 18% menor de eventos cardiovasculares graves.

A diferença correspondeu a aproximadamente quatro eventos cardiovasculares graves a menos para cada 100 pessoas durante três anos.

O tempo de permanência no tratamento também fez diferença nos resultados. Pacientes que permaneceram com GLP-1 durante dois anos antes da interrupção apresentaram redução de 7% no risco cardiovascular. Entre aqueles que mantiveram o tratamento por dois anos e meio, a redução chegou a 15%.

Já os participantes que interromperam a terapia antes de completar 18 meses não apresentaram redução significativa do risco cardiovascular em relação ao grupo que utilizava sulfonilureias ao final do acompanhamento.

O que aconteceu após a interrupção dos medicamentos GLP-1

Os pesquisadores também compararam diretamente os pacientes que continuaram o tratamento com aqueles que permaneceram diferentes períodos sem a medicação. Mesmo uma interrupção de seis meses seguida pela retomada do tratamento foi associada a uma redução do benefício cardiovascular.

Na comparação com o uso contínuo, períodos sem a medicação foram associados a um risco cardiovascular entre 4% e 8% maior. A diferença aumentou conforme o tempo sem tratamento se prolongava.

Pacientes que permaneceram um ano sem GLP-1 apresentaram risco 14% maior de eventos cardiovasculares graves em comparação com aqueles que continuaram usando os medicamentos. Depois de dois anos sem tratamento, o risco foi 22% maior.

Os resultados mostram uma associação entre períodos mais longos sem o medicamento e uma perda progressiva da proteção cardiovascular observada durante o tratamento contínuo.

Retomar tratamento recuperou apenas parte do benefício

O estudo também analisou pacientes que interromperam o tratamento e posteriormente voltaram a utilizar medicamentos GLP-1. Entre aqueles que permaneceram em tratamento durante os três anos, a redução do risco cardiovascular foi de 18% em relação às sulfonilureias. Já entre os participantes que tiveram uma interrupção e posteriormente retomaram a terapia, a redução média foi de 12%.

Segundo os pesquisadores, os dados indicam que a retomada do medicamento esteve associada à recuperação de parte do benefício cardiovascular, mas não de toda a diferença observada entre usuários contínuos.

O estudo também encontrou diferenças relacionadas ao tempo de tratamento antes da interrupção. A proteção cardiovascular se acumulou gradualmente entre os participantes que permaneceram utilizando os medicamentos por períodos maiores.

Por que pacientes interrompem o tratamento com GLP-1?

O estudo foi motivado pela frequência com que pacientes deixam de utilizar medicamentos GLP-1 após iniciarem a terapia. Entre os motivos apontados pelos pesquisadores estão custos, efeitos colaterais e dificuldades de acesso aos medicamentos.

A interrupção desses tratamentos já é associada ao reganho de peso. Neste estudo, porém, os pesquisadores investigaram outro possível efeito da descontinuação, avaliando como diferentes períodos sem a medicação estavam associados ao risco de eventos cardiovasculares graves.

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