Montezum, atração do Hopi Hari inaugurada em 1999, é investigada após jovem apresentar hemorragia intracraniana (Hopi Hari/Divulgação)
Repórter
Publicado em 21 de setembro de 2026 às 17h15.
Última atualização em 21 de setembro de 2026 às 17h16.
Uma pessoa pode sofrer uma lesão cerebral mesmo sem bater a cabeça. Movimentos bruscos de aceleração e desaceleração podem fazer o cérebro se deslocar dentro do crânio e atingir suas estruturas internas, explica o neurologista Saulo Nader, ouvido pela EXAME sobre o caso de Júlia Bossoni, que perdeu os movimentos do lado esquerdo do corpo após andar na montanha-russa Montezum, no Hopi Hari.
“Provavelmente, a chacoalhada intensa provocou uma lesão por golpe e contragolpe, mesmo que a vítima não tenha batido a cabeça no equipamento”, afirma o médico. Segundo ele, o movimento pode causar danos tanto à região que sofre o impacto quanto à área oposta do cérebro.
Júlia passou mal durante sua segunda volta na atração, em abril. Imagens divulgadas mostram que ela estava consciente na subida inicial. Quando o carrinho retornou à plataforma, cerca de dois minutos depois, estava desacordada. Segundo o marido, João Pedro Bossoni, ela também apresentava convulsões.
Encaminhada à Santa Casa de Vinhedo, a jovem recebeu diagnóstico de traumatismo cranioencefálico (TCE). Exames identificaram hemorragia intracraniana e edema cerebral, um inchaço do cérebro. Ela passou por uma craniectomia descompressiva e ficou internada por 57 dias. A família relata que Júlia perdeu os movimentos do braço e da perna esquerdos e apresenta dificuldades na fala e alterações de memória.
Nader explica que uma lesão provocada pelo movimento pode se agravar se houver rompimento de um vaso sanguíneo. “Uma concussão, causada por uma pancada ou por um chacoalhamento intenso, já pode provocar lesões. Se houver sangramento, por exemplo, pelo rompimento de um pequeno vaso, o quadro se agrava.”
Para o neurologista, a perda de movimentos do lado esquerdo pode estar relacionada a uma lesão em áreas do hemisfério direito responsáveis pelo controle motor. “É importante lembrar que o controle dos movimentos é cruzado no cérebro: o lado direito controla o lado esquerdo do corpo, e vice-versa.”
Nader também aponta que a dificuldade de fala pode ocorrer quando a lesão atinge regiões envolvidas na linguagem. Ele afirma que, dependendo da área afetada, a vítima também pode ter dificuldade para compreender ou articular palavras.
A craniectomia descompressiva retira temporariamente parte do crânio para aliviar a pressão sobre o cérebro. Segundo Nader, a decisão de operar depende da localização e da quantidade do sangramento, das imagens de tomografia ou ressonância e da evolução clínica da paciente.
“Então a imagem, né, ajuda muito, a tomografia, a ressonância e também a clínica da pessoa”, afirma o neurologista. Entre os sinais de agravamento que os médicos observam estão piora dos movimentos e da fala, sonolência, confusão e alteração do nível de consciência.
O neurologista também aponta a importância da reabilitação para os movimentos e para a fala, com fisioterapia motora e acompanhamento fonoaudiológico.
Um laudo do médico que atendeu a jovem atribuiu o traumatismo a um mecanismo de contragolpe durante o percurso. Nader diz que não é possível determinar, apenas pelas informações divulgadas, por que a lesão ocorreu com ela.
"Fatores individuais ou características do movimento naquele momento são possibilidades, mas, ainda não é possível determinar", conclui.
O Ministério Público de São Paulo investiga as circunstâncias do episódio e solicitou uma perícia na atração.