Ciência

Estudo muda entendimento sobre um dos tipos mais comuns de AVC

Pesquisa indica que danos nos pequenos vasos cerebrais podem explicar por que terapias como a aspirina têm efeito limitado

AVC: estudo aponta danos nos pequenos vasos como possível origem do tipo lacunar (Freepik)

AVC: estudo aponta danos nos pequenos vasos como possível origem do tipo lacunar (Freepik)

Publicado em 5 de julho de 2026 às 16h30.

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Um tipo comum de acidente vascular cerebral (AVC) pode ter uma origem diferente da que os médicos acreditavam. Um novo estudo sugere que o AVC lacunar está mais relacionado a danos nos pequenos vasos sanguíneos do cérebro do que ao acúmulo de placas de gordura nas grandes artérias, hipótese que durante décadas orientou parte das estratégias de prevenção.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, em colaboração com pesquisadores internacionais, e publicada na revista Circulation. Os resultados ajudam a explicar por que medicamentos amplamente utilizados para prevenir novos AVCs, como a aspirina e outros antiplaquetários, costumam apresentar eficácia limitada nesse tipo específico da doença.

O que é o AVC lacunar?

O AVC lacunar ocorre quando pequenos vasos sanguíneos localizados nas regiões profundas do cérebro sofrem lesões que interrompem o fluxo de sangue.

Essa condição está associada à chamada doença dos pequenos vasos cerebrais, uma das principais causas de incapacidade física, declínio cognitivo, demência e novos episódios de AVC.

Apesar de representar uma parcela importante dos acidentes vasculares cerebrais isquêmicos, as causas exatas desse tipo de AVC ainda não são completamente compreendidas.

O que os pesquisadores descobriram

O estudo acompanhou 229 pessoas que haviam sofrido um AVC lacunar ou um AVC isquêmico leve de outro tipo. Os participantes realizaram exames clínicos, testes cognitivos e ressonâncias magnéticas logo após o AVC e novamente um ano depois.

Para isso, os pesquisadores compararam dois possíveis fatores envolvidos na doença: o estreitamento causado por placas de gordura nas grandes artérias e a dilatação das pequenas artérias localizadas no cérebro.

Os resultados mostraram que o estreitamento das grandes artérias não estava associado ao AVC lacunar nem à progressão da doença dos pequenos vasos. Já a dilatação dessas pequenas artérias apresentou uma forte associação com esse tipo de AVC. Pacientes com vasos dilatados tiveram cerca de quatro vezes mais probabilidade de apresentar um AVC lacunar do que aqueles sem essa alteração.

Além disso, esse grupo também apresentou doença dos pequenos vasos mais grave, maior progressão das lesões cerebrais e risco aumentado de desenvolver novos AVCs silenciosos — pequenos danos cerebrais que podem ocorrer sem provocar sintomas perceptíveis.

Mais de um em cada quatro participantes desenvolveu esses AVCs silenciosos durante o período de acompanhamento, mesmo recebendo os tratamentos preventivos atualmente recomendados.

Como a descoberta pode mudar o tratamento

Segundo os pesquisadores, os resultados ajudam a explicar por que medicamentos antiplaquetários, como a aspirina, nem sempre conseguem prevenir novos AVCs lacunares.

Esses tratamentos foram desenvolvidos principalmente para reduzir a formação de coágulos relacionados ao estreitamento das grandes artérias. Se a principal alteração estiver nos pequenos vasos do cérebro, estratégias voltadas especificamente para proteger essa microcirculação poderão ser mais eficazes.

Novas terapias entram em fase de testes

De acordo com o estudo, os resultados também estão orientando novas pesquisas clínicas. Um dos estudos em andamento é o ensaio LACI-3, que avalia se medicamentos já disponíveis, como o cilostazol e o mononitrato de isossorbida, podem proteger os pequenos vasos sanguíneos do cérebro, reduzir o risco de novos AVCs e diminuir complicações de longo prazo, como perda de memória, dificuldades de mobilidade e demência.

Os pesquisadores ressaltam, porém, que o estudo identificou uma forte associação entre a dilatação das pequenas artérias e o AVC lacunar, mas não demonstra uma relação direta de causa e efeito. Ainda assim, os resultados oferecem novas pistas sobre os mecanismos envolvidos na doença e podem orientar o desenvolvimento de tratamentos mais específicos para esse tipo de AVC.

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