Ciência

Viver para sempre? Físico diz por que bilionários estão 'perdendo tempo'

Jim Al-Khalili questiona a busca pela longevidade e explica como a física muda nossa compreensão sobre o tempo, o envelhecimento e até viagens temporais

Bryan Johnson: empresário de tecnologia ficou conhecido por investir em estratégias voltadas à longevidade (Instagram/Reprodução)

Bryan Johnson: empresário de tecnologia ficou conhecido por investir em estratégias voltadas à longevidade (Instagram/Reprodução)

Publicado em 21 de setembro de 2026 às 16h29.

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Enquanto bilionários da tecnologia investem em estratégias para tentar retardar o envelhecimento e prolongar a vida, o físico britânico Jim Al-Khalili defende uma abordagem diferente: aproveitar o tempo disponível.

Professor da Universidade de Surrey e conhecido por seus trabalhos de divulgação científica, Al-Khalili classificou a tentativa de viver para sempre como uma possível “perda de tempo”. A declaração foi dada ao jornal The Guardian antes das tradicionais palestras de Natal da Royal Institution, que neste ano terão o tempo como tema.

“Temos um intervalo de tempo finito no qual existimos no universo”, afirmou o físico. “Quanto mais estudo a natureza do tempo, mais percebo que só quero aproveitar ao máximo o tempo que tenho.”

A discussão, porém, vai além da longevidade. Na física, a própria ideia de que o tempo avança igualmente para todos deixou de fazer sentido há mais de um século.

Por que o tempo não passa igual para todos

A explicação está na teoria da relatividade de Albert Einstein. Uma de suas consequências é que a passagem do tempo depende das condições em que um observador se encontra.

A velocidade é um dos fatores. Para alguém viajando em velocidades muito altas, próximas à da luz, o tempo pode transcorrer mais lentamente em comparação com uma pessoa que permaneceu em outras condições.

A gravidade também interfere na passagem do tempo. Quanto mais intenso o campo gravitacional, mais lentamente o tempo transcorre em relação a regiões submetidas a uma gravidade menor. Isso significa que não existe um relógio universal marcando exatamente o mesmo tempo para todos os pontos do Universo.

É possível viajar para o futuro?

Segundo Al-Khalili, viajar para o futuro é possível pelo menos em teoria por meio justamente desses efeitos da relatividade. Uma possibilidade seria viajar a velocidades próximas à da luz. Outra seria permanecer nas proximidades de um objeto com um campo gravitacional extremamente intenso, como um buraco negro supermassivo.

Nessas situações, o tempo transcorreria mais lentamente para o viajante em comparação com alguém distante dessas condições. Ao retornar, ele poderia descobrir que um período muito maior havia passado para as outras pessoas.

É uma ideia explorada no filme "Interestelar". Na história, personagens chegam a um planeta próximo de um buraco negro onde uma hora corresponde a vários anos transcorridos na Terra.

E voltar ao passado?

A possibilidade de viajar para o passado é mais problemática. Al-Khalili afirma que as equações da relatividade permitem matematicamente estruturas conhecidas como curvas temporais fechadas.

Ele compara o fenômeno a uma montanha-russa que faz um looping. O viajante continuaria avançando em seu próprio percurso, mas a curvatura extrema do espaço-tempo faria com que acabasse chegando a um momento anterior ao início da viagem.

A existência de uma solução matemática, no entanto, não significa que seja possível construir uma máquina do tempo ou realizar uma viagem desse tipo. Segundo Al-Khalili, a maioria dos físicos considera problemática a possibilidade de retornar ao passado porque ela produziria uma série de paradoxos.

O mistério da ‘flecha do tempo’

Outra questão abordada pelo físico é a chamada flecha do tempo: por que percebemos os acontecimentos seguindo uma única direção, do passado para o futuro.

No cotidiano, essa direção parece evidente. Objetos se deterioram, baterias descarregam, pessoas envelhecem e ambientes tendem a ficar desorganizados sem alguma intervenção. O problema é que, segundo Al-Khalili, as equações fundamentais da física não estabelecem da mesma maneira uma direção preferencial para o tempo.

Essa diferença entre as leis fundamentais e a experiência cotidiana é uma questão estudada há décadas pela física. Al-Khalili afirma ter desenvolvido uma explicação para o problema, mas ainda não revelou os detalhes. Segundo ele, a solução será apresentada durante as palestras de Natal da Royal Institution.

Corrida pela longevidade

As reflexões sobre a natureza do tempo também levaram Al-Khalili a questionar as tentativas de prolongar radicalmente a vida.

Nos últimos anos, empresários do setor de tecnologia passaram a investir em diferentes estratégias contra o envelhecimento. Um dos casos citados é o do empresário Bryan Johnson, conhecido por adotar uma rotina rigorosa de alimentação, exercícios físicos, exames e intervenções médicas com o objetivo de reduzir indicadores associados ao avanço da idade.

Johnson chegou a realizar uma transfusão envolvendo plasma de seu filho, então com 17 anos. Posteriormente, afirmou não ter identificado benefícios com o procedimento.

Al-Khalili argumenta que a existência humana ocupa um período extremamente curto quando comparada à idade do Universo. Para ele, dedicar esse intervalo à tentativa de prolongá-lo indefinidamente pode significar deixar de aproveitar o próprio presente.

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