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Leite causa inflamação? Evidências científicas indicam que não

Especialista afirma que compostos presentes nos laticínios podem até exercer efeitos anti-inflamatórios; entenda

Leite: evidências científicas desafiam uma das crenças mais difundidas sobre alimentação (Freepik)

Leite: evidências científicas desafiam uma das crenças mais difundidas sobre alimentação (Freepik)

Publicado em 1 de julho de 2026 às 14h56.

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Por muitos anos, o leite foi apontado como um alimento capaz de provocar inflamação no organismo e contribuir para diferentes problemas de saúde. No entanto, especialistas afirmam que essa associação nem sempre é sustentada pelas evidências científicas disponíveis. Em alguns casos, componentes presentes nos laticínios podem até estar relacionados a efeitos anti-inflamatórios.

A avaliação foi destacada pela traumatologista e divulgadora científica Inés Moreno Sánchez, em análise publicada pela revista Infosalus, na segunda-feira, 22, por ocasião do lançamento de seu livro "Homo imperfectus".

Segundo a especialista, muitas das críticas aos laticínios ignoram décadas de pesquisas sobre seus efeitos nutricionais e metabólicos.

Leite causa inflamação?

De acordo com Inés, a ideia de que o leite seja naturalmente inflamatório não encontra respaldo consistente na literatura científica para a maior parte da população.

A especialista explica que cerca de 90% dos europeus apresentam persistência da lactase, adaptação genética que permite a digestão da lactose mesmo na vida adulta. Nesses indivíduos, alguns componentes dos laticínios podem exercer efeitos benéficos sobre processos inflamatórios.

Entre eles está a lactoferrina, proteína capaz de reduzir o estresse oxidativo ao se ligar ao ferro livre presente no organismo. Além disso, produtos lácteos fermentados contêm ácidos graxos de cadeia curta que têm sido associados à redução da inflamação intestinal em alguns estudos.

Compostos do leite podem trazer benefícios à saúde

A especialista também destaca a presença de peptídeos bioativos, substâncias formadas durante a digestão das proteínas do leite que podem exercer efeitos fisiológicos importantes.

Segundo ela, alguns desses compostos apresentam ações semelhantes às observadas em medicamentos utilizados para auxiliar no controle da pressão arterial. Essas propriedades ajudam a explicar por que os laticínios continuam sendo amplamente estudados em pesquisas sobre saúde cardiovascular e metabolismo.

O que os estudos apontam sobre leite e doenças metabólicas

Dados citados por Inés indicam associações entre o consumo de leite e menores riscos de determinadas condições metabólicas. Segundo a autora, cada copo adicional de leite por dia esteve associado a uma redução de 13% no risco de síndrome metabólica, 19% no risco de obesidade, 13% no risco de diabetes tipo 2 e 12% no risco de doenças cardiovasculares.

A especialista ressalta que esses resultados foram observados principalmente em consumidores de produtos lácteos integrais. No entanto, trata-se de associações observadas em estudos populacionais, o que não significa necessariamente uma relação direta de causa e efeito.

Leite integral é melhor que leite desnatado?

Segundo Inés, a gordura do leite integral contém mais de 400 tipos diferentes de ácidos graxos. Alguns estudos associaram concentrações mais elevadas desses compostos no sangue a menor risco cardiovascular, menor incidência de diabetes tipo 2 e menores níveis de inflamação sistêmica.

A pesquisadora também destaca que pesquisas observaram uma relação entre o consumo de leite integral durante a infância e um risco reduzido de excesso de peso. Uma das hipóteses é que o maior poder de saciedade do leite integral contribua para uma menor ingestão de calorias provenientes de outros alimentos.

Além do cálcio: o valor nutricional do leite

Embora seja frequentemente lembrado pelo cálcio, o leite oferece diversos nutrientes importantes para o organismo. Entre eles estão proteínas de alta qualidade, vitamina B12, fósforo, potássio, magnésio e zinco.

A especialista destaca que o cálcio presente nos laticínios possui alta biodisponibilidade, ou seja, é absorvido com eficiência pelo organismo. Além disso, as proteínas do leite fornecem todos os aminoácidos essenciais necessários para o funcionamento do corpo humano.

Segundo Inés, a manutenção de níveis adequados de cálcio e proteína é especialmente importante antes dos 30 anos, período em que ocorre o pico de massa óssea. Ela ressalta, porém, que a saúde dos ossos não depende apenas da alimentação. A prática regular de atividade física continua sendo um dos principais fatores para a preservação da massa óssea ao longo da vida.

Para a especialista, as evidências atuais sugerem que o leite não deve ser considerado automaticamente um alimento inflamatório. Seus efeitos podem variar entre indivíduos, mas os dados científicos disponíveis mostram que os laticínios continuam sendo uma importante fonte de nutrientes e podem fazer parte de uma alimentação equilibrada para grande parte da população.
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