Obesidade: Pesquisa global sugere que obesidade não avança da mesma forma em todos os países (Kwanchaichaiudom/Thinkstock)
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Publicado em 17 de maio de 2026 às 06h57.
Durante décadas, a obesidade foi tratada pela ciência e por organismos internacionais como uma “epidemia global”. Mas um novo estudo publicado na revista Nature afirma que a realidade é mais complexa do que essa definição sugere.
A pesquisa foi liderada por pesquisadores do Imperial College London e pelos cientistas Alicia Matijasevich e Paulo Andrade Lotufo, ambos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), analisou dados de 232 milhões de pessoas em 197 países entre 1980 e 2024. Os pesquisadores utilizaram informações de mais de 4 mil estudos populacionais para entender como a obesidade evoluiu em diferentes partes do planeta.
O resultado mostrou que a obesidade continua aumentando em muitas regiões, especialmente em países de baixa e média renda. Porém, em diversas nações mais ricas, o crescimento desacelerou e, em alguns casos, chegou a se estabilizar ou até cair.
“Por mais de três décadas temos enquadrado isso como uma epidemia global”, afirmou o pesquisador Majid Ezzati, autor do estudo. “Mas, quando analisamos os países individualmente, vemos mudanças que não se encaixam exatamente nesse quadro uniforme de epidemia global.”
Segundo os autores, países como Dinamarca, Alemanha, Espanha e Itália registraram sinais de desaceleração principalmente entre crianças e adolescentes. Em algumas regiões da Europa, a obesidade infantil deixou de crescer desde os anos 2000.
Já em países mais pobres, o cenário segue preocupante. O estudo aponta que o avanço da obesidade acelerou em várias partes da América Latina, África e Ásia. No Brasil, por exemplo, os pesquisadores identificaram crescimento rápido principalmente entre homens adultos.
“O grande marcador é social em todos os lugares do mundo”, disse o médico Paulo Lotufo em entrevista ao Jornal da USP. “Há desaceleração do aumento da obesidade em países mais ricos e aceleração em países pobres.”
Os cientistas afirmam que fatores econômicos, sociais, tecnológicos e culturais ajudam a explicar essas diferenças. A expansão de alimentos ultraprocessados, mudanças no estilo de vida, urbanização e desigualdade social aparecem entre os principais fatores associados ao aumento da obesidade.
Os autores também ressaltam que medicamentos para perda de peso, como Ozempic e Wegovy, ainda não tiveram impacto significativo nos resultados analisados, já que o acesso a esses tratamentos permaneceu limitado até 2024. A expectativa é que eles possam influenciar futuras tendências, embora exista preocupação de que ampliem desigualdades por causa do alto custo.
Outro ponto destacado pela pesquisa é que a obesidade não avança da mesma maneira entre homens, mulheres, adultos e crianças. Em alguns países, a desaceleração começou primeiro entre meninas e só anos depois apareceu entre homens adultos. Isso reforça a ideia de que não existe uma única dinâmica global para explicar o problema.
Mesmo questionando o uso do termo “epidemia global”, os pesquisadores deixam claro que a obesidade continua sendo uma das maiores ameaças de saúde pública do século.