(Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter
Publicado em 9 de junho de 2026 às 10h32.
Consumir mais alimentos ultraprocessados pode afetar a capacidade de concentração e aumentar fatores de risco associados à demência, segundo um estudo publicado na revista Alzheimer's & Dementia: Diagnosis, Assessment & Disease Monitoring.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Monash University, da Universidade de São Paulo (USP) e da Deakin University, que analisaram dados alimentares e cognitivos de mais de 2.100 australianos de meia-idade e idosos sem diagnóstico de demência.
Os pesquisadores observaram que aumentos relativamente modestos no consumo de ultraprocessados estavam associados a pior desempenho em testes que medem atenção visual e velocidade de processamento mental.
Segundo Barbara Cardoso, autora principal do estudo e pesquisadora da Monash University, um aumento de 10% na participação desses alimentos na dieta diária equivale aproximadamente à inclusão de um pacote padrão de salgadinho industrializado na alimentação.
"Para cada aumento de 10% no consumo de alimentos ultraprocessados, observamos uma queda distinta e mensurável na capacidade de foco", afirmou Cardoso.
Os participantes obtinham, em média, 41% das calorias diárias a partir de ultraprocessados, percentual próximo à média nacional australiana, de 42%.
Um dos resultados que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi que a associação entre ultraprocessados e pior atenção apareceu mesmo entre pessoas que seguiam padrões alimentares considerados saudáveis, como a dieta mediterrânea.
Segundo os autores, isso sugere que o problema pode não estar apenas na ausência de alimentos nutritivos, mas também no próprio processo industrial utilizado na fabricação desses produtos.
Os ultraprocessados incluem itens como refrigerantes, salgadinhos embalados, biscoitos industrializados e refeições prontas.
"Os processos industriais frequentemente destroem a estrutura natural dos alimentos e introduzem substâncias potencialmente prejudiciais, como aditivos artificiais e compostos químicos utilizados no processamento", afirmou Cardoso.
O estudo também identificou uma associação entre maior consumo de ultraprocessados e o aumento de fatores de risco conhecidos para demência.
Entre eles estão a obesidade e a hipertensão arterial, condições consideradas modificáveis e que podem ser controladas para preservar a saúde cerebral ao longo da vida.
Os pesquisadores não encontraram uma relação direta entre ultraprocessados e perda de memória.
Ainda assim, destacam que a atenção é uma função cognitiva fundamental, servindo de base para processos como aprendizado, tomada de decisão e resolução de problemas.
Segundo os autores, as descobertas reforçam evidências de que a qualidade da alimentação deve ser analisada não apenas pelo perfil nutricional dos alimentos, mas também pelo grau de processamento industrial.
A equipe afirma que futuras pesquisas serão necessárias para entender os mecanismos biológicos envolvidos e determinar se a redução do consumo de ultraprocessados pode ajudar a preservar a função cognitiva ao longo do envelhecimento.