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Produção de leite entra no radar do El Niño — do Brasil à Austrália

Fenômeno climático deve provocar secas no Nordeste, irregularidade no Sudeste, chuvas no Sul e impactar produção de leite na Oceania, diz analista

Produção de leite: As secas também podem afetar o abastecimento de água para o rebanho e aumentar o risco de doenças relacionadas ao estresse térmico. (Freepik)

Produção de leite: As secas também podem afetar o abastecimento de água para o rebanho e aumentar o risco de doenças relacionadas ao estresse térmico. (Freepik)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 13 de junho de 2026 às 08h00.

A confirmação da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) confirmou a formação do El Niño, fenômeno climático, para este ano, com 63% de chance de um evento muito forte entre novembro e janeiro. Para o setor lácteo o período não poderia ser pior, uma vez que é justamente nesse período que se definem o sucesso do plantio, a qualidade da pastagem e, consequentemente, a produtividade do rebanho, diz Juliana Santiago, analista de mercado da StoneX.

“O período crítico coincide com o início e desenvolvimento da estação chuvosa nas principais regiões produtoras do Brasil, decisivo para o plantio e potencial produtivo”, diz a analista.

No ano passado, a produção de leite no Brasil alcançou um patamar histórico, com crescimento estimado em 7,2% em relação a 2024, somando 27 bilhões de litros.

Ao mesmo tempo, as importações seguiram em volume elevado. Apesar de uma queda de 4,2% na comparação com 2024, a balança comercial ainda registrou um déficit de cerca de 2 bilhões de litros equivalentes. O leite em pó continua sendo o principal produto importado, segundo o Centro de Inteligência do Leite (Cileite/Embrapa).

O El Niño é um fenômeno climático global caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, que altera os padrões de vento e a circulação atmosférica. Essas mudanças afetam diretamente o clima no Brasil e, consequentemente, a agricultura e o desempenho das safras.

O Nordeste, que vem ganhando participação na produção nacional, enfrenta riscos elevados com o El Niño. Estados como Bahia, Sergipe e Alagoas podem registrar seca entre fevereiro e março, período crítico para a oferta de pastagem.

“Mesmo com algum alívio em janeiro, a redução de chuvas nas semanas seguintes pode comprometer a alimentação do rebanho e reduzir a produção”, afirma Santiago.

Além do impacto direto sobre a pastagem, o fenômeno aumenta o estresse térmico nos animais e eleva os custos de produção, afetando alimentação, manejo e logística. Minas Gerais e Goiás, principais polos do Sudeste e Centro-Oeste, devem enfrentar precipitação irregular e temperaturas elevadas.

“Meses como novembro e dezembro podem ter chuvas abaixo da média, enquanto fevereiro traz volumes maiores, mas o calor contínuo gera estresse nos animais e pode reduzir a produtividade”, diz Santiago.

Essa fase coincide com a chamada “safra do leite” — período em que pastagens e silagens precisam garantir alimentação suficiente para o rebanho. Qualquer descompasso entre chuva e calor pode provocar quebras de safra regionais, mesmo sem refletir diretamente no total nacional.

No Sul do Brasil e em países vizinhos como Argentina e Uruguai, o cenário tende a ser mais favorável. Chuvas acima da média favorecem pastagens e silagem, ampliando a oferta de alimento. “Mesmo assim, excesso de umidade pode gerar problemas de manejo, sanidade do rebanho e logística de coleta do leite”, diz a analista.

No Brasil, os efeitos do El Niño tendem a se contrabalançar. “O excesso de chuvas no Sul pode compensar a seca no Nordeste, e fatores estruturais — como tecnologia, sistemas de confinamento e preços — têm maior impacto sobre a produção do que o clima isoladamente”, diz Santiago.

Para a safra 2026/27, uma leve retração na produção é esperada, mas mais por comparação com condições excepcionais da safra 2025/26 do que por influência direta do El Niño. Ainda assim, caso o fenômeno se confirme intenso e prolongado, os efeitos sobre preços e oferta podem ser significativos.

Leite na Austrália

Na Austrália, grande produtor global de leite, o El Niño tende a provocar condições secas e temperaturas elevadas, principalmente nas regiões leste e sudeste, onde se concentra a maior parte da produção.

“O calor e a escassez de chuvas reduzem o crescimento de pastagens naturais e o rendimento das culturas suplementares, como milho e aveia, aumentando os custos com alimentação do gado”, diz Santiago.

As secas também podem afetar o abastecimento de água para o rebanho e aumentar o risco de doenças relacionadas ao estresse térmico.

“Em anos de El Niño forte, produtores australianos precisam planejar a compra de ração e o manejo de água com antecedência, porque o impacto climático tende a ser severo e persistente”, afirma a analista.

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