Ciência

Maiores efeitos do jejum só aparecem após três dias sem comer, diz pesquisa

Usando tecnologia avançada, equipe rastreou cerca de três mil proteínas circulando na corrente sanguínea dos participantes, coletando amostras diárias antes, durante e após o jejum

Comida: jejum demora para funcionar, diz pesquisa (Tom Werner/Getty Images)

Comida: jejum demora para funcionar, diz pesquisa (Tom Werner/Getty Images)

Publicado em 18 de maio de 2026 às 04h32.

Pesquisadores da Queen Mary University of London e da Norwegian School of Sports Sciences monitoraram 12 voluntários saudáveis durante um jejum de sete dias (onde eles ingeriram apenas água) e descobriram que as mudanças biológicas mais significativas no corpo humano não ocorrem nas primeiras 48 horas. Elas começam no terceiro dia.

Os resultados foram publicados no periódico Nature Metabolism.

Usando tecnologia avançada de proteômica, a equipe rastreou cerca de três mil proteínas circulando na corrente sanguínea dos participantes, coletando amostras diárias antes, durante e após o jejum.

Mais de um terço dessas proteínas apresentou mudanças significativas, e as alterações foram notavelmente consistentes entre todos os voluntários, sugerindo que o corpo segue uma resposta altamente coordenada ao jejum prolongado.

"Pela primeira vez, conseguimos ver o que acontece em nível molecular em todo o corpo quando jejuamos", disse Claudia Langenberg, diretora do Instituto de Pesquisa em Saúde de Precisão da Queen Mary.

O que muda depois do terceiro dia

Nos primeiros dois a três dias, o corpo faz o esperado: para de usar glicose como combustível e começa a queimar gordura armazenada.

Os participantes perderam em média 5,7 quilogramas entre gordura e massa magra. Após três dias voltando a se alimentar, a maior parte da massa magra foi recuperada, enquanto parte da gordura permaneceu eliminada.

Mas foi a partir do terceiro dia que os pesquisadores encontraram o que chamaram de mudança de estado biológico.

As alterações mais expressivas envolveram proteínas ligadas à matriz extracelular — estrutura que dá suporte aos tecidos e órgãos, incluindo os neurônios do cérebro — e a vias relacionadas ao sistema imunológico, ao metabolismo e à inflamação.

"O jejum, quando feito com segurança, é uma intervenção eficaz para perda de peso. Dietas populares que incorporam o jejum afirmam ter benefícios além da perda de peso. Nossos resultados fornecem evidências para esses benefícios — mas eles só ficaram visíveis após três dias de restrição calórica total, mais tarde do que pensávamos anteriormente", disse Langenberg.

O que os cientistas esperam fazer com isso

A descoberta mais relevante para a medicina não é o jejum em si, mas o mapa molecular que ele produziu.

Ao identificar quais proteínas mudam, quando mudam e em quais vias biológicas atuam, os pesquisadores esperam desenvolver tratamentos que imitem os efeitos benéficos do jejum sem exigir que pacientes parem de comer por dias.

"Esperamos que essas descobertas possam fornecer informações sobre por que o jejum é benéfico em certos casos, para então desenvolver tratamentos que os pacientes sejam capazes de realizar", disse Maik Pietzner, co-líder do Grupo de Medicina Computacional do Berlin Institute of Health at Charité.

Os riscos que os cientistas também encontraram

O estudo não trata o jejum prolongado como solução universal.

Um estudo posterior de proteômica envolvendo jejum prolongado com apenas água encontrou evidências de aumento de inflamação, ativação plaquetária e alterações em vias relacionadas à coagulação sanguínea.

Os pesquisadores alertam que o jejum prolongado pode aumentar o risco de desidratação, desequilíbrios eletrolíticos, tontura, perda muscular e complicações em pessoas com condições de saúde preexistentes,como diabetes, transtornos alimentares ou doenças cardiovasculares.

Jejuns estendidos não devem ser tentados sem orientação médica.

LEIA TAMBÉM:

Acompanhe tudo sobre:Pesquisas científicasAlimentos

Mais de Ciência

Agência dos EUA confirma El Niño, que pode ser o maior desde 1950

Mega túnel de 14 km na Cordilheira dos Andes vai conectar o Oceano Atlântico ao Pacífico

Quer viajar de graça? Estudo oferece um mês nos Alpes italianos com despesas pagas

Raiz usada há milênios na China pode ser o segredo para o fim da calvície