Saúde bucal: estudos associam a boca ao risco de doenças e ao envelhecimento saudável (Freepik)
Redatora
Publicado em 28 de julho de 2026 às 08h29.
A saúde bucal pode influenciar muito mais do que dentes e gengivas. Estudos recentes vem associando bactérias presentes na cavidade oral e a inflamação causada pela doença periodontal a problemas como doenças cardíacas, diabetes, declínio cognitivo, artrite, doenças respiratórias e doenças hepáticas.
As evidências, destacadas pelo The Wall Street Journal, mostra como a ciência tem ampliado a compreensão sobre a relação entre a saúde bucal e o restante do organismo. As descobertas também impulsionam pesquisas sobre novas formas de prevenção, diagnóstico e tratamento, além de fortalecer a integração entre a odontologia e a medicina.
No centro das pesquisas está o microbioma oral, formado por centenas de espécies de bactérias, fungos e outros microrganismos que vivem naturalmente na boca.
Em condições normais, esse ecossistema permanece em equilíbrio. Porém, quando bactérias associadas à doença periodontal proliferam abaixo da linha da gengiva, elas desencadeiam uma inflamação crônica que pode destruir o tecido e o osso responsáveis pela sustentação dos dentes.
Pesquisas conduzidas pelo imunologista George Hajishengallis, da Universidade da Pensilvânia, investigam como essa inflamação pode ultrapassar a cavidade oral. Os estudos sugerem que pequenas quantidades de bactérias ou de seus produtos entram repetidamente na corrente sanguínea durante atividades comuns, como mastigar, escovar os dentes ou usar fio dental, sobretudo em pessoas com periodontite.
Esse processo pode favorecer inflamações em outras partes do organismo, embora a relação entre esses mecanismos e diferentes doenças sistêmicas ainda esteja sendo investigada.
Uma revisão publicada em 2023 na revista Biogerontology concluiu que a saúde bucal desempenha um papel importante na chamada "longevidade excepcional", em parte devido à sua relação com a inflamação crônica.
Outra pesquisa com adultos de 65 anos ou mais mostrou que doenças bucais, como periodontite, cáries e perda dentária, continuam entre as principais causas de anos vividos com incapacidade. Os resultados indicam que a saúde da boca pode influenciar não apenas a expectativa de vida, mas também sua qualidade durante o envelhecimento.
Dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos mostram que quase metade dos adultos com 30 anos ou mais apresenta algum grau de periodontite. Entre pessoas com 65 anos ou mais, essa proporção chega a quase 60%.
Os avanços no conhecimento sobre a doença periodontal também têm impulsionado uma nova geração de tratamentos voltados ao controle da resposta inflamatória do organismo.
Uma das abordagens em desenvolvimento é um medicamento experimental aplicado diretamente no tecido gengival. Desenvolvido por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, o tratamento reduziu a inflamação gengival por vários meses em um estudo inicial e deverá ser utilizado em conjunto com a limpeza periodontal tradicional, e não como substituto dela.
Outra iniciativa é uma vacina terapêutica desenvolvida pela empresa Denteric para pacientes com doença periodontal. Neste ano, a Food and Drug Administration (FDA) autorizou o início de um ensaio clínico de fase 2 nos Estados Unidos, de acordo com o NYT.
Além dessas iniciativas, pesquisadores investigam terapias capazes de bloquear enzimas que degradam o tecido gengival, estimular o encerramento natural da inflamação e retardar a perda óssea ao redor dos dentes.
As perspectivas para o diagnóstico também estão mudando. Um relatório publicado neste ano no Journal of Periodontology prevê que testes de saliva, sensores capazes de monitorar marcadores inflamatórios em tempo real e ferramentas de inteligência artificial poderão permitir diagnósticos mais precoces e tratamentos personalizados para doenças bucais.
Pesquisadores da ADA Forsyth, braço de pesquisa da Associação Americana de Odontologia, também utilizam inteligência artificial para analisar radiografias odontológicas e desenvolver novos materiais para restaurações.
Já uma revisão publicada em 2025 concluiu que modelos de aprendizado de máquina apresentam resultados promissores na identificação precoce de cáries e doenças periodontais em exames de imagem.
As evidências também têm fortalecido a defesa de um atendimento mais integrado entre médicos e dentistas. Especialistas afirmam que pacientes com diabetes ou maior risco de doenças cardiovasculares podem se beneficiar de avaliações periodontais mais frequentes, enquanto dentistas podem ajudar a identificar sinais de doenças sistêmicas e encaminhar pacientes para acompanhamento médico.
Outro estudo, publicado em 2023 e liderado pelo pesquisador Frank A. Scannapieco, da Universidade de Buffalo, encontrou uma associação entre consultas odontológicas preventivas antes da hospitalização e um risco 10% menor de um tipo de pneumonia adquirida no ambiente hospitalar.
Entre pacientes que receberam tratamento periodontal nos seis meses anteriores à internação, o risco foi 30% menor.
Pesquisadores também defendem uma maior integração entre os sistemas de saúde, com compartilhamento de prontuários médicos e odontológicos, para facilitar o acompanhamento dos pacientes por diferentes especialidades.