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Flávio resiste a crises, encosta em Lula e chega à eleição apostando no voto útil

Senador atravessou desgastes durante a campanha, ampliou apoios na direita e chega à véspera do primeiro turno em empate técnico com o presidente nas pesquisas Datafolha e Quaest

 (Vittor Sales/Flickr)

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André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 4 de outubro de 2026 às 07h00.

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Flávio Bolsonaro chega ao primeiro turno em empate técnico com Lula nas pesquisas Datafolha e Quaest divulgadas neste sábado, 3. O senador atravessou crises políticas durante a campanha sem perder sua posição como principal adversário do presidente, recebeu apoio mais explícito de lideranças da direita e intensificou na reta final o apelo pelo voto útil.


O senador Flávio Bolsonaro (PL) chega ao primeiro turno das eleições presidenciais neste domingo, 4, em situação semelhante àquela em que iniciou oficialmente a campanha há sete semanas: pressionado por crises políticas, mas competitivo nas pesquisas.

A diferença é que, agora, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro conseguiu reduzir a distância para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e consolidar apoios que estavam em dúvida no início da disputa.

Na véspera da votação, Lula e Flávio aparecem tecnicamente empatados nos levantamentos Datafolha e Quaest divulgados neste sábado.

No Datafolha, Lula tem 45% dos votos válidos e Flávio, 42%. Já na Quaest, o petista tem 46% contra 45% do filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro. 

A chegada competitiva à votação reforça uma característica que acompanhou a candidatura do senador desde a pré-campanha: a capacidade de atravessar sucessivos episódios de desgaste sem registrar, até agora, uma perda eleitoral que comprometesse sua posição na corrida presidencial.

Desde agosto, Flávio passou por crises envolvendo sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, divergências públicas com Michelle Bolsonaro, questionamentos sobre sua estrutura partidária, controvérsias durante a campanha e, mais recentemente, a revelação de que viajou em um jato executivo ligado a uma empresa da qual Vorcaro era sócio.

O resultado não significa que os episódios tenham sido irrelevantes para o eleitorado. Pesquisa Genial/Quaest divulgada antes do início oficial da campanha mostrou, por exemplo, que 65% dos entrevistados consideravam errado o pedido de recursos feito por Flávio a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

As pesquisas posteriores indicaram que esses desgastes não impediram o senador de permanecer próximo de Lula na disputa.

Essa resistência é um dos elementos observados por Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas do Eurasia Group. Em entrevista ao Eleições em Pauta, da EXAME, ele afirmou que Flávio não reproduz automaticamente a ligação de Jair Bolsonaro com os eleitores da direita, mas consegue permanecer competitivo em uma eleição marcada pelo desgaste das duas principais forças políticas.

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“O candidato Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, não é a mesma coisa que o presidente. O bolsonarismo saiu com algumas cicatrizes nas costas do último mandato de Jair Bolsonaro”, afirmou.

Para Garman, esse fenômeno ocorre em paralelo ao que classifica como uma “eleição do cansaço”, marcada por menor entusiasmo tanto no campo lulista quanto entre eleitores de direita.

“O que fica muito claro é que a eleição é muito diferente de quatro anos atrás. Não estamos vendo uma base mobilizada, entusiasmada com seu respectivo candidato, nem no campo lulista, nem no campo da direita”, disse.

De isolamento a apoio mais explícito da direita

Se as pesquisas mantiveram Flávio competitivo, o ambiente político ao redor de sua candidatura mudou desde agosto.

O senador começou a campanha sem conseguir atrair formalmente PP, União Brasil e Republicanos para sua chapa nacional.

Sem uma aliança com as grandes legendas de centro, escolheu o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice e iniciou a disputa com uma chapa puro-sangue, formada apenas por integrantes do PL.

A neutralidade formal dos partidos, no entanto, não impediu que lideranças dessas siglas se aproximassem da candidatura ao longo da campanha. O caso mais relevante ocorreu em São Paulo, maior colégio eleitoral do país.

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que no início do processo eleitoral buscava preservar autonomia em relação à corrida presidencial, passou a dividir atos e agendas com Flávio.

Em 7 de setembro, esteve ao lado do senador na Avenida Paulista e mobilizou sua militância para o evento. A aproximação continuou durante a campanha paulista. Antes de encerrar a campanha no Rio, o senador fez uma motociata ao lado do governador paulista.

A estratégia da campanha também mudou geograficamente. Depois de percorrer sete cidades do Nordeste na tentativa de reduzir a vantagem de Lula na região, o senador concentrou a reta final no Sudeste, onde estão São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, os três maiores colégios eleitorais do país.

Crises continuaram durante a campanha

A aproximação com aliados ocorreu ao mesmo tempo em que novos episódios adicionaram pressão à candidatura.

Em setembro, reportagem revelou que Flávio viajou, em janeiro de 2025, da Flórida, nos Estados Unidos, para Brasília em um jato executivo pertencente à Prime You, empresa que tinha Daniel Vorcaro como sócio. A aeronave seria utilizada meses depois pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

O advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio, também detinha participação no avião e estava no voo. O senador afirmou que viajou a convite de Tomaz e negou que o episódio tivesse relação com Vorcaro.

A revelação adicionou um novo capítulo à relação entre o candidato e o ex-banqueiro. Antes do início da campanha, mensagens e um áudio relacionados à busca de financiamento para o filme Dark Horse já haviam provocado desgaste político para o senador.

Flávio também enfrentou durante a campanha uma controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida.

A circulação de um boato de que o candidato pretendia retirar o título de padroeira do Brasil levou o senador a negar a afirmação e provocou uma manifestação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que negou participação na divulgação do conteúdo.

Os episódios se somaram às crises anteriores da pré-campanha, entre elas o conflito público com Michelle Bolsonaro. A ex-primeira-dama posteriormente se reconciliou politicamente com Flávio, declarou apoio à candidatura, mas não participou de nenhuma agenda ou ato com o enteado nas últimas semanas.

Apesar da sucessão de controvérsias, Flávio chega ao fim da campanha no mesmo lugar em que começou — como principal adversário de Lula —, mas agora com uma diferença menor nas pesquisas.

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Flávio intensifica apelo pelo voto útil

Com a diferença para Lula reduzida, Flávio transformou o voto útil em um dos principais discursos da última semana de campanha.

Desde segunda-feira, 29, o senador passou a pedir publicamente que eleitores de candidatos como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante) migrem para sua candidatura. O objetivo declarado é concentrar o eleitorado de oposição a Lula já no primeiro turno.

O discurso foi reforçado na quinta-feira, 1º, após o cancelamento do debate da TV Globo. Flávio fez uma transmissão ao vivo e pediu votos inclusive a eleitores que pretendiam se abster ou apoiar outros adversários de Lula.

“Se você estava pensando em não votar, compareça e vá votar no domingo. Se você estava pensando em votar em algum outro candidato, que são os meus concorrentes contra o Lula (...) a única candidatura que pode superar o Lula, seja no segundo turno, seja agora neste domingo no primeiro turno, é a de Flávio Bolsonaro”, afirmou.

Na sexta-feira, o senador voltou ao tema e pediu votos para tentar encerrar a eleição sem uma segunda rodada de votação. A possibilidade, porém, não é indicada como cenário mais provável pelas pesquisas, que continuam mostrando votos distribuídos entre outros candidatos.

A ofensiva pelo voto útil ocorre justamente onde a candidatura identificou espaço para crescer: entre eleitores de direita que rejeitam Lula, mas ainda estavam distribuídos entre outros nomes.

Flávio chega às urnas neste domingo, tentando transformar essa resiliência em voto útil e, pela primeira vez desde o início oficial da campanha, com Lula ao alcance da margem de erro nos principais levantamentos divulgados na véspera da eleição e sem a possibilidade do governo usar novos anúncios para mudar o cenário.


Perguntas frequentes

Como estão Lula e Flávio Bolsonaro nas pesquisas? +

Datafolha e Quaest divulgados neste sábado mostram Lula com 45% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro com 42%. Nos dois levantamentos, os candidatos estão tecnicamente empatados considerando a margem de erro.

O que é o voto útil defendido por Flávio Bolsonaro? +

Flávio pede que eleitores de outros candidatos de oposição a Lula concentrem seus votos em sua candidatura. Na reta final, o senador citou principalmente eleitores de Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury.

Tarcísio de Freitas apoia Flávio Bolsonaro? +

O governador paulista participou de atos ao lado de Flávio durante a campanha, incluindo a manifestação de 7 de Setembro na Avenida Paulista, e mobilizou sua militância para eventos com o candidato.

Qual é a relação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro? +

A relação ganhou repercussão por causa de mensagens e de negociações relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Em setembro, também foi revelado que Flávio viajou em 2025 em um jato de empresa que tinha Vorcaro como sócio. O senador afirmou que viajou a convite do advogado Willer Tomaz e negou relação da viagem com o ex-banqueiro.

Quando será o primeiro turno das eleições de 2026? +

O primeiro turno das eleições será realizado neste domingo, 4 de outubro.

Acompanhe tudo sobre:Eleições 2026Flávio Bolsonaro

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