Flávio Bolsonaro: filho do ex-presidente Jair Bolsonaro segue competitivo (Vittor Sales/-)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 16 de agosto de 2026 às 08h00.
O senador Flávio Bolsonaro (PL) chega ao início oficial da campanha presidencial neste domingo, 16, ainda competitivo nas pesquisas, apesar de uma sequência de desgastes políticos que atingiram sua pré-campanha nos últimos três meses.
O candidato fará seu primeiro ato em Copacabana, no Rio de Janeiro, estado onde construiu sua trajetória política, em uma tentativa de largar a campanha nacional a partir de seu principal reduto eleitoral.
A manutenção do senador no primeiro pelotão da disputa ocorre depois de episódios que levaram aliados e adversários a questionar o impacto das crises sobre sua candidatura. Entre eles estão a divulgação de mensagens e de um áudio com Daniel Vorcaro, controlador do extinto Banco Master, as explicações sobre encontros entre os dois e o desgaste público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Uma pesquisa Genial/Quaest mostrou que 65% dos entrevistados consideraram errado o pedido de recursos feito por Flávio a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse.
A crise familiar também ganhou dimensão eleitoral. Em julho, levantamento Genial/Quaest mostrou que, entre os entrevistados que conheciam a disputa entre Flávio e Michelle, 42% concordavam mais com a ex-primeira-dama, ante 18% que ficavam ao lado do senador. Os dois deram sinais de reconciliação, e Michelle participou por vídeo da convenção do PL e declarou apoio à candidatura, além de ter gravado vídeos para a campanha nesta semana.
Apesar desses episódios, Flávio não sofreu até agora uma perda eleitoral capaz de ameaçar sua posição como principal adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A pesquisa Quaest, divulgada na sexta-feira, 14, mostrou Lula com 38% e Flávio com 31% no primeiro turno, diferença de sete pontos percentuais. Em uma simulação de segundo turno, os dois aparecem em empate técnico, com menor vantagem do petista dos últimos meses.
Outros levantamentos registraram oscilações maiores. No início de agosto, a pesquisa BTG/Nexus apontou avanço de Flávio de 33% para 37%, ante 41% de Lula, empate técnico dentro da margem de erro. O crescimento apareceu inclusive em segmentos nos quais o petista historicamente registra vantagem, como eleitores de menor renda e moradores do Nordeste. Nesse levantamento, Flávio passou de 24% para 34% na região, enquanto Lula caiu de 57% para 48%.
A resiliência eleitoral contrasta com uma dificuldade política que acompanhou Flávio desde o lançamento da pré-candidatura: a incapacidade de atrair formalmente grandes partidos de centro para sua chapa. PP, União Brasil e Republicanos decidiram não aderir nacionalmente à candidatura, e o senador terminou com uma chapa puro-sangue, expressão usada para uma composição entre candidatos da mesma legenda, ao escolher o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) para vice.
O resultado do isolamento aparece diretamente na propaganda eleitoral: uma projeção feita a pedido da EXAME estima que Lula terá 27% mais tempo de rádio e televisão do que Flávio no primeiro turno.A conta atribui ao petista 46,35% do horário destinado aos presidenciáveis e 35,77% ao senador. A vantagem decorre da aliança do PT com PSB, PDT e a federação PSOL-Rede, enquanto o PL não conseguiu agregar outro partido à chapa presidencial.
A neutralidade das siglas de centro foi também resultado de uma articulação do governo petista para impedir que esses partidos reforçassem a candidatura bolsonarista. A decisão permite que diretórios e lideranças estaduais façam escolhas próprias.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), por exemplo, declarou apoio à reeleição de Lula após a legenda optar pela neutralidade nacional.
Para a campanha de Flávio, a aposta é que o tamanho do PL e a força eleitoral do bolsonarismo sejam suficientes para levá-lo ao segundo turno. A avaliação de aliados é que, em um segundo momento, com os dois com o tempo de TV dividido, o senador poderá vencer a eleição.
O desafio paralelo é ampliar a candidatura para além do eleitor já identificado com o ex-presidente Jair Bolsonaro. Pesquisas mostram que Flávio preserva índices elevados entre bolsonaristas e eleitores de direita, mas enfrenta mais dificuldades entre independentes.
As mulheres e o Nordeste também permanecem como áreas prioritárias. Levantamentos publicados pela EXAME ao longo do ano registraram vantagem recorrente de Lula entre o eleitorado feminino. Segundo pesquisa Futura divulgada em 11 de agosto, a vantagem do petista entre as mulheres é de 13 pontos percentuais.
Na reta final, antes do início da campanha, Flávio também enfrentou uma turbulência burocrática. Na quinta-feira, 13, o sistema da Justiça Eleitoral passou a indicar uma filiação do senador ao Partido Missão, situação que impediu temporariamente o processamento de seu registro pelo PL.
O ministro Nunes Marques, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), anulou a filiação, restabeleceu o vínculo com o PL e determinou que a Polícia Federal investigue o episódio.
No mesmo dia, Flávio apresentou seu plano de governo, documento de 76 páginas que reúne propostas de redução do número de ministérios, revisão de pontos da reforma tributária, medidas de segurança pública e mudanças relacionadas ao Supremo Tribunal Federal.
Superadas as convenções, a definição do vice e a disputa sobre o registro, a campanha entra agora em uma nova fase: transformar a resistência demonstrada nas pesquisas em crescimento fora do eleitorado já associado ao bolsonarismo.
A largada em Copacabana ocorre, assim, com Flávio consolidado como principal rival de Lula, mas ainda diante do desafio de ampliar sua base eleitoral e compensar uma estrutura partidária menor que a do presidente.