Brasil

Análise: Crise no STF não lota as ruas, mas ocupará campanhas de Lula e Flávio

Ato na Paulista teve público menor que nos últimos 7 de Setembro, enquanto crise envolvendo Moraes avança para o centro das estratégias de Flávio e Lula na reta final da eleição

Eleições: manifestação na Paulista não repete públicos dos últimos anos, mas crise no STF vai tomar campanhas na reta final (André Martins/EXAME)

Eleições: manifestação na Paulista não repete públicos dos últimos anos, mas crise no STF vai tomar campanhas na reta final (André Martins/EXAME)

Publicado em 7 de setembro de 2026 às 20h45.

Última atualização em 8 de setembro de 2026 às 06h58.

Priorizar nos meus resultados Google

O presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, sentiu-se fortalecido para, neste 7 de Setembro, dobrar sua aposta na retórica de confronto com o Supremo Tribunal Federal (STF) após a eclosão de uma crise sem precedentes na Corte, decorrente do conflito público entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes e do escândalo da exposição dos vínculos de Moraes com Daniel Vorcaro. Pela esquerda, Lula tem ensaiado uma resposta ao defender uma reforma do Judiciário e buscar descolar sua imagem do ministro do STF sob escrutínio.

Depois de um início de campanha em que evitou colocar a Corte no centro de seu discurso político, Flávio Bolsonaro aproveitou a crise para pedir a saída do ministro e transformar o tema em uma das bandeiras de sua candidatura à Presidência. O antagonismo com Moraes precede o escândalo envolvendo o nome do ministro e tem sua raiz no fato de o ministro ser visto como pivô da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.

Os ataques a Moraes mobilizaram a militância, que foi à Avenida Paulista neste 7 de Setembro, mas não foram suficientes para produzir uma manifestação do tamanho das registradas nos últimos anos. O fato é que pesa sobre Flávio o fardo de, como Moraes, também ter uma relação velada com Vorcaro — conexão que, em seu caso, rendeu um patrocínio ao filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, de ao menos R$ 65 milhões. A falta de esclarecimentos sobre como os aportes de Vorcaro foram gastos e a suspeita de que possam ter sido desviados subtraem o capital moral de Flávio.

Na Avenida Paulista, nesta segunda-feira, cartazes contra Moraes apareceram em diferentes pontos, ao lado de um pixuleco, nome dado ao boneco inflável gigante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vestido de presidiário. Outros símbolos do bolsonarismo, como bandeiras dos Estados Unidos e Israel, e fotos e bonecos de Bolsonaro, também estiveram presentes.

No palanque, pedidos pela saída do ministro se repetiram ao longo da tarde.

O pastor Silas Malafaia, que organizou o evento, pediu que o presidente do STF, Edson Fachin, afastasse o magistrado. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) afirmou que a eleição de novos senadores permitirá retirar Moraes do STF. Até o governador paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos), cobrou uma reação do Senado. Flávio foi além: disse que, se eleito, indicará cinco ministros para o Supremo porque Moraes "vai cair".

Flávio reúne aliados na Paulista para ampliar ofensiva a Moraes (André Martins/EXAME)

A manifestação reuniu 28,5 mil pessoas no horário de pico, segundo estimativa do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e da More in Common divulgada após o ato. Com margem de erro de 12%, a estimativa varia entre 25,1 mil e 32 mil participantes. O número ficou abaixo dos 42,2 mil participantes estimados no 7 de Setembro de 2025 e dos 45,4 mil de 2024 pela mesma metodologia. Em 2022, o público também foi maior: eram 32,7 mil pessoas.

A comparação também precisa considerar as condições desta segunda-feira. A tarde foi fria em São Paulo, com temperatura próxima de 15°C e garoa fina em alguns momentos. Ainda assim, os números colocam um limite factual na narrativa repetida pelos aliados ao longo da tarde de que o 7 de Setembro poderia representar uma “virada” para Flávio com a força de mobilização.

O número contrasta com a estimativa de 70 mil pessoas no desfile de 7 de Setembro da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, no qual o presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, foi ovacionado. Ao contrário do ato da Paulista, porém, não houve medição de público por uma fonte independente.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e autoridades no Desfile de 7 de Setembro na Esplanada dos Ministérios, em Brasília (Ivan Martínez-Vargas/EXAME)

No 7 de Setembro de Lula, o assunto Alexandre de Moraes foi uma ausência, seja porque compareceu ao evento apenas o presidente do STF, Edson Fachin, seja porque o público presente não entoou seu nome, nem para criticar, nem para defender. A multidão que foi ver a parada cívico-militar de Lula não ouviu o presidente falar, visto que tradicionalmente o chefe de Estado não costuma discursar no evento, mas viu um desfile que destacava a defesa da soberania nacional em meio ao tarifaço imposto ao Brasil pelo governo americano.

Aparte de suas diferenças, Flávio Bolsonaro e Lula chegam ao feriado nacional, a 27 dias do primeiro turno, numericamente empatados na simulação de segundo turno da Quaest, com 41% das intenções de voto cada. A crise no STF dá a Flávio um tema para tentar mobilizar sua base e atacar Lula, mas, ao menos nesta segunda, não levou à Paulista um público maior do que aquele reunido pelo bolsonarismo nos últimos 7 de Setembro.

Já para Lula, os problemas de Moraes trazem o desafio do presidente se mostrar independente da imagem do ministro, mas trazem também o efeito colateral de deixar de lado, ao menos por enquanto, os vazamentos sobre investigações da PF acerca de seu filho Fábio Luís, o Lulinha, e de seu ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, estes, sim, intrinsecamente ligados ao petista.

O presidente Lula já se manifestou mais de uma vez sobre o episódio do STF, mas tem evitado citar Moraes nominalmente. Ele defendeu que os fatos envolvendo integrantes do Supremo sejam esclarecidos.

Do outro lado, a oposição bolsonarista partiu para cima do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que, nesta segunda-feira, compareceu ao desfile em Brasília e sentou-se ao lado da primeira-dama Janja. Alcolumbre, que foi eleito presidente do Senado no ano passado com o apoio de bolsonaristas, é aliado de Moraes e já deu sinais de que vai barrar quaisquer pedidos de impeachment de ministros do STF.

Durante discurso na Paulista, o deputado Nikolas Ferreira afirmou que realizará no próximo domingo uma manifestação no Amapá, reduto político de Alcolumbre, para pressionar o presidente do Congresso pela instalação do processo de impedimento de Moraes.

A disputa também passou a envolver André Mendonça. Aliados de Flávio saíram em defesa do ministro depois da divulgação do relatório da Polícia Federal, enquanto o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a nulidade da apuração.

Moraes passa para o centro da campanha

A importância política dos atos neste 7 de Setembro está menos no tamanho das manifestações e mais no caminho escolhido pela campanha para as próximas quatro semanas.

Flávio começou sua pré-campanha com uma estratégia diferente. Em vez de fazer do confronto com o STF um eixo central, buscou ampliar o discurso para temas como economia, segurança pública e custo de vida. Neste 7 de Setembro, a prioridade mudou.

As revelações sobre as relações de Vorcaro com Moraes abriram espaço para essa ofensiva. Durante o ato, praticamente todos os principais aliados passaram pelo assunto. O próprio Flávio estabeleceu uma ligação direta entre a eleição presidencial e a composição futura do Supremo.

“Nós não vamos permitir que Lula indique mais quatro ministros. Eu vou indicar cinco ministros porque Alexandre de Moraes vai cair”, afirmou.

O episódio, porém, tem uma característica particular para Flávio: o mesmo personagem que alimenta os ataques contra Moraes também representa um problema para sua campanha. Vorcaro aparece na controvérsia envolvendo o financiamento de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro que já provocou desgaste para o senador.

Um estudo da Datrix obtido em primeira mão pela EXAME ajuda a mostrar esse movimento nas redes. No auge das revelações envolvendo Moraes, o saldo de sentimento relacionado a Flávio ficou menos negativo, ao passar de -40 para -22,2. Nos dias seguintes, porém, chegou a -55,7, com o Caso Master novamente associado ao senador.

As duas cenas deste 7 de Setembro — Flávio cercado por aliados que pediam a saída de Moraes na Paulista e Lula ao lado dos chefes do STF e do Congresso em Brasília — mostram que a crise da Corte deixou de ser apenas uma disputa institucional e entrou na agenda política da eleição.

Isso não significa que o assunto terá força para decidir votos ou ampliar a base de Flávio. O público desta segunda, inclusive, recomenda cautela nessa conclusão. Mas, a menos de um mês do primeiro turno, governo e oposição já passaram a responder politicamente a uma crise que envolve personagens centrais das instituições brasileiras.

Acompanhe tudo sobre:Eleições 2026Flávio BolsonaroLuiz Inácio Lula da SilvaExclusivo

Mais de Brasil

TV Globo confirma datas de sabatina e debate entre Lula e Flávio Bolsonaro no 2º turno

Fim da escala 6x1: o que Lula e Flávio Bolsonaro pensam sobre o assunto

Nunes Marques diz que vai analisar revisão criminal de Bolsonaro após segundo turno

Lula diz que campanha do 1º turno foi 'aquém da capacidade', faz vídeos em selfie e investe em redes