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A nova vida do papel: a indústria está preparada para substituir o plástico?

Klabin, Suzano e Tetra Pak contam à EXAME sobre os esforços de inovação pelo papel mais resistente, enquanto Braskem trabalha pelo plástico mais sustentável

O debate sobre papel e plástico vai além dos materiais em si (Leandro Fonseca/Exame)

O debate sobre papel e plástico vai além dos materiais em si (Leandro Fonseca/Exame)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 17 de abril de 2026 às 06h00.

Última atualização em 17 de abril de 2026 às 09h34.

Por anos, o plástico dominou o setor de embalagens com uma proposta difícil de bater: barato, leve, versátil e capaz de proteger quase qualquer produto. O papel, por sua vez, estava longe de ser o protagonista desta história.

Mas o aumento da pressão ambiental sobre o plástico de uso único mudou o jogo, e as grandes empresas de embalagens passaram a enxergar no papel uma oportunidade de negócio e de posicionamento sustentável. A questão agora é saber até onde essa substituição vai — e onde ela simplesmente não pode acontecer.

A Klabin, uma das maiores produtoras de papéis e embalagens do Brasil, é direta ao avaliar o cenário: o papel deixou de ser coadjuvante. "O papel é um protagonista relevante na transição para embalagens mais sustentáveis, especialmente em aplicações hoje atendidas por plásticos de uso único", afirma José Soares, diretor comercial de Papéis da empresa.

O argumento tem respaldo técnico e ambiental. O papel vem de florestas plantadas e certificadas, é reciclável e biodegradável, e conta com uma cadeia de reciclagem já estruturada no Brasil — com valor econômico para o material, ampla coleta e forte demanda da indústria. "Analisando pelo viés de sustentabilidade e circularidade, o papel também oferece vantagens relevantes", diz o diretor.

De acordo com o Soares, as facilidades sustentáveis tem levado às empresas a cada vez mais estudos sobre a utilização do papel em embalagens, especialmente em alimentos, bens de consumo e no e-commerce, sem abrir mão da segurança, da eficiência logística e da experiência do consumidor.

Na Suzano, maior produtora mundial de celulose e uma das principais fabricantes de papéis da América Latina, a leitura é semelhante. "A crescente preocupação global em substituir materiais de origem fóssil por alternativas renováveis abre espaço para novos mercados e amplia nosso portfólio", diz Guilherme Dabdab, gerente-executivo de Estratégia e Marketing da Unidade de Papel e Embalagens da companhia.

Dabdab explica que a área de inovação da companhia trabalha para desenvolver papéis funcionais com barreiras biodegradáveis para substituição ao plástico de uso único — com aplicações que vão desde o acondicionamento de alimentos para comercialização até restaurantes e delivery.

A empresa atende mais de 2 bilhões de pessoas com seus produtos. No portfólio, nomes como Loop (para canudos), Greenpack (embalagens flexíveis), Bluecup Bio (copos com revestimento biodegradável) e Greenbag (sacolas), todos a base de papel, traduzem essa estratégia em produtos concretos.

Quando o plástico ainda é essencial

A Tetra Pak ocupa um lugar particular nesse debate: é uma empresa que usa papel como principal matéria-prima, mas que não prescinde do plástico — e não tem intenção de eliminar esse material tão cedo.

As embalagens longa vida da companhia são compostas por cerca de 70% de papel-cartão, 25% de plástico e 5% de alumínio. Cada camada tem uma função: o papel dá estrutura, o plástico protege contra umidade, e o alumínio bloqueia luz e oxigênio. "As diferentes camadas de materiais são responsáveis por proteger o alimento da luz, oxigênio e umidade até o momento do consumo", explica Luis Ramirez, diretor da Área de Portfólio de Embalagens da Tetra Pak Brasil.

A empresa investe 100 milhões de euros por ano globalmente em novas tecnologias de embalagem, com foco na sustentabilidade. Entre os avanços recentes, destaca-se a tecnologia ReAl, desenvolvida em parceria com a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) no Brasil, que permite separar o plástico do alumínio no momento da reciclagem da embalagem longa vida — possibilitando que o alumínio retorne à produção das caixinhas. "Isso nos leva a uma economia circular mais completa", afirma Ramirez.

A empresa também oferece embalagens com até 91% de conteúdo renovável, utilizando plástico derivado da cana-de-açúcar. As caixinhas são certificadas pela Carbon Trust, Bonsucro, FS e Aluminium Stewardship Initiative.

O que o papel já consegue — e como indústrias inovam

Nos últimos anos, o avanço técnico do papel foi significativo. A Klabin desenvolveu o Klamulti, papel-cartão para embalagens do tipo multipack — como packs de bebidas — que incorpora celulose microfibrilada (MFC) em sua composição. A tecnologia fortalece a estrutura do papel ao aumentar a ligação entre as fibras, permitindo reduzir a gramatura sem perder resistência mecânica. "Embalagens mais leves, robustas e eficientes, capazes de atender a aplicações exigentes com menor uso de matéria-prima", descreve Soares.

Para aplicações em alimentos, a empresa conta com cartões resistentes à gordura e à umidade, como Klafold GB e Klafold FZ, além de copos de papel como KlaCup Bio e Advance Cup Bio, que substituem versões plásticas. Esses materiais são recicláveis, biodegradáveis e compostáveis.

O Eukaliner é outro exemplo: primeiro papel kraftliner do mundo produzido 100% com fibra de eucalipto, ele permite reduzir a gramatura da embalagem mantendo a resistência — gerando ganhos relevantes de eficiência na conversão e menor uso de recursos naturais.

A Suzano, por sua vez, destaca o Bluecup Bio — feito com fibras virgens branqueadas de eucalipto, com alta colagem e desempenho para acondicionar bebidas quentes ou frias —, e o Greenpack, com diferentes barreiras funcionais, termoselabilidade, resistência à gordura e ao vapor de água, aprovado para contato com alimentos.

Onde o papel ainda tropeça

Apesar dos avanços, as limitações existem — e as empresas do setor são honestas ao reconhecê-las.
"Naturalmente, ainda existem desafios a depender do produto e de sua aplicação, especialmente relacionados à escala e aos custos, às propriedades técnicas e à adaptação do mercado às inovações necessárias", reconhece Dabdab, da Suzano.

Em aplicações que demandam alta barreira à umidade e à gordura, o papel ainda precisa de revestimentos específicos para funcionar. E, em alguns casos, o plástico simplesmente sai mais barato.

Soares, da Klabin, resume o dilema com precisão: "Ainda assim, o papel se consolida como uma alternativa cada vez mais robusta e estratégica para o futuro das embalagens, levando vantagem principalmente em relação à sustentabilidade", conta.

Como o plástico se reinventa

Enquanto o setor papeleiro celebra o avanço, a Braskem — maior petroquímica das Américas — pede cautela com a narrativa da substituição pura e simples.

Yuri Tomina, líder de Economia Circular da Braskem na América do Sul, aponta para um estudo recente da Universidade de Sheffield, que demonstrou que, em 15 de 16 aplicações avaliadas — incluindo embalagens, setor automotivo e construção —, o uso do plástico resulta em emissões menores ao longo de todo o ciclo de vida, em comparação a materiais alternativos como papel, vidro ou metal.

Essa economia de emissões pode chegar a até 90%, impulsionada pela menor intensidade energética durante a produção do plástico e pela sua eficiência de peso no transporte.

"A simples substituição de materiais, sem uma Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) aprofundada, pode gerar o efeito inverso e aumentar as emissões globais de gases de efeito estufa", alerta Tomina.

O executivo também destaca o papel social e econômico do plástico na cadeia de reciclagem. Estudos da própria Braskem indicam que, apesar de representar apenas cerca de 30% do volume triado pelas cooperativas, o plástico responde por cerca de 60% da geração de renda para os cooperados.

Em outros ramos, como o campo médico, o argumento é ainda mais contundente: "Na medicina, o plástico protagonizou uma revolução por ser um material resistente, esterilizável, leve e barato, estando presente em equipamentos de segurança dos profissionais, em máscaras, luvas, seringas, bolsas de sangue, cápsulas, comprimidos e muito mais", conta.

A resposta para equilibrar as limitações do papel e o impacto negativo do plástico é a circularidade. A empresa produz desde 2010 o polietileno "I'm green bio-based", feito a partir do etanol da cana-de-açúcar, e afirma que a produção de uma tonelada da resina renovável resulta na absorção líquida de 2,12 toneladas de CO₂ da atmosfera.

Desde o lançamento, já teriam sido absorvidas mais de 4,6 milhões de toneladas de carbono. Além disso, o ecossistema Wenew reúne resinas recicladas pós-consumo capazes de reduzir em até 48% as emissões de carbono em comparação com resinas virgens.

"Parar de produzir não resolve o desafio climático global; o que transforma a realidade é produzir e consumir de forma cada vez mais eficiente e circular", defende Tomina.

Plástico ou papel? Equilíbrio é a resposta

A pergunta que paira sobre toda essa discussão é objetiva: vai haver substituição do plástico pelo papel, ou os dois materiais vão continuar convivendo?

Para a Suzano, a resposta é nuançada. "A tendência apontada pelos materiais é a de substituição gradual em algumas aplicações onde já existe viabilidade técnica e econômica, e não de eliminação completa do plástico no curto prazo", avalia Dabdab. Em categorias como copos, sacolas e algumas embalagens flexíveis, a migração para materiais renováveis já é realidade — e tende a avançar mais rápido. Em aplicações mais complexas, que exigem barreiras robustas ou alta resistência mecânica, a convivência entre materiais deve persistir.

A Klabin tem uma visão parecida: o papel ganha espaço como estrutura principal da embalagem, mas "em algumas aplicações, outros materiais ainda podem cumprir funções pontuais, como camadas de barreira".

Ramirez, da Tetra Pak, reforça esse ponto: na embalagem longa vida, o plástico cumpre uma função que o papel, sozinho, ainda não consegue desempenhar. A empresa aposta em plástico de base vegetal — derivado da cana-de-açúcar — como forma de manter a funcionalidade reduzindo o impacto ambiental, em vez de tentar eliminar o material.

O que está em jogo

O debate sobre papel e plástico vai além dos materiais em si. Envolve cadeias produtivas, postos de trabalho, infraestrutura de reciclagem, regulação e, no fim das contas, o comportamento do consumidor.

No Brasil, um marco regulatório recente — o Decreto Federal nº 12.688/2025 — instituiu a logística reversa e a obrigatoriedade de conteúdo reciclado pós-consumo nas embalagens plásticas. Tomina, da Braskem, recebeu o decreto com entusiasmo: "Esse marco regulatório é fundamental porque consolida a responsabilidade compartilhada na cadeia e impulsiona a recuperação de resíduos e o uso de conteúdo reciclado", afirma.

Para a Suzano, o ambiente regulatório ainda precisa avançar. Dabdab defende que o Brasil siga o exemplo europeu em marcos que "estimulem e comprometam a indústria na busca por soluções mais sustentáveis, criando um ambiente favorável para a inovação, a escala e a transição efetiva para alternativas de menor impacto ambiental."

O consenso entre os gigantes da indústria ouvidos na reportagem é que não haverá um vencedor absoluto. O plástico não vai desaparecer, o papel não vai dominar tudo — e a solução mais inteligente, ambiental e economicamente, provavelmente está em fazer cada material trabalhar onde ele é mais eficiente.

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