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Dá para reciclar as figurinhas do álbum da Copa do Mundo? Essas empresas podem ajudar

Cada pacote aberto gera dois resíduos de difícil reciclagem. Conversamos com as empresas que querem mudar este cenário, produzindo papel toalha e papel cartão com o que iria para o lixo

Empresas trabalham para reduzir o impacto dos pacotinhos e dos liners, papel com silicone que cobre o verso das figurinhas (BRUNO FAHY / BELGA MAG / Belga / AFP/Getty Images)

Empresas trabalham para reduzir o impacto dos pacotinhos e dos liners, papel com silicone que cobre o verso das figurinhas (BRUNO FAHY / BELGA MAG / Belga / AFP/Getty Images)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 15 de maio de 2026 às 15h08.

Última atualização em 22 de maio de 2026 às 11h48.

A Copa do Mundo de 2026 já começou — pelo menos nos bolsos e nas compras de milhões de brasileiros. Desde 1º de maio, os álbuns de figurinhas da Panini estão nas bancas de jornais, prateleiras de livrarias e supermercados e até mesmo em lotéricas.

O fervor por completar a coleção já se traduz em números impressionantes: só entre 30 de abril e 6 de maio, primeira semana das vendas dos álbuns, a plataforma de delivery iFood comercializou mais de 563 mil pacotes de figurinhas e 7 mil álbuns, segundo dados da plataforma.

Na Copa do Mundo de 2022, a plataforma havia comercializado 252 mil álbuns e pacotes no total — ou seja, em uma semana, o Brasil já superou com folga o que o iFood vendeu em todo o mundial anterior.

O torneio começa em 11 de junho e termina em 19 de julho, e pela primeira vez na história reúne 48 seleções — a maior Copa já realizada, sediada nos Estados Unidos, Canadá e México. Com mais países, mais jogadores, mais páginas no álbum. E, inevitavelmente, mais resíduo.

É aí que a conversa sobre sustentabilidade entra — e ela é mais complexa do que parece na hora de abrir o pacotinho.

Dois resíduos, dois destinos

Quando uma criança abre um pacote de figurinhas, está produzindo dois tipos de resíduo. O primeiro é o envelope em si: uma embalagem multicamada, com papel, tinta, verniz e, em alguns casos, camadas plásticas ou de alumínio. Esse material pode até ser encaminhado à coleta seletiva, mas raramente sai dela como papel reciclado.

A mistura de camadas exige separação industrial antes de qualquer reaproveitamento — o que faz com que boa parte desses envelopes termine como rejeito na triagem e siga para aterros sanitários. Não há, hoje, um sistema amplo e público de reciclagem voltado especificamente a esse tipo de embalagem no Brasil.

O segundo resíduo é mais discreto e mais problemático: o verso da figurinha — aquele pedaço de papel que sobra depois de destacar a figurinha e colá-la na página. Ele tem um nome técnico: liner. E ele é o grande vilão silencioso do álbum.

O liner é um papel siliconado que serve de base para o adesivo. Por causa dessa camada de silicone, ele não entra na reciclagem convencional — as fibras não se separam adequadamente durante o processo padrão de reciclagem de papel, o que faz com que o material seja classificado como rejeito nas triagens comuns e acabe em aterro. Sem tratamento especializado, é lixo.

Pacotes de figurinhas para cards colecionáveis ​​com jogadores de futebol da Copa do Mundo FIFA de 2026, que será sediada pelos Estados Unidos, Canadá e México, são mostrados na fábrica do Grupo Panini em Modena, norte da Itália, em 28 de abril de 2026. O Grupo Panini detém os direitos exclusivos dos cards e figurinhas colecionáveis ​​oficiais da Copa do Mundo FIFA de 2026.

Figurinhas da Copa: empresas se uniram para reciclar o liner, principal resíduo da coleção (MARCO BERTORELLO / AFP via Getty Images)

A cadeia que existe — mas ainda não chegou a todos

Existe, porém, uma solução. E ela nasceu, curiosamente, de uma coleção de figurinhas.

Em 2022, Sérgio Talocchi, que atua como gerente de sustentabilidade da fabricante de cosméticos Natura, teve uma ideia simples: recolher os liners das figurinhas da Copa do Mundo no seu condomínio e na escola dos filhos, e encaminhá-los para a Polpel, empresa especializada na reciclagem desse material, que já conhecia por conta de uma parceria anterior com a Natura. A iniciativa pessoal virou campanha, que se espalhou pelo Brasil.

Empresas como a Avery Dennison — maior fabricante de soluções autoadesivas do mundo — entraram no projeto. E tudo isso aconteceu sem uma campanha de marketing estruturada. Agora, para 2026, a Polpel e a Avery Dennison se anteciparam e formalizaram a parceria para ampliar essa logística reversa durante o mundial.

A Polpel é, segundo entrevista à EXAME, a única operadora na América Latina com tecnologia para reciclar liner de autoadesivo com base na lógica da economia circular. O material coletado passa por um processo proprietário que separa a celulose do silicone. A celulose resultante — certificada — é então comercializada para fabricantes de papel.

No caso dos liners das figurinhas da Copa de 2026, o destino é a MD Papéis, que utiliza essa matéria-prima na produção de papel cartão.

"O primeiro desafio da reciclagem vem da vontade de fazer, da responsabilidade das pessoas e das empresas em dar um destino adequado aos materiais após o consumo", conta Ailton Alves, diretor-executivo da Polpel. "Precisamos tirar da cabeça o conceito de que material reciclável precisa ser mais barato do que o produzido com material virgem. Esse é um grande desafio para a cadeia como um todo."

Do lado da Avery Dennison, a iniciativa tem nome: GoleADa. A campanha está vinculada ao programa AD Circular, lançado no Brasil em 2019, que usa processos inovadores para transformar resíduos de liner em novos produtos — como em papel toalha, por exemplo. É a economia circular funcionando na prática: o verso da figurinha que iria para o aterro sanitário volta à cadeia produtiva como outro produto de papel.

"Reconhecemos que a Copa do Mundo possui uma visibilidade global e alcança pessoas de todas as gerações", diz Cecilia Mazza, gerente de sustentabilidade para a América Latina da Avery Dennison. "Acreditamos que esta é uma oportunidade estratégica para promover a conscientização e educar o público sobre a relevância do engajamento individual."

Para Mazza, esse trabalho parte de um princípio claro. "Para promover a economia circular devemos reduzir o desperdício e a poluição, fazer circular os materiais e regenerar a natureza", explica.

O que dizem os números

A escala do problema pode ser medida pelo que foi coletado quando houve esforço organizado. Em 2023, um ano após a Copa do Mundo do Catar, a campanha chegou a 244,5 kg de liners, ou quase 1 milhão de versos de figurinhas. O programa AD Circular como um todo já processou mais de 6 mil toneladas de resíduos de liner desde sua criação.

Para ter dimensão: o liner é muito leve. Um quilo pode representar milhares de figurinhas. O volume gerado por uma Copa com 48 seleções, vendida também em plataformas digitais como nunca antes, tem potencial de escala gigantesca — e a maior parte desse resíduo, sem um ponto de coleta específico, vai para o aterro.

O que o consumidor pode fazer

A lógica da campanha é simples: guardar os liners das figurinhas em vez de jogá-los fora. Empresas, colégios, condomínios, associações e cooperativas podem montar pontos de coleta e encaminhar o material à Polpel. O processo de logística reversa já está estruturado em vários estados brasileiros.

"Basta colocar um ponto de coleta nas suas empresas e organizações e estimular seus colaboradores a depositar os liners das figurinhas dos filhos — e talvez dos álbuns deles mesmos", sugere Alves. "Depois é só encaminhar para a Polpel para ser reciclado."

O início da Copa do Mundo no próximo mês marca o maior evento de futebol da história. A pergunta que fica é se o Brasil vai aproveitar o momento também para construir algo maior no campo da reciclagem — ou se, no fim do torneio, vão sobrar quilos e quilos de liners nos aterros sanitários.

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