Artemis II: pausa de mais de 50 anos nas missões foi causada por fatores políticos e econômicos (SM/PA Images /Getty Images)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 1 de abril de 2026 às 19h36.
Última atualização em 1 de abril de 2026 às 21h09.
A missão Artemis II parte do Cabo Canaveral, na Flórida, nesta quarta-feira, 1. Essa será a primeira viagem tripulada à Lua desde o fim do programa Apollo, em 1972, e marcará a estreia do módulo Orion com humanos a bordo.
Previsto para durar cerca de dez dias, o voo levará quatro tripulantes a bordo da nave Orion spacecraft, lançada pelo foguete Space Launch System, em um trajeto que passará pelo lado oculto do satélite natural antes do retorno à Terra.
A missão não prevê pouso lunar, mas funcionará como um teste fundamental para verificar o funcionamento da nave e de seus sistemas em ambiente de espaço profundo. Caso tudo corra bem, a Artemis II abrirá caminho para futuras missões que deverão levar astronautas novamente à superfície lunar nos próximos anos, de acordo com a NASA.
Os quatro tripulantes são três astronautas da NASA, Reid Wiseman, Victor J. Glover e Christina Koch, e um da Canadian Space Agency, Jeremy Hansen.
Além do caráter tecnológico, a missão também representa marcos na história da NASA: Koch será a primeira mulher a viajar até a Lua e Glover o primeiro homem negro a participar de um voo lunar.
O astronauta Reid Wiseman comandará a missão Artemis II, sendo responsável por liderar a tripulação e supervisionar as operações gerais do voo. Como comandante, ele terá a tarefa de coordenar as atividades da equipe e garantir que todos os sistemas e procedimentos sejam executados conforme o planejado durante a viagem.
Veterano de 27 anos da Marinha dos Estados Unidos e piloto de testes, Wiseman foi selecionado astronauta da NASA em 2009. Cresceu em Baltimore, Maryland, perto de uma base da Guarda Nacional, observando os jatos militares sobrevoarem a cidade.
"Quero fazer aquilo", ele disse em entrevista ao podcast NASA's Curious Universe. "Voar é liberdade para mim."
Em 2014, participou da missão Expedition 41 na Estação Espacial Internacional, onde passou 165 dias como engenheiro de voo, realizou mais de 300 experimentos científicos e completou duas caminhadas espaciais que somaram quase 13 horas. Também chegou a ser chefe do Escritório de Astronautas da NASA entre 2020 e 2022, posto que ocupa quem define as tripulações das missões.
Ao ser anunciado como comandante da Artemis II, Wiseman destacou o peso simbólico da missão. "É uma honra incrível liderar essa equipe. Vamos levar conosco não apenas nossos países, mas toda a humanidade", afirmou durante coletiva transmitida pela NASA. "Nenhum de nós faz isso sozinho. Há milhares de pessoas por trás de cada lançamento."
Ele também destacou a dimensão humana do desafio.
Pai de duas filhas, Wiseman perdeu a esposa Carroll para o câncer em 2020 e, segundo o The Sunday Times, chegou a cogitar abandonar a carreira de astronauta quando ela foi diagnosticada, mas foi ela própria quem o impediu.
Conciliar a profissão com a paternidade solo é, segundo ele, o maior desafio de sua vida.
Na missão Artemis II, Victor J. Glover atuará como piloto da nave Orion. Sua função inclui auxiliar o comandante nas operações de voo e monitorar os sistemas da espaçonave durante as diferentes fases da missão, desde a trajetória até as manobras no espaço profundo.
Ex-piloto de caça e piloto de testes da Marinha dos Estados Unidos, Glover acumulou mais de 3.500 horas de voo em mais de 40 aeronaves e realizou 24 missões de combate antes de ser selecionado como astronauta da NASA em 2013.
Ele já esteve no espaço anteriormente como piloto da missão SpaceX Crew-1, que o levou à Estação Espacial Internacional por 168 dias, onde completou quatro caminhadas espaciais e se tornou o primeiro astronauta negro a integrar uma tripulação completa de longa duração na estação.
Quando sobrevoar a Lua na Artemis II, Glover se tornará o primeiro homem negro a participar de uma missão lunar.
Ele traça um paralelo entre o momento atual e o lançamento da Apollo 8, em 1968, marcado por assassinatos políticos e divisão social nos Estados Unidos. "Foi um momento difícil para o país", disse ao The New York Times. "Espero que possamos criar um ponto de referência para a nossa geração que seja igual, ou talvez até maior, porque é atual e é nosso."
No início de sua carreira naval, um oficial lhe deu o indicativo de chamada "Ike", abreviação de I Know Everything ("eu sei de tudo").
O apelido, segundo ele, reflete a obsessão com que se preparou para cada etapa da carreira, incluindo a seleção para astronauta. Estudou arquivos, ouviu gravações das missões Apollo e passou a guiar-se por três perguntas: Como uso isso? Como quebro isso? Como isso me quebra?
A astronauta Christina Koch atuará como especialista de missão na Artemis II. Esse papel envolve a condução de experimentos, monitoramento dos sistemas da nave e apoio às operações da tripulação durante o voo.
Engenheira elétrica e física formada pela North Carolina State University, Koch foi selecionada astronauta em 2013. Parte da mesma turma de Glover, ela ganhou destaque em 2019 ao estabelecer o recorde de missão espacial mais longa realizada por uma mulher, com 328 dias consecutivos na Estação Espacial Internacional.
Durante essa permanência, também participou das três primeiras caminhadas espaciais compostas exclusivamente por mulheres, totalizando 42 horas e 15 minutos de atividade extraveicular. Na Artemis II, Koch será a primeira mulher a viajar até a Lua.
Ela é a única integrante da tripulação sem formação militar.
Antes de se tornar astronauta, trabalhou desenvolvendo instrumentos científicos para missões da NASA, incluindo a sonda Juno, que orbita Júpiter, e passou um inverno rigoroso na Estação Amundsen-Scott, no Polo Sul.
Colegas do Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory, onde trabalhou como engenheira, descrevem uma profissional de modéstia e determinação raras. "Christina compete com Christina", disse Chuck Schlemm, um de seus ex-colegas, ao Times. "Ela não está em competição com outras pessoas. Ela quer se tornar melhor — e acho que não percebeu que o mundo inteiro estava de olho nela."
Koch explicou à NASA que seu interesse pela exploração espacial começou na infância, quando viu a famosa fotografia da Terra surgindo no horizonte lunar — a imagem conhecida como Earthrise, capturada na missão Apollo 8. Tinha 12 anos quando soube que queria ser astronauta, e cobriu as paredes do quarto com pôsteres comprados na loja do Kennedy Space Center durante as férias da família.
O astronauta canadense Jeremy Hansen, da Canadian Space Agency, também participará da Artemis II como especialista de missão.
Durante a viagem, ele ajudará nas operações da nave e conduzirá observações científicas da superfície lunar, incluindo regiões do lado oculto que nunca foram observadas diretamente por astronautas, segundo o The New York Times.
Ex-piloto de caça da Força Aérea do Canadá e físico, Hansen cresceu em uma fazenda próxima a Ailsa Craig, em Ontario, onde o pai construiu para ele uma casa na árvore elaborada que funcionava como sua primeira nave espacial.
Sua trajetória para o espaço começou cedo: aos 12 anos ingressou no esquadrão de cadetes da força aérea, obteve licença de voo planador aos 16 e piloto privado aos 17.
Selecionado pela Agência Espacial Canadense em 2009, foi o primeiro canadense a liderar uma turma de treinamento de astronautas da NASA, em 2017.
A missão Artemis II marcará seu primeiro voo espacial e fará dele o primeiro canadense a viajar até a Lua.
Para se preparar psicologicamente para o voo, ele disse ao Times em janeiro que participou de uma jornada de introspecção guiada por um ancião indígena canadense, buscando responder a uma pergunta que o perturbava: como posso ser feliz quando há tanta gente sofrendo no mundo?
A resposta que encontrou foi simples. "Tudo que você precisa fazer é acordar todos os dias e usar sua energia para o bem."
Sentado com os colegas no sofá do programa de Stephen Colbert em abril de 2023, Hansen brincou com leveza sobre sua presença na missão. "Se algo der errado, a NASA pode culpar o Canadá."