Café: estudo investigou como a cafeína age no cérebro após privação de sono (Freepik)
Redatora
Publicado em 17 de maio de 2026 às 06h01.
Depois de uma noite mal dormida, o café pode fazer mais do que espantar o sono. Um novo estudo da Universidade Nacional de Singapura sugere que a cafeína pode ajudar a recuperar parte dos prejuízos na memória causados pela privação do descanso noturno.
Os resultados foram divulgados por pesquisadores da Escola de Medicina Yong Loo Lin e publicados no portal oficial da universidade. A avaliação foi de que a substância restaurou conexões neurais afetadas pela falta de sono sem provocar hiperestimulação em outras regiões do cérebro.
Para os resultados, pesquisadores analisaram o funcionamento do hipocampo, área cerebral ligada à memória e à aprendizagem. Os cientistas observaram que a privação de sono interfere diretamente na região conhecida como CA2, responsável por processos relacionados à memória social e ao reconhecimento de outras pessoas.
Nos experimentos, os participantes dormiram cerca de cinco horas a menos do que o considerado normal. Após a restrição de sono, os pesquisadores identificaram alterações na comunicação entre neurônios e redução da chamada plasticidade sináptica, mecanismo que permite ao cérebro fortalecer ou enfraquecer conexões neurais com base nas experiências vividas.
Segundo o estudo, a perda de sono provocou déficits na memória de reconhecimento social, habilidade usada para identificar rostos familiares e lembrar interações do cotidiano.
Os cientistas afirmam que dormir pouco compromete tanto o funcionamento neural quanto comportamentos ligados à convivência social.
Os pesquisadores observaram que o consumo de cafeína durante sete dias antes da privação de sono ajudou a restaurar a atividade cerebral na região CA2.
Segundo os resultados, houve recuperação da comunicação sináptica, normalização da plasticidade neural e reversão dos prejuízos relacionados à memória social. A equipe destacou que o efeito ocorreu de forma seletiva, atingindo principalmente os circuitos cerebrais afetados pela falta de sono.
De acordo com Lik-Wei Wong, autor do estudo, dormir menos do que o necessário interfere em circuitos específicos ligados à memória e ao comportamento, enquanto a cafeína foi capaz de restaurar parte dessas funções.
O estudo constatou que a cafeína melhora foco, atenção e estado de alerta porque bloqueia receptores de adenosina, substância associada à sensação de fadiga. Mesmo assim, médicos alertam que o café não deve substituir noites adequadas de descanso.
O neurologista Lucio Huebra afirma que o consumo frequente pode mascarar sinais de privação crônica de sono sem restaurar completamente as funções cognitivas afetadas. O especialista acrescentou que noites mal dormidas prejudicam principalmente memória de curto prazo, concentração, raciocínio e tomada de decisões.
Os pesquisadores avaliam que os resultados ajudam a ampliar a compreensão sobre os mecanismos biológicos envolvidos no declínio cognitivo associado à privação de sono.
A equipe pretende investigar mais profundamente como a cafeína atua na consolidação e recuperação da memória, além da relação entre circuitos neurais específicos e comportamento.
Segundo os cientistas, as descobertas também podem contribuir para o desenvolvimento de terapias voltadas a doenças associadas à função cognitiva, incluindo Alzheimer e outros distúrbios neuropsiquiátricos.
De acordo com a Food and Drug Administration (FDA) e a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, o consumo moderado de cafeína é considerado seguro para adultos.
Os órgãos recomendam ingestão entre 200 mg e 400 mg por dia, quantidade equivalente a cerca de três ou quatro xícaras de café.
Especialistas também orientam evitar o consumo da substância no fim da tarde e à noite, já que a cafeína pode permanecer ativa no organismo por até sete horas. Entre os efeitos adversos mais comuns do excesso estão insônia, ansiedade, taquicardia e piora da qualidade do sono.