Ciência

A ciência está mais próxima de reverter perda de memória no Alzheimer

Após décadas dedicadas ao estudo de uma proteína específica, o professor Nicholas Tonks pode estar mais próximo de oferecer uma resposta científica à doença

Alzheimer: transtorno cerebral é, majoritariamente, causado pelo acúmulo de uma proteína chamada beta-amiloide no cérebro (haydenbird/Getty Images)

Alzheimer: transtorno cerebral é, majoritariamente, causado pelo acúmulo de uma proteína chamada beta-amiloide no cérebro (haydenbird/Getty Images)

Paloma Lazzaro
Paloma Lazzaro

Estagiária de jornalismo

Publicado em 30 de abril de 2026 às 13h59.

Um estudo do Cold Spring Harbor Laboratory, nos Estados Unidos, identificou uma estratégia capaz de melhorar a memória e reduzir o acúmulo de estruturas associadas ao Alzheimer em modelos animais.

A pesquisa, conduzida pelo professor Nicholas Tonks e sua equipe, aponta a proteína PTP1B como um novo alvo terapêutico para a doença, com potencial de agir em múltiplas frentes simultaneamente, algo que os tratamentos atuais ainda não conseguem oferecer.

O que causa o Alzheimer?

Entre os processos mais estudados na progressão da doença está o acúmulo de depósitos de uma proteína chamada beta-amiloide (Aβ) no cérebro.

O peptídeo é produzido naturalmente pelo organismo, mas em pessoas com Alzheimer ele se acumula em placas que interferem no funcionamento dos neurônios, sobretudo da bainha de mielina. Esse mecanismo é considerado central para o avanço da doença.

O cérebro conta com células imunes próprias, as micróglias, que deveriam ser responsáveis por eliminar esse tipo de resíduo. O problema é que, com o tempo, essas células perdem a capacidade de realizar essa função de limpeza com eficiência, permitindo que as placas se acumulem.

Como funciona a nova abordagem

Tonks descobriu a proteína PTP1B em 1988 e passou as décadas seguintes mapeando sua atuação no organismo. Ela é uma enzima da família das fosfatases de tirosina, proteínas que regulam sinais dentro das células ao remover grupos fosfato de outras proteínas.

A PTP1B atua como reguladora de processos metabólicos essenciais, especialmente nas vias de sinalização da insulina e da leptina, hormônios ligados ao controle do açúcar no sangue e do peso corporal. Por isso, a proteína já é estudada há décadas como alvo para tratamentos de diabetes tipo 2 e obesidade.

No cérebro, a PTP1B também participa da regulação de sinapses, da resposta imune cerebral e de funções ligadas à memória e ao aprendizado. É justamente essa atuação ampla, metabólica e neurológica ao mesmo tempo, que coloca a proteína no centro de uma nova geração de pesquisas sobre o Alzheimer.

No estudo mais recente do laboratório de Tonks, conduzido junto ao estudante de doutorado Yuxin Cen e ao pesquisador pós-doutoral Steven Ribeiro Alves, a equipe investigou o que acontece quando essa proteína é bloqueada.

Os experimentos em camundongos geneticamente modificados para desenvolver Alzheimer mostraram que, sem a PTP1B ativa, os animais apresentaram melhora nos déficits de aprendizado e memória e redução das placas de beta-amiloide no cérebro.

O mecanismo identificado envolve uma segunda proteína, a SYK, que regula a atividade das micróglias. A PTP1B funciona como um freio sobre a SYK. Ao removê-la, a sinalização se intensifica e as micróglias voltam a eliminar o excesso de Aβ com mais eficiência.

"Nossos resultados sugerem que a inibição da PTP1B pode melhorar a função das micróglias, eliminando as placas de Aβ", disse Cen à Science Daily.

A conexão inesperada com diabetes e obesidade

Um aspecto que amplia o interesse clínico da descoberta é a relação entre Alzheimer e doenças metabólicas.

Obesidade e diabetes tipo 2 já são reconhecidos como fatores de risco para o desenvolvimento de Alzheimer, e a PTP1B é estudada há anos como alvo terapêutico justamente nessas condições metabólicas.

Isso significa que inibidores dessa proteína já estão em desenvolvimento para outras finalidades, o que pode acelerar o caminho até aplicações no Alzheimer.

O que muda para os pacientes?

Os tratamentos disponíveis hoje para Alzheimer atuam principalmente tentando reduzir o acúmulo de beta-amiloide, mas com benefícios restritos para boa parte dos pacientes.

A proposta do laboratório de Tonks é diferente. Em vez de uma única frente, os inibidores de PTP1B atuariam em múltiplos aspectos da doença ao mesmo tempo. "Usar inibidores de PTP1B que atuam em vários aspectos da patologia, incluindo a eliminação do Aβ, pode oferecer um impacto adicional", afirmou Ribeiro Alves à Science Daily.

O próximo passo é desenvolver esses inibidores em parceria com a empresa DepYmed, Inc., com a perspectiva de combiná-los a medicamentos já aprovados. "O objetivo é retardar a progressão do Alzheimer e melhorar a qualidade de vida dos pacientes", disse Tonks.

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