Demência: pesquisas investigam como alterações metabólicas podem impactar a memória (Imagem gerada por IA/EXAME)
Redatora
Publicado em 21 de junho de 2026 às 09h20.
Diabetes e demência estão mais conectados do que os cientistas imaginavam. Um conjunto crescente de pesquisas sugere que alterações no metabolismo da glicose, na ação da insulina e na saúde dos vasos sanguíneos podem influenciar diretamente o funcionamento do cérebro e o risco de doenças neurodegenerativas.
As evidências foram reunidas em uma análise publicada por pesquisadores na plataforma The Conversation. Segundo os autores, a relação parece funcionar em mais de uma direção: o diabetes pode aumentar o risco de demência, enquanto alterações associadas ao Alzheimer também podem afetar o metabolismo da glicose.
Veja as principais descobertas destacadas pelos pesquisadores:
Diversos estudos indicam que pessoas com diabetes apresentam maior probabilidade de desenvolver demência ao longo da vida. Episódios frequentes de hipoglicemia também foram associados a um risco mais elevado de declínio cognitivo.
A resistência à insulina, característica central do diabetes tipo 2, não afeta apenas órgãos como fígado e músculos. Pesquisas mostram que ela também pode comprometer a capacidade das células cerebrais de utilizar glicose como fonte de energia.
Embora represente apenas cerca de 2% do peso corporal, o cérebro consome aproximadamente 20% da energia do organismo. Em pessoas com demência, esse aproveitamento da glicose pode se tornar menos eficiente, afetando o funcionamento dos neurônios.
A relação entre as duas doenças não ocorre em apenas um sentido. Estudos sugerem que pessoas com Alzheimer podem apresentar alterações no metabolismo da glicose mesmo sem terem sido diagnosticadas com diabetes.
A combinação entre resistência à insulina e dificuldades no uso da glicose pelas células cerebrais levou alguns pesquisadores a utilizar informalmente a expressão "diabetes tipo 3" para descrever mecanismos observados na doença de Alzheimer.
Níveis elevados ou instáveis de glicose podem danificar vasos sanguíneos em todo o corpo, incluindo os do cérebro. Isso reduz o fluxo de sangue e o fornecimento de oxigênio, fatores frequentemente associados ao declínio cognitivo.
O diabetes também pode comprometer a barreira hematoencefálica, responsável por proteger o cérebro. Esse processo favorece a inflamação, considerada um dos mecanismos envolvidos no desenvolvimento de doenças neurodegenerativas.
A metformina, um dos medicamentos mais utilizados contra o diabetes tipo 2, tem sido investigada por possíveis efeitos protetores sobre o cérebro. Algumas pesquisas sugerem associação entre seu uso e menor risco de demência.
Medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1, como a semaglutida presente em Ozempic e Wegovy, também vêm sendo estudados por seu potencial impacto na saúde cerebral. Estudos observacionais apontam associação com menor risco de demência em pessoas com diabetes.
Novas evidências sugerem que os inibidores de SGLT2, uma classe de medicamentos utilizada no tratamento do diabetes tipo 2, podem estar associados a um menor risco de demência, incluindo Alzheimer e demência vascular.
Esses remédios ajudam a controlar a glicose ao aumentar sua eliminação pela urina e podem exercer efeitos protetores ao reduzir processos inflamatórios relacionados ao cérebro.